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“Nem nós [enfermeiros] tínhamos a noção do que isto viria a ser”

Se uns viram as suas vidas estagnadas com a chegada de um vírus que se tornou uma preocupação global, outros chegaram-se à frente com a nobre missão de cuidar. Uma enfermeira, uma piloto, uma chef e uma comissária da PSP contam-nos as suas histórias da pandemia.

Foto: Mariline Alves
23 de julho de 2020 | Rita Silva Avelar

Patrícia Pereira, 35 anos, nasceu em Vila Real e é enfermeira no serviço de urgência central do Hospital de Santa Maria há 15 anos. É um dos elementos fundamentais da linha da frente do combate à pandemia que submeteu o mundo a um estado de alerta geral, e trabalha entre a urgência dita normal e a urgência "Covid-19", vestindo os famosos EPIs [Equipamentos de Proteção Individual] várias vezes ao dia. Recorda os primeiros em que o mundo se fechou em casa, e que os hospitais começaram num frenesim sem precedentes, como se fossem hoje. "As pessoas, ao princípio, não estavam crédulas, achavam que o vírus não chegava a Portugal. Muitas achavam que nós [enfermeiros] estávamos a usar proteções a mais, sentiam até um certo afastamento da nossa parte, o que as levava a ficar desconfiadas. Mas também tínhamos outras pessoas que eram o extremo, acabavam por ter cuidados a mais. A verdade é que nem nós tínhamos a noção do que isto viria a ser" desabafa. Todos os dias, o boletim da DGS dá conta de mais centenas de pessoas infectadas. Até à data, em Portugal, 48.771 pessoas foram infectadas com Covid-19, e os números não estagnam.

Focada na sua missão, Patrícia refere o medo pela incerteza do futuro, que é imperscrutável. "Neste momento assusta-me não saber o que é que podemos esperar na fase do inverno. Já por si, é uma altura em que temos uma afluência muito grande de pessoas, com gripes e pneumonias habituais. Mais a Covid-19, que estamos infelizmente a viver. Tudo isso me deixa ansiosa por não saber com o que é que podemos contar."

Num cenário que já por si é caótico, Patrícia chega a fazer turnos extraordinários de 18 horas seguidas entre as duas urgências hospitalares. Além da angústia que este vírus provoca nas pessoas, esta enfermeira da linha da frente refere as alterações físicas que são evidentes. "Quando as pessoas chegam com grande dificuldade respiratória, já por si, isso altera a pessoa, tornando-a mais agitada. O facto de não nos conseguirem ver a cara, não perceberem o que se está a passar à sua volta (até porque temos procedimentos que as pessoas não compreendem) provoca, muitas vezes, uma ansiedade maior nelas. Por vezes não compreendem porque têm de ficar isoladas e não podem nem andar pelos corredores nem ir à casa de banho normalmente."

São também os familiares quem muitas vezes precisam de apoio, revela Patrícia. E são precisamente os enfermeiros que fazem a importante ponte entre os doentes e os mesmos. "Para os familiares é sempre complicado. Tentamos dar o máximo de informações possíveis. Agora há toda uma limitação em termos de visita e de acompanhamento do serviço de urgência. Quem está de fora fica muitas vezes longas horas sem saber o que está a passar com o familiar, provocando mais ansiedade em todos. Além de os doentes se sentirem mais desamparados, a nós, enfermeiros, também nos exigem mais atenção. Tentamos colmatar esse afastamento."

Patrícia Pereira, 35 anos, enfermeira nas urgências do Hospital de Santa Maria.
Patrícia Pereira, 35 anos, enfermeira nas urgências do Hospital de Santa Maria. Foto: Mariline Alves

Também Patrícia teve que ficar afastada da filha de cinco anos vários dias. Sobre a exaustão, diz que não há tempo para pensar. Encontramo-la a meio de um turno, atarefada e concentrada na sua missão, para captar este retrato, depois de termos conversado uns dias antes. Patrícia não acredita no regresso à dita normalidade, embora ache que o desconfinamento deveria ser mais cauteloso. "É preciso usar a máscara. Vejo muitos jovens juntos em esplanadas, juntos, sem máscaras, o que se acaba por reflectir no que depois vemos a chegar ao hospital. Gostava que as pessoas começassem a ter mais noção da importância que nós, enfermeiros, temos ao nível dos cuidados de saúde. É importante o médico, o enfermeiro, o assistente operacional, a senhora da limpeza…Se não, nada disto funcionava. Às vezes, as pessoas esquecem-se disso" acrescenta.

Em relação ao dia da pandemia mais marcante até à data, evoca um episódio em particular. "Quando um paciente se virou para nós e disse que não sabia se iria voltar a ver os familiares. Acabamos por nos ver naquele papel, e imaginamos como seria se fossemos nós a estar ali. Quando as pessoas dizem este tipo de coisa parece que estão a assumir que nunca mais vão ver a família. Isso fica-nos marcado."

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