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"Cheguei a ouvir em castings: 'Não pedimos modelos negras!'", conta Nayma

De feições tão exóticas que já se torna um lugar-comum citá-las, a esbelta Nayma Mingas (de seu nome Cláudia Mingas) é uma das modelos portuguesas mais proeminentes, duradouras e bem-sucedidas do pós-25 de Abril, fazendo parte da primeira geração de top models nacionais.

Cláudia Mingas
Cláudia Mingas
25 de julho de 2019 | Rita Silva Avelar

Nasceu em Lisboa, a 25 de janeiro de 1974, poucos meses antes da Revolução dos Cravos, mas foi em Luanda que cresceu e que viveu o início da adolescência. Já em Portugal, tornou-se modelo de profissão, quando aos 15 anos foi descoberta pelo também modelo João Carlos. O seu modo de desfilar confiante e ligeiramente agressivo (ficou carinhosamente conhecida por "Pantera Negra", o que também de se deve às feições arrebatadoramente felinas) conquistou designers como Geoffrey Beene. E apesar de ter tido uma carreira marcada por episódios racialmente discriminatórios, isso nunca a fez desistir. Pelo contrário, fê-la voar mais alto.

Filha de Ruy Mingas, músico e diplomata angolano, e de Julieta Branco Lima, Nayma Mingas viveu a sua infância em Luanda e em 1976 regressou a Portugal com a família. Começou, desde logo, a ser presença assídua nos desfiles de Ana Salazar, de Augustus, de Fátima Lopes, de Miguel Vieira, de João Rôlo, de José António Tenente, de Luís Buchinho, de Dino Alves, de Maria Gambina, de Manuel Alves & José Manuel Gonçalves e de Ricardo Preto. E a lista continua. Mas nem tudo foram rosas, como revela à Máxima, e sofreu por várias vezes a discriminação racial por ser negra. Porém, a determinação e o espírito livre fizeram-na chegar às passerelles internacionais de nomes como o de Geoffrey Beene. Em 2004, publicou o livro Nayma A Arte de Um Rosto Perfeito. Foi, em 2017, o "rosto" da campanha #NoOneCanJudgeMe da marca italiana Intimissimi. Foi modelo em capas e editoriais de moda da Máxima, ao longo dos anos. Apoia várias organizações não-governamentais, lutando pela igualdade de género. Está a fazê-lo, neste momento, em Angola.

Nasceu na ebulição da Revolução dos Cravos. Com que idade foi para Luanda e como recordam os seus pais esses tempos?

E fui para Luanda quando era bebé. Os meus pais, como todos os que, na época, lutaram pela independência dos nossos países, estavam muito expectantes no seu regresso a Angola. Quando falamos sobre esses tempos, as memórias são sempre muito comoventes. Afinal, deve ser arrebatador fazer parte da história da libertação colonial de qualquer nação. Os meus pais contam sempre, de modo muito emocionado, como se sentiram no dia em que a bandeira de Angola foi hasteada, pela primeira vez. Adorava ter também essa memória, mas eu fico feliz por ser filha, sobrinha e neta de quem lutou e de quem se sacrificou por esse dia e por poder contá-la em "segunda mão".

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Quais são as primeiras memórias mais felizes da sua infância? Existe algum episódio que guarde com carinho?

Felizmente, posso dizer que tive uma infância muito feliz e, por isso, repleta de boas memórias. Embora faça parte da geração que foi introduzida aos primeiros jogos de computadores um dia vou recuperar o nosso Commodore64 [risos], a minha infância foi essencialmente a praticar muito desporto, ou não fosse eu filha de uma atleta, a estudar, a ler muita banda desenhada ainda sou apaixonada por BD e a brincar na rua com os meus irmãos e vizinhos, sendo muitos deles ainda meus amigos.

Como é que se dá o acaso de começar a carreira de modelo? Há uma história em torno disso…

Sim. E acontece por acaso e como consequência de eu estar em Portugal por causa dos compromissos profissionais do meu pai. O meu sonho era ser designer e eu nunca considerei a hipótese de ser modelo, pois era uma verdadeira "maria-rapaz"… Daí que a minha história não seja muito diferente das histórias da maior parte dos modelos que começaram na minha época, visto que nesse tempo ser-se modelo não era o mesmo que é hoje. Um dia, o meu pai deu-nos convites que tinha recebido para um desfile de moda e lembro-me de na altura ter visto a desfilar, entre muitos, o João Carlos [modelo de referência nos anos 80]. Passados uns meses, fui descoberta numa festa de carnaval por esse mesmo modelo que também formava modelos.

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Nessa altura ser modelo era algo avesso às famílias mais conservadoras. Como reagiram os seus pais?

Eu não posso dizer que eles tenham ficado extasiados com o convite, pois, tal como já disse, nessa época ser modelo não era a profissão mais pretendida [em Portugal]... Inicialmente, os meus pais argumentaram sobre os possíveis contras, mas eu insisti e eles deixaram-me "voar". Na altura, muita gente, senão a grande maioria, via a profissão de modelo de forma totalmente errada. Contudo, os meus pais sempre confiaram nos filhos e nos valores e princípios com os quais os educaram e deixaram-me arriscar, sempre garantindo o apoio familiar e o bem-estar emocional que são essenciais para quem envereda por uma vida profissional, onde, tantas vezes, se está fisicamente afastado do núcleo familiar, sobretudo quando se é jovem.

Tem uma forma tão particular e graciosa de desfilar… Recorda-se dos tempos em que aprendeu a fazê-lo?

Quando iniciei a minha formação de modelo, tanto eu como os meus colegas sabíamos que era essencial ter formação reconhecida pelos profissionais do meio, que terminava com a apresentação ao público, onde as agências existentes também faziam o seu scouting. Na época, quase não existiam concursos de modelos e o scouting estava quase todo limitado às escolas de modelos. A minha formação com o João [Carlos] não só me garantiu visibilidade, como, e mais importante de tudo, deu-me a técnica e um conhecimento mais profundo sobre o mundo onde sonhava entrar. Recordo-me de o João me dizer que eu tinha um modo muito particular de andar e que isso poderia dificultar a minha contratação por ser muito diferente do que se fazia na época. Mas disse-me que eu não deveria desistir porque era isso que me fazia diferente... Na altura, eu não entendia o que ele queria dizer. Só mais tarde, num desfile da Ana Salazar, onde pediram às modelos para desfilarem como eu, é que me deparei com um dilema: eu posso ensinar a técnica, mas o meu andar é o meu ADN...

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Sentiu preconceito em relação às modelos negras, ao longo da sua carreira? Em que momentos?

Infelizmente, sim. Alguns aconteciam em castings, onde eu chegava a estar horas para ser vista e quando outras modelos [caucasianas] que tinham chegado depois de mim eram avaliadas antes. E houve castings onde nem sequer fui avaliada. Eu cheguei a ouvir em castings: "Mas nós não pedimos modelos negras!" E cheguei a estar horas em castings e, no final, ouvir dizer que o casting já estava encerrado... Em todas essas situações eu nunca era contratada. Enfim... Após muitas dessas situações, eu recordo-me de ter pedido à minha agente que garantisse que os castings para onde me enviasse fossem de clientes que quisessem ver modelos negras. Contudo, digo sempre que, embora eu tenha passado por essas situações, foram mais os clientes que me disseram que sim e que apostaram em mim do que o contrário. E a esses eu serei eternamente grata. Em relação ao preconceito generalizado, sempre que alguém o questiona, pergunto: à parte as referências nacionais, quantos modelos negros (e negras), a nível internacional, tivemos como referência durante décadas? Felizmente, o mercado mudou muito e para melhor. Cada vez menos é notícia: "O primeiro negro, o primeiro asiático a fazer..." E nesse sentido estamos todos de parabéns, pois a aceitação da diversidade humana está cada vez mais presente no nosso quotidiano e isso reflete-se em todos os mercados, sendo que o da moda é, provavelmente, um dos mais fortes espelhos dessa mudança.

Celebrou 20 anos de carreira, há dois anos. Que momento recorda com mais carinho, ao longo destes anos?

São tantos... Mas há dois que eu guardo com muito carinho. Um, foi ter tido a honra de conhecer pessoalmente, em Paris, um dos maiores criadores e um grande revolucionário da moda e da visão sobre a mulher, Monsieur Yves Saint Laurent. Eu recordo-me de ter telefonado aos meus pais, completamente histérica, e de lhes ter dito que não lavaria a minha mão, pois tinha sido tocada pelo grande mestre [risos]… O outro, foi o dia em que eu tive de me preparar sozinha para um desfile, pois os maquilhadores e os cabeleireiros simplesmente não o faziam... Quando o designer se apercebeu que eu estava a arranjar-me sozinha, sem dizer nada e sem fazer alarido algum, alterou a ordem do desfile e definiu que iria ser eu a modelo a abrir e a fechar o desfile. E assim foi. Esse designer era o Senhor Geoffrey Beene.

Qual diria ter sido o momento mais difícil da sua vida profissional? Ou o mais desafiante?

Um dos momentos mais desafiantes de que me recordo, que se mantém como um dos meus favoritos, foi um editorial para a vossa revista inspirado no Jean-Paul Goude [editorial importante para a Máxima publicado na edição de junho de 2006, com produção de Helena Assédio Maltez e com fotografia de Pedro Ferreira]. Eu recordo-me que foram 12 horas de trabalho e embora estivéssemos todos exaustos, ninguém da equipa questionou o tempo de trabalho, pois estávamos todos muito expectantes com o resultado. Ainda hoje é um dos trabalhos que eu mais gosto de citar, pois acredito que cumprimos bem o nosso papel, sendo que olho para essas mesmas fotos como intemporais.

Qual é o melhor conselho que daria a uma mulher?

Que nunca se compare. Já o disse Oscar Wilde: "Be yourself. Everyone else is already taken."
Saiba mais Angola, Geoffrey Beene, Pantera Negra, Lisboa, Nayma Mingas, Portugal, Luanda, Ana Salazar
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