"Não à guerra e liberdade para a Palestina." Nos Óscares de 2026, nem tudo é sobre vestidos - há política na arte
Entre discursos, aplausos e algumas declarações inesperadas, a maior noite do cinema transformou o palco num lugar de posicionamento.
Eram cerca das 23 horas em Lisboa quando Conan O'Brien apareceu no ecrã do meu computador para dar início à 98.ª edição dos Óscares, em Los Angeles, no Dolby Theatre. Esta foi a segunda vez que O’Brien apresentou a cerimónia e o seu monólogo de abertura serviu de ponto de partida para uma noite que prometia mais do que apenas prémios. "Aviso-vos já: esta noite pode tornar-se política", disse.
Nos últimos tempos, com a instabilidade política que se vive um pouco por todo o mundo, tem sido notório o silêncio de muitas figuras de Hollywood. Em parte, isso deve-se ao facto de várias personalidades que, durante anos, se mostraram ativas e vocalmente críticas em relação a decisões políticas terem enfrentado reações intensas - sobretudo quando falaram sobre temas como a guerra entre Israel e a Palestina, as políticas de imigração nos Estados Unidos ou o crescente debate em torno da liberdade de expressão no país. Em resposta, muitos eventos mediáticos têm adotado uma postura mais cautelosa, evitando abordar diretamente assuntos considerados "sensíveis".
Mas até que ponto é possível ignorar o que acontece à nossa volta?
Hollywood - ou pelo menos parte dela - já não se esconde apenas atrás do brilho e do glamour. E esta edição dos Óscares acabou por ser prova disso. Afinal, a arte sempre teve uma dimensão política, mesmo quando disfarçada por narrativas aparentemente neutras. E isso ficou claro em vários momentos da noite, sobretudo nos discursos dos vencedores.
Quando o filme Two People Exchanging Saliva venceu na categoria de Melhor Curta-Metragem de Ação Real, o momento tornou-se particularmente simbólico. O prémio foi partilhado por dois filmes - algo que aconteceu apenas sete vezes ao longo da história dos Óscares - tornando a vitória ainda mais invulgar. No discurso de aceitação, o co-realizador Alexandre Singh agradeceu à Academia por premiar "um filme francês realizado por um franco-indiano-britânico, um romeno-americano, um argentino e um italiano", com atrizes do Luxemburgo, do Kosovo e do Irão.
Num mundo que descreveu como "sombrio, absurdo, ridículo e horripilante", Singh sublinhou que a arte continua a ser um veículo de mudança. E fez até uma pausa para acrescentar, com humor, que essa mudança também pode acontecer "através do teatro e do ballet" - uma pequena provocação que arrancou risos na sala (sorry not sorry, Timothée Chalamet).
Os discursos não foram o único espaço em que se fizeram sentir posições políticas. Muitos convidados optaram por se expressar através de crachás e pins. Alguns exibiam a inscrição "Artists4Ceasefire" - um coletivo de artistas e ativistas que apela a um cessar-fogo na guerra entre Israel e a Palestina - enquanto outros usavam simplesmente a mensagem "Just Peace".
Entre os poucos que nunca esconderam as suas posições políticas está Javier Bardem. Ao subir ao palco para apresentar o prémio de Melhor Filme Internacional, o ator foi direto: "Não à guerra e liberdade para a Palestina." O Dolby Theatre respondeu com uma ovação imediata. Bardem não se limitou às palavras - trazia também no fato dois crachás com as mensagens "No War" e "Free Palestine".
A política, porém, não esteve presente apenas nas questões internacionais. Houve também críticas, mais ou menos subtis, à realidade política norte-americana.
Quando Jimmy Kimmel subiu ao palco para apresentar os filmes nomeados na categoria de documentário, aproveitou para fazer um comentário que ecoou pela sala: "Falamos muito de coragem em cerimónias como esta, mas contar uma história que pode custar-nos a vida - isso é verdadeira coragem."
A piada seguinte foi ainda mais direta. "Como sabem, há países cujos líderes não apoiam a liberdade de expressão. Não tenho liberdade para dizer quais." O comentário arrancou gargalhadas, mas também deixou subentendido o clima político que se vive nos Estados Unidos. A abordagem esteve em sintonia com o tom da noite: o próprio Conan O’Brien, enquanto anfitrião, lançou várias alfinetadas ao presidente Donald Trump sem nunca o mencionar diretamente.
Mais tarde, quando David Borenstein, realizador do documentário Mr. Nobody Against Putin, subiu ao palco, voltou a trazer a política para o centro do discurso. "Mr. Nobody Against Putin é sobre como se perde um país", começou por dizer. "E o que percebemos ao trabalhar com estas imagens é que um país se perde através de inúmeros pequenos atos de cumplicidade."
Borenstein continuou: "Quando agimos como cúmplices, quando um governo assassina pessoas nas ruas das nossas cidades e nós ficamos em silêncio, quando oligarcas se apoderam dos meios de comunicação e passam a controlar a forma como produzimos e consumimos informação, todos nós enfrentamos uma escolha moral".
Até os próprios vencedores - ou pelo menos algumas das vitórias da noite - podem ser lidos como sinais de mudança.
Michael B. Jordan tornou-se apenas o sexto homem negro a vencer o Óscar de Melhor Ator em quase um século de história da cerimónia, juntando-se a nomes como Will Smith, Forest Whitaker, Jamie Foxx, Denzel Washington e Sidney Poitier.
Por outro lado, Valor Sentimental venceu o Óscar de Melhor Filme Internacional. Apesar de ser um dos filmes visualmente mais marcantes da categoria - tanto pela interpretação como pela narrativa e pela cinematografia - destacou-se também por ser, talvez, o menos explicitamente político entre os nomeados. Ainda assim, o realizador Joachim Trier encontrou forma de terminar o seu discurso com uma reflexão política, citando o escritor James Baldwin. Trier lembrou que todos os adultos são responsáveis por todas as crianças, e concluiu com um apelo simples: “Não votem em políticos que não levem isto a sério”.
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