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Isabel Stilwell: "Faz-me confusão a competição entre mães que as redes sociais encorajam."     

O livro "Birras de mãe" dá continuidade a um troca de palavras entre Isabel e Ana, mãe e filha, durante a adolescência da segunda, com um diário para cada uma. Agora, as conversas (e as birras) ganham novas temáticas com um humor que só se consegue com a cumplicidade da maternidade.

24 de novembro de 2020 | Rita Silva Avelar

"Guerras entre uma avó e uma mãe, livres do politicamente correto." É assim que se apresenta o novo livro escrito em duo por Isabel e Ana Stilwell, mãe e filha.

Em "Birras de mãe" [Livros Horizonte], a escritora e a artista retomam um caminho literário que começaram na adolescência de Ana, e criaram uma espécie de manual destinado a ajudar mães e filhas a sobreviver aos primeiros braços de ferro, ou seja, a todas as situações em que a expressões "no meu tempo não era assim" e "nos tempos modernos é assim" vêm à baila.

Com um humor e uma complicidade evidentes, e vendo-se separadas durante o confinamento, as duas expõem a nu e com graça todas as pequenas (e grandes) birras que atravessam, afinal, todas as gerações, da avó à neta. Conversámos com as autoras, que mantêm o tom espirituoso e cúmplice do livro.

Como acontece com quase todas as mães e filhas ao longo da vida, há um momento em que as filhas descobrem que além da mãe existe uma mulher, e um momento em que as mães descobrem que além da filha há uma mulher e também uma mãe (quando acontece). Também se passou assim convosco?

Isabel: Tem dias :). Para dizer a verdade há momentos em que sinto a Ana um bocadinho minha mãe, porque tem uma capacidade enorme de ouvir e proteger, mas geralmente não consigo mesmo deixar de a ver como filha. E de a querer manter debaixo da asa. E há ainda aqueles em que a vejo num palco ou numa conferência e penso "Aquela mulher tem muita pinta!". E andamos nisto.

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Ana: Eu acho que muitas vezes é justamente com o nascimento dos netos que se dá essa grande mudança na percepção e na relação entre mães e filhas. É no fundo a grande realização daquela profecia do "quando fores mãe vais perceber!". Sinto mesmo que foi quando comecei a perceber que a minha mãe quando me tinha tido era tão nova, tão inexperiente e que teria tantas dúvidas como eu. Isso ajudou-me a destruir um bocadinho (no bom sentido) o pedestal de "mãe" e a vê-la como mulher. Quanto a mim foi quando ouvi chamarem-me mãe pela primeira vez que pensei "ui deve ter havido aqui algum engano, porque eu mal sei atar os sapatos quanto mais ser "crescida" ao ponto de ser mãe.

"Birras de Mãe - Guerras Entre uma Avó e uma Mãe, Livres do Politicamente Correto" de Isabel Stilwell e Ana Stilwell [Livros Horizonte]

Este é um livro sobre birras. Deu birra, narrá-lo a duas vozes? A pandemia deu-vos esta ideia ou já, de certa forma, existia, mesmo que no subconsciente?

Isabel: O projeto já existia, tínhamos de continuar o nosso "diálogo" escrito, que começou quando a Ana era adolescente e uma birra em redor de uma conta de telefones deu direito a um livro, o diário de uma mãe/diário de uma filha. Mas estava na gaveta, à espera do momento certo, e o confinamento obrigatório foi essa oportunidade. Uma oportunidade muito genuína porque, de facto, estávamos separadas. E esse corte com a rotina, num momento tão inesperado como este em que o mundo se punha do avesso, deixou-nos ver com clareza muitas das birras de que tínhamos, inclusivamente, muitas saudades.

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Ana: Acho que para as duas escrever é uma forma de organizar as ideias e de expressar melhor o que sentimos. E neste caos da maternidade há pouco tempo para se falar a "sério", sem interrupções. Por isso acho que no fundo de nós sempre houve esta sensação de estar a ver as nossas birras e pensar "um dia temos que falar sobre tudo isto com mais calma" e por carta parecia uma ideia maravilhosa!

As birras de mãe e filha, e vice-versa, conseguem ser mais difíceis que as das crianças? Quando é que descobriram isso, em relação à vossa experiência pessoal?

Ana: Eu acho que estamos todos mais preparados para as das crianças. Já as esperamos e podemos conversar sobre elas. As entre mães/filhas/sogras/sogros/maridos, etc, que se intensificam tanto neste período de tanto cansaço, dúvidas, e emoções ao rubro como são os primeiros anos da maternidade, são muito mais tabu. No fundo é uma readaptação de toda a dinâmica familiar e isso por vezes é difícil.

Há um momento em que as diferenças de geração se diferenciam quando nos tornamos avós, Isabel? E se sim, Ana, que diferenças emergiram mais entre as duas?

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Isabel: A descoberta de que nesta nova viagem vamos estar no banco de trás, na retaguarda, desconcerta os avós. Estavam preparados para continuar a tentar "telecomandar" filhos e netos, mas não só os filhos ascendem ao estatuto de pais, como estão decididos a cumprir com zelo o papel, e isso é uma surpresa. Agradável, quase sempre, mas noutras... mais difícil.

Ana: Uma das maiores diferenças que sentimos foi na visão sobre a amamentação. Que foi a nossa primeira  grande birra e que nos obrigou a perceber que em assuntos mais complexos é mesmo precisar sentarmo-nos frente a frente e a por "as cartas na mesa!", em vez de trocar uma boca de vez em quando, que só fomenta mal-entendidos. Mas também aprendemos que há coisas que são intemporais e intergeracionais, como a criatividade, a imaginação, o humor! Tudo coisas que queremos passar às próximas gerações.

Falar das coisas sem se chatearem era o que faltava para a tal comunhão que a que às vezes não se chega ao falar de parentalidade, e foi o que levou às cartas. Pôr por escrito é uma espécie de cura para todos os males?

Isabel: Deve depender muito das pessoas, mas tanto eu, como a Ana arrumamos melhor as ideias quando as pomos por escrito – a que ela acrescenta a música. A escrita de cartas obriga a pensar antes de passar ao "papel", voltar atrás, elencar as ideias e sobretudo ir bem mais fundo, por oposição ao imediatismo das SMS e WhatsApps, e ao poder destrutivo das "bocas". Nestas cartas queremos deixar claro o que nos separa – a "disciplina", as rotinas, os horários, a hipótese de que de pequenino se torce o pepino, por exemplo —, mas inevitavelmente descobrimos que há tanto que nos une, das memórias do passado aos desejos para o futuro.  

O livro é varrido com um humor muito próprio que reflete a relação entre as duas. O humor (e o amor!) salvam tudo, no fim?

Isabel: É mesmo isso, humor e amor misturados. O humor de que ambas gostamos é acutilante sem ser corrosivo, põe em causa, sem destruir o outro, procura cultivar a capacidade de não nos levarmos demasiado a sério, de sermos capazes de reconhecer os nossos erros. Rimo-nos, acima de tudo, de nós mesmas. O amor faz com que tenhamos a certeza de que venha o que vier, estamos unidas de forma absolutamente incondicional. Mesmo quando nos magoamos e temos vontade de amuar, o que também acontece, acredito que nunca deixamos de saber que vamos superar esse obstáculo.  

Ana: Acho que tive a sorte de receber de herança da minha família, de ambos os lados, o humor e a capacidade de nos rirmos não só de nós próprios como das coisas mais "negras." Acredito que só com o humor ao lado é que podemos ir aos túneis mais fundos da nossa mente e aos temas mais difíceis, sem o risco de nos perdermos.

Para as mães, filhas, avós birrentas deste mundo, se só lhes pudessem dar um conselho, qual seria?

Isabel: Avós, resistam e não digam "Comigo ele nunca faz birras".

Ana: Mães, autorizem-se a viver o momento presente sem a ameaça do "se eu fizer isto hoje ele nunca mais vai...."

Por fim, pelo menos na parentalidade e na educação, às vezes é preciso por mais de lado o politicamente correto?

Isabel: O politicamente correto não faz falta para nada, porque pressupõe que não pensamos, nem sentimos aquilo que estamos a dizer. Porque quando corresponde aquilo que realmente pensamos e sentimos, então é pura e simplesmente a verdade. Temo que se os pais e as mães têm medo de confessar as suas emoções mais negativas — todos temos, às vezes, vontade de voltar a ser solteiros e sem filhos, todos temos "raiva" de um filho que não nos deixa dormir ou nos seringa a paciência de manhã à noite, todos temos momentos em que pensamos "prefiro este ao outro", etc — , vão recalcá-las, culpabilizando-se por elas, passando na oportunidade de receberem o apoio de que precisam, em lugar de as resolverem, libertando-se delas. E isso é mau. Faz-me alguma confusão uma certa competição que pressinto entre mães, que as redes sociais encorajam.     

Ana: É isso, as birras das crianças, por definição, rompem logo com o politicamente correto. Não lhes interessa o que é suposto, nem quem está a ver, nem o que a etiqueta manda para aquela situação. Fazer birras com politicamente correto é amuar e isso não leva ninguém a lado nenhum!

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