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"Vivemos numa sociedade que dá cada vez mais importância ao parecer e não ao ser”

Renascer é a história de uma mulher que simula a própria morte para poder voltar à vida. O novo livro de Luísa Jeremias é um mistério constante, onde as traições, as mágoas, a perda e o luto são temas narrados num tom de suspense.

25 de junho de 2020 | Rita Silva Avelar

É entre os cenários áridos de Marrocos (aliás, o ponto de partida da história é Casablanca) os encantos boémios do Brasil nos anos 70, e – claro - entre Cascais e a Margem Sul, em Portugal - que se desenrola o romance em jeito de thriller que Luísa Jeremias acaba de publicar. Em Renascer, Luísa Jeremias reconstrói a misteriosa e cativante história de Maria do Carmo e Francisco: ela, uma mulher de 40 que acaba de perceber que a sua vida, afinal, não é um conto de fadas, e que decide simular a própria morte, ele, um polícia astuto que não se conforma enquanto não descobrir o paradeiro de Carminho. Francisco tem a certeza de que ela está viva, e que o cenário trágico com que se deparou no Cabo Espichel é encenado. Será verdade? Cabe ao leitor desvendar.

Repleto de analepses e prolepses, o livro vai revelando, pouco a pouco, as razões que levaram Carminho a encenar a sua morte, ao mesmo tempo que desconstrói a personalidade de uma mulher forte mas vulnerável e relata os episódios trágicos que a levaram a desejar "renascer" desta maneira.

Renascer (Casa das Letras) é o segundo romance de Luísa Jeremias, que em 2011 publicou Preciso de Ti. Luísa é também autora de Planeta Cor de Rosa, onde desvendou histórias e segredos sobre celebridades e explicou como se faz a relação entre imprensa e famosos, num malabarismo constante. É jornalista e diretora de revistas do segmento de sociedade e televisão do grupo Cofina. À Máxima, revela como foi vestir a pele de Maria do Carmo e construir um romance com suspense digno de uma narrativa de Agatha Christie.

De onde nasce a vontade em escrever um romance com um toque de thriller?

Eu sou uma leitora do género. Leitora, espectadora, fã… O tema da simulação de uma morte para recomeçar a viver era algo que estava na minha cabeça há já algum tempo. Porque questiona quantas vidas podemos viver, se é possível recomeçar tudo, partir do ponto zero e ganhar outra personalidade. Mais: se é possível esquecer o passado ou se, pelo contrário, este nos marca para sempre. A par disto, andava obcecada por escrever uma história a duas vozes, com dois narradores da mesma história. Porque não existe só uma visão da "verdade". Cada um tem a sua. E assim surge Renascer, narrado pela protagonista, e pelo polícia que a procura.

Qual foi o ponto de partida para a história que se desenrola em Renascer? Já era algo que queria há muito escrever? 

O ponto de partida é: será que podemos dar as coisas como garantidas? Tudo aquilo que parece corresponde a uma realidade. A personagem principal, Carminho, parece ter uma vida perfeita e, uma sucessão de acontecimentos leva-a a perceber que não tem nada. Que o seu conto de fadas terminou. Perde tudo o que tinha como garantido. E é aí que se começa a questionar sobre o que vale a pena, o que anda aqui a fazer, o que quer da vida. E então que percebe que precisa de renascer para encontrar aquilo que ela acredita ser a felicidade.

Esta poderia ser a história de qualquer outra mulher? Inspirou-se em alguém em particular? 

Acredito que todos nós, num ou outro momento das nossas vidas, pensámos deixar tudo e recomeçar. Isso pode ter sido mais ou menos acentuado. Mas pode ter acontecido. Não sei se poderia ser a história de qualquer mulher mas acho que todas nós nos vamos identificar com sentimentos e estados de espírito da Carminho. Vivemos muitas quimeras, alimentamo-nos de sonhos, criamos imagens de quem nos rodeia que, tantas vezes, não corresponde à verdade, mas ao nosso desejo. As mulheres são naturalmente românticas, acreditam no Bem. Por isso, quando a vida lhes prega uma rasteira, o embate pode ser muito grande e a reacção, por vezes, mais dura do que se pode imaginar.

A ideia de renascer está sempre implícita na narrativa. É também uma certa crítica moral ao estado do mundo, ao facto de vivermos de certa forma "anestesiados"?

Vivemos numa sociedade que dá cada vez mais importância ao "parecer" e não ao "ser". Uma sociedade fútil, que se mostra das redes sociais como numa montra. Na época em que esta história se passa, há 10 anos, as redes sociais ainda não tinham força. Mas tudo o resto existia. A vida acelerada, faz-de-conta, de aparências. A personagem principal vive tudo isso, numa bolha, num mundo irreal que, de repente percebe que não existe. Curiosamente este livro é lançado num momento em que ainda vivemos uma pandemia, em que colocámos muito do que é a nossa vida em causa e percebemos que temos de renascer – de uma outra forma, claro, mas cada um à sua maneira. A materialidade enquanto "deus" que reina sobre todos os valores foi posta em causa. Como foi nesta história. Resta saber como será a partir de agora e se tal como no romance, seremos capazes ou não de "apagar" ou pelo menos "dar um twist" a um passado marcado por esses valores.

Acaba também por ser uma sátira ao facto de as mulheres serem constantemente pressionadas pela sociedade (e pelos homens) - para serem mães, para carregarem a casa às costas, para encontrarem "o homem perfeito"... foi algo intencional ou fruto da sua experiência como jornalista?

Acho que foi mais fruto da minha experiência como mulher do que como jornalista! As mulheres têm mais olhos em cima do que os homens. Eu detesto distinguir o género porque acredito que isso é que cria as diferenças. Mas, querendo ou não, elas existem. É aquele cliché: uma mulher fica velha, um homem fica maduro; uma mulher é uma leviana (para não dizer pior), um homem é um galã. E por aí vai. A sociedade é altamente preconceituosa em relação às mulheres. Se têm "poder" então, pior ainda: tornam-se as megeras de plantão. Eu passei por isso tudo na minha vida e ainda pelo facto de não ter filhos por opção. E sei o que ouvi, na versão, "coitada", "pois é"… Em qualquer um desses casos ou se tem auto-estima ou então a crítica torna-se um problema.  A sociedade, assumindo-o ou não, continua a acreditar que as mulheres estariam ótimas em casa, a tomar conta dos maridos e das crianças, preferencialmente a serem sustentadas por eles – para não serem independentes. Esta é a realidade. It’s (still) a men’s world.

Considera que também pode ser interpretado como um livro que ensina o caminho para se ser feliz? De redescoberta?

Espero que seja assim interpretado. Espero que ajude muita gente a voltar a acreditar e a realizar os seus sonhos. Não é preciso ser tão drástico como no livro. Renascer pode não implicar mudar tudo. Pode ser simplesmente acreditar que é possível mudar para ser feliz. Que vale a pena seguir os sonhos, as vontades – e isto não é um cliché. È verdade. Se o livro fizer pensar e depois melhorar, nem que seja um bocadinho, já valeu a pena. Porque todos temos direito a ser felizes.  

O que lhe deu mais prazer em todo o processo de construção da narrativa do livro?

Narrar uma história a duas vozes. Contar os mesmos acontecimentos através da narradora, protagonista, Maria do Carmo, que passa por tudo isto. Mas também pelo olhar do homem que se cruza na sua vida, o polícia Francisco de Assis, que tem uma história tão forte e fascinante como a dela. Eles são opostos, totais, e, no entanto, têm semelhanças interiores. Criar as ações paralelas nas vidas deles, nos próprios passados de ambos – enquanto ela, criança, parte para o Brasil, ele, criança, regressa de Angola depois do 25 de abril. São dois espíritos livres, criados em ambientes opostos. Ela perde o pai, ele também. E mais não vou contar senão sou spoiler! É preciso ler o livro para perceber como os opostos se encontram. Isso foi fantástico de escrever.

Luísa Jeremias: “vivemos numa sociedade que dá cada vez mais importância ao parecer e não ao ser”
Foto: Carlos Ramos
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Renascer, de Luísa Jeremias (Casa das Letras), €18,90
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