Atual

Lúcia Moniz: “Através da Arte (...) consegue-se abanar as pessoas, fazê-las sentir, fazê-las odiar”

No premiado Listen, a atriz portuguesa abraça um papel visceral, que representa uma situação relativa à maternidade que nenhuma mãe, nem nenhuma família, deveria experienciar.

A carregar o vídeo ...
17 de outubro de 2020 | Rita Silva Avelar

Não é literal, mas no fervilhar da conversa com Lúcia Moniz sente-se que quase deu o corpo às balas para representar Bela, uma mãe portuguesa a viver no Reino Unido a quem lhe são retirados os filhos pelos serviços sociais britânicos, de forma injusta, e que a tudo o custo, com o marido (Ruben Garcia), tenta recuperar. É o enredo dramático do filme Listen, a primeira longa metragem de Ana Rocha de Sousa, um retrato cinematográfico gritante, revoltante e intenso, no qual se conta uma história que é a de muitas famílias, a quem lhes são retirados os filhos, muitas vezes de forma injusta. Não foi ao acaso que o filme conquistou cinco prémios na 77ª edição do Festival de Cinema de Veneza, em setembro passado, entre eles o Leão do Futuro Luigi De Laurentiis, no valor de 100 mil dólares (84,4 mil euros), o prémio especial do júri da secção Horizontes, e três distinções paralelas: Arca Cinema Giovani, Bisato d'Oro e Sorriso Diverso Veneza.

Cenas do filme Listen.
Cenas do filme Listen. Foto: Alfie Samba

Entre o cinema e a televisão, Lúcia Moniz tem traçado um percurso que entrelaça filmes e séries nacionais com internacionais. Da estreia no final dos anos oitenta em telenovelas e curtas metragens à atualidade, a versatilidade é um dos seus trunfos, tendo feito parte de elencos como os do fenómeno O Amor Acontece (2003), A Escritora Italiana (2007), Maternidade (2011-2013), Fatima (2020) ou Thirty Minutes (2020).

A Bela é uma mãe forte, impulsiva e sofrida. Porque aceitou este papel? O guião cativou-a de imediato?

O desafio veio da Ana, através de um telefonema, já não conversávamos há 20 anos. Contou-me que estava a preparar a sua primeira longa-metragem, que tinha um guião muito especial, mas falou-me pouco da personagem. Disse apenas que gostava que eu fizesse o papel da mãe. Eu nem ia a meio do guião, e percebi que queria fazer o papel. Fiquei extremamente contente por ser a Ana a apresentar-me um guião com aquela qualidade, com uma força incrível, e depois pela mensagem que se está aqui a transmitir. Quis fazer parte dessa mensagem. A partir da escrita é muito claro perceber o temperamento e a força desta mãe, ter o coração na boca e não pensar antes de falar - em algumas situações perde mesmo a razão pela forma como age e fala - isso está muito na escrita. O meu trabalho foi dar corpo e voz a essas palavras e a esses comportamentos que já estavam no guião.

Cenas do filme Listen.
Cenas do filme Listen. Foto: Alfie Samba

Como é que construiu a personagem?

Foi muito interessante construir este personagem. Há coisas que eu faço quando pesquiso que podem parecer de louca (risos). Eu vi documentários e reportagem sobre este assunto, mas também vi vídeos da vida selvagem, sobre mães leoas a protegerem as crias do ataque das hienas, para tentar retirar a parte racional e perceber como é que o animal fisicamente se comporta. Foi interessante. Depois, fiz um trabalho mais específico com uma psicóloga, que no fim de lermos juntas o guião me disse que os comportamentos descritos eram fiéis à realidade. Trabalhámos o estado de choque, o trauma, comportamentos físicos e verbais. É uma coisa que estou a gostar muito de fazer com as minhas personagens, que é tentar entender a mente das pessoas e perceber que comportamentos podem ter. Felizmente o tema da saúde mental está a ser mais falado, é mesmo muito pertinente. Para construir uma personagem é essencial, e para esta achei ainda mais pela forma como a Ana filma. É de uma forma real, crua, tem um lado poético na composição estética e na plasticidade da forma como ela filma, e não na representação. O que aqui interessou foi contar a verdade, a verdade e a verdade. 

Os atores emprestam sempre um pouco de si às personagens. Deu muito de si a esta mãe?

Eu acho que dei muito de mim, mas não sei especificar o quê. Eu sou mãe, ao ler a primeira vez o guião fiquei altamente perturbada com isto, ao perceber que há mães que passam por isto. É inconcebível alguma vez retirarem-me a minha filha dos braços. Aliás, houve uma situação, quando a minha filha era pequenina, que foi quando estava a ir para Boston com ela no canguru. Ela tem o passaporte americano e eu tenho o passaporte português. Então fomos puxadas ao lado para eu responder a perguntas, questionando-me sobre isso. No final, o agente disse-me que eu voltava para Portugal e a criança ficava. E depois disse: "estou a brincar. Feliz Natal." Este filme transportou-me para esse momento. Só o facto de ele me dizer aquilo, acho que os meus olhos reviraram. Saber que assim acontece perturba-me. Depois de filmar, senti que "só" fiz um filme sobre isto, há mães que estão mesmo a passar por isto. De alguma forma acalmava-me mas por outro lado ainda me revoltava mais e me fazia mais confusão. 

Cenas do filme Listen.
Cenas do filme Listen. Foto: Sebastian Leif

Esse peso da responsabilidade por estar a contar uma situação que aconteceu - sentiu-o?

Eu acho que os nervos que se sentem antes de dar a conhecer o filme às pessoas, neste caso específico, levaram-me a questionar se representei bem as famílias, e a perguntar-me: será que alguém que passou por isto vai sentir-se dignamente representado? E será que sentirá que a partir deste filme estamos a dar voz a estas pessoas? Para mim a grande responsabilidade que eu levei às costas foi querer representar tudo de forma justa para estas famílias.

Foi importante ter a energia do Ruben neste papel de pai?

Completamente. Eu adoro-o como ator, acho que é um ator incrível. Desde o início que começámos logo a ensaiar, a passar textos e a ensaiar, então criámos ali uma cumplicidade muito bonita e que eu espero que se passe pela história. Foi fundamental, nós tínhamos mesmo que contar um com o outro. Até mesmo o choque de personalidades que estas duas personagens têm - é um casal que discute muito mas que se ama muito também - era importante ver. Tínhamos que estar sempre muito unidos, caso contrário não funcionava. 

Cenas do filme Listen.
Cenas do filme Listen. Foto: Sebastian Leif
Cenas do filme Listen.
Cenas do filme Listen. Foto: Alfie Samba

Como recebeu a este reconhecimento internacional tão importante?

Nós temos sempre a expectativa de que seja reconhecido e de que as pessoas gostem, e que vá o mais longe possível mas da expectativa à concretização vai uma grande diferença. Quando percebemos que no visionamento o filme foi tão bem recebido, com um aplauso que nunca mais acabava, todos chorámos. Descomprimi muito do filme nessa noite, um ano depois da rodagem ainda não o tinha feito. Sentir esse reconhecimento de pessoas que não nos conhecem de lado nenhum, que nos sorriram e agradeceram foi das melhores coisas que podia ter acontecido.

Fica a vontade de fazer mais cinema que envolva a mensagem social?

Sem dúvida. A Arte tem esta função, como outras, mas através dela podemos fazer chegar às pessoas muita informação, muita reflexão, abanar as pessoas, fazê-las sentir, fazê-las odiar, até, o que lhes é apresentado, mas sobretudo fazê-las viver alguma coisa. Gostava que as pessoas saíssem de uma sala de cinema diferentes. E se for com assuntos pertinentes em que possam ser espalhados por o maior número de pessoas, quantas mais pessoas souberem mais refletem e agem conforme os recursos que têm. E pode ser feita a diferença. 

Cenas do filme Listen.
Cenas do filme Listen. Foto: Alfie Samba
Saiba mais Maternidade, Mãe, Bela, Sorriso Diverso Veneza, Lúcia Moniz, Ruben Garcia, Ana Rocha de Sousa, Leão D'Ouro, Listen, Filme, Cinema, Luigi De Laurentiis, Horizontes, Arca Cinema Giovani, cinema
Relacionadas

Como tornar-se famoso (segundo uma celebridade)

Após 25 anos a conviver com celebridades – foi a um clube de sexo com Lady Gaga, tomou chá com Paul McCartney e recusou jantar com David Bowie –, Caitlin Moran desvenda, finalmente, no seu mais recente livro como é ser famoso (e ela sabe do que está a falar).

Mais Lidas