Lacrima. Uma metáfora sobre como a moda está a desumanizar o mundo
Um belíssimo espetáculo que conta a história de um vestido de alta-costura e das mãos que o produzem nos bastidores. Lacrima inaugura o novo ano no grande auditório do CCB já nesta sexta e sábado, dias 9 e 10 de janeiro.
A moda é hoje um caso sério de globalização, para bem mas também para o mal. A francesa-vietnamita Caroline Guiela Nguyen sabe-o bem, já que os seus textos e encenações são quase sempre dedicados aos grandes temas sociais, em particular aos que tocam a imigração, a identidade e a memória. Através da companhia Les Hommes Approximatifs, que fundou em 2009, ela cria enredos e elencos inclusivos que dão voz a diversas nacionalidades raramente ouvidas no grande esquema, e centro, do mundo que tem sido ocidental. E convoca-nos a pensar nas várias cintilações da vida, principalmente as mais complexas e obscuras.
Depois de explorar temas como a prisão ou a adopção, de criar peças radiofónicas e realizar um filme, e ainda chegar à direção do Teatro Nacional de Estrasburgo, Nguyen mergulha no mundo da moda. Escreve e encena Lacrima, Une Historie Contemporaine des Larmes / Uma História Contemporânea de Lágrimas contada “através de um vestido inesquecível”, descreve a própria, uma encomenda para o casamento da princesa de Inglaterra a uma prestigiada maison. E seguimos o seu percurso, de “apenas oito meses” e sob rigorosas cláusulas de confidencialidade, desde o número 8 da Faubourg Saint Honoré, o coração da alta-costura, feita por mãos sábias e meticulosas, aos seus outros destinos, seja o atelier de rendas em Alençon ou o atelier de bordados em Mumbai, que teve de coser à mão 230 000 pérolas só no véu da noiva. Vista por dentro, esta missão parece quase impossível.
Por detrás da beleza do trabalho, da minúcia artesanal, dos materiais nobres e cintilantes, estão vidas de trabalho árduo, violência, cansaço e silêncio. “O espetáculo colocará, a cada instante, esta questão: no silêncio imposto pelo segredo, que espaço existe entre o que nos destrói e o que nos preserva?”, lemos na sua apresentação. A ideia foi destapar, precisamente, este outro lado da moda, os bastidores da nossa vaidade, ao mesmo tempo que se leva o espetador numa belíssima viagem de quase três horas em palco, que nem se dá por elas. O cenário é um atelier de alta-costura, os figurinos e os bordados foram criados nas oficinas do Théâtre National de Strasbourg, que também produziu este espetáculo e o estreou, a 30 de maio de 2024, no Wiener Festwochen/Freie Republik, em Viena, e depois nos famosos encontros de Avignon, neste verão passado, e onde se reúne, todos os anos, a nata da nata dos artistas de palco. O famoso jornal inglês The Guardian define Lacrima como "uma produção monumental e magnética".
Nguyen, explica como tudo começou: "Pensei no vestido de noiva da Lady Di. Não tinha uma memória precisa (eu tinha acabado de nascer, mas a minha mãe falava-me dele). Ao pesquisar, descobri tudo o que foi feito para manter o segredo em torno da confecção desse vestido. Desde o início, o meu objetivo foi falar do segredo. Paralelamente, descobri o trabalho de Rieko Koga, uma artista que cose frases à mão sobre tecidos. Fiquei profundamente marcada por uma das suas obras, na qual ela coseu sobre linho: 'Segundo uma antiga crença japonesa, na qual continuo a acreditar, os pontos de costura têm um poder mágico. As roupas que a minha mãe me fazia quando eu era menina cobriam-me sempre com o seu grande amor, e os seus pontos de costura nas costas protegiam-me da angústia e do medo.'" Lemos ainda, na folha de sala: "Cheguei a algo que quase se aproxima do universo do conto: e se todas as personagens estivessem ligadas à história da confecção de um vestido? E fui ainda mais longe, imaginando que o tema seria este: vamos descobrir como todas as pessoas que entram em contacto com esse vestido serão, de certa forma, tocadas por uma maldição."
Os temas centrais são, por isso, o trabalho, as suas condições e valor variáveis, a importância das artesanias e do bem-fazer, a importância do conhecimento e do tempo, mas também como uma possibilidade de superação, de chegar ao belo mais estratosférico. E, acima de tudo, o grande segredo que (en)cobre tantas vidas para mostrar apenas o que brilha. Até a renda de Alençon sempre foi uma forma de segredo industrial. Tudo na moda é segredo, como na sociedade das aparências.
Num cenário múltiplo e apoiado no vídeo e onde os atores encarnam múltiplos papéis (têm entre 18 e 82 anos e alguns deles são amadores), Nguyen conta como tudo começa nos ateliers de alta-costura, onde são feitos os sonhos imaginados pelos créateurs de moda. Encontrou-se com modelistas e pessoas de vários ofícios da alta-costura, para saber como se cose a magia de Paris, vinda de mãos experientes e exigentes treinadas ao longo de gerações, anos e anos de aperfeiçoamento alimentado por encomendas milionárias para as ocasiões... Também foi conhecer os bordadores indianos a Mumbai, descobriu que, na sua maioria, são homens muçulmanos que herdam o ofício dos pais e que, segundo Nguyen, “são detentores de um saber-fazer inigualável e é o seu trabalho que vemos nas mais belas criações dos desfiles de alta-costura. Disse para mim mesma: não posso virar costas a este tema. Daí nasceu a ideia de um lugar que se transformaria para representar sucessivamente três ateliers. (...) Gostava desta ideia de uma geografia múltipla para falar de um mundo contemporâneo que se desenha através das questões da violência e do segredo”.
Trata-se, também, de uma metáfora sobre como a moda está a desumanizar o mundo. Se começou por ser vontade, e possibilidade, de poucos, cingidos ao mundo ocidental e aos muito ricos, foi-se transformando, ao longo do século XX, o de todas as revoluções, num fenómeno à escala mundial. E quando a produção têxtil saltou da Europa, onde nasceu a indústria da moda, para os países mais pobres da Ásia e de África, onde a mão de obra é muito mais barata, tudo começou a desmoronar. Ao deslocar os centros de produção para o outro lado do mundo, a moda passou a alimentar comunidades e famílias sem alternativas, mas desceu os padrões de qualidade e abriu precedentes a condições muito precárias, e duras, de trabalho. Entre o resgate e manutenção da tradição, por um lado, e os vários bulldozers do lucro por outro, Lacrima mostra-nos o que é a pressão de uma produtividade inglória de muitos em nome de poucos, e o grande poder dos números sob a guilhotina do tempo, indiferentes ao valor do humano e ao valor da arte.
Caroline Guiela Nguyen fala ainda de “uma questão que regressa de forma recorrente: a maneira como as mulheres foram guardiãs do templo do segredo ou do silêncio. Quando elas próprias foram vítimas ou testemunhas de uma violência exercida no seio da família, o segredo e o silêncio tornaram-se não só uma realidade interiorizada, mas também algo que transmitiram como herança". E ao grande silêncio que toda a gente tenta abafar e que nos leva à sobrevivência do próprio planeta em que habitamos, e cujos recursos são finitos e engolidos pelo negócio. Nós que inventámos a fast fashion, e a ultra fast-fashion, das chinesas Shein e Temu e congéneres, pensadas à medida do insaciável comércio online que nos dá a sensação de poder ter tudo, rápido e barato, estamos a pagar um preço para as próximas gerações. E é essa a reflexão profundamente humana que este espectáculo poético e imersivo, saltitante e realista nos traz, numa ficção que se mistura com a realidade. Num mundo cada vez mais desigual, Lacrima é o produto de um mundo globalizado e da sua desejada democratização. O foco deste palco são as pessoas (quase) invisíveis que vivem nas sombras da nossa grande luz.
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