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A alegria de viver na bolha

"Esta crónica é dedicada à alegria de não se ser conhecido por absolutamente mais ninguém para além dos que realmente nos conhecem."

Foto: Fotografia de Pedro Ferreira / Realização de Maria A. Ruiva / Edição 375 da Máxima
18 de dezembro de 2020 | Patrícia Barnabé

Sempre achei uma chatice ser popular, e continuo a achar. Cedo percebi que os giros da escola estavam longe de ser os mais interessantes. E mais cresci, mais fugi do palco, mesmo quando trabalhava no epicentro da moda. Prefiro o ponto de observação dos bastidores, que é mania de jornalista. Agora fotografa-se e filma-se constantemente, como se tudo fosse importante, com medo de perder o momento e o mundo, que se perdem por se estar sempre a fotografar e a filmar. E a look at me generation, como lhe chamou a Vanity Fair, com a cultura da selfie, virou a câmara para o ego. Os retratos de Cindy Sherman e os filmes de Woody Allen já falam nele há uns anos, mas porque é que alguém comum, e no seu perfeito juízo, quererá ser famoso? Não percebo. Veja-se o inferno de Morrison, Joplin, Hendrix, Cobain, Winehouse, à procura de um corredor de luz e silêncio que as drogas imitam.

Agora todos apareceram a fazer o seu número. Então durante a pandemia, foi ver os grandes comunicadores saírem debaixo das pedras, multiplicaram-se entrevistadores, opinadores e cronistas, hosts e podcasters, só que a ideia não é dar a palavra a quem sabe, é poder pertencer, é poder brilhar. Consigo perceber o fascínio pela cintilação das coisas belas e inteligentes, na esperança de cintilar com elas, é uma forma de chamar a atenção e, quem sabe, receber amor. Mas o reino da internet, cheio de néons e promessas, tornou-se uma indústria, em muitos casos, sem alma. 

Não, esta não é uma crónica sobre bloggers-que-agora-se-chamam-influencers, apesar de nunca percebermos que tipo de influência exercem e sobre quem. São animadores socioculturais da nova era. Dantes enchiam horas mortas nas rádios, iam às festas das creches e dos lares e dos hospitais, ou aos hotéis com muitos quartos inventar programas divertidos na piscina. Agora mudam muitas vezes de roupa, raramente nos animam, e afinal querem vender-nos coisas. Por isso, tudo se pesa na medida dos likes e dos views e dos followers: vivam os vídeos de apanhados, as macacadas do Tic Toc, os diretos por razão nenhuma, e os grandes oradores do You Tube sem nada para dizer. Bem sei que as vidas já são suficientemente difíceis para falar sempre a sério, mas vem embrulhado num tempo que se superficializou e onde o entretenimento passou a valer mais do que vale. Sendo que, todos sabemos, o gosto da maioria, ainda que seja da maioria, raramente é o melhor. Como os mais sábios são os que menos precisam de palmas – nós é que precisamos deles.

Em 1605, Francis Bacon já o descrevia bem: "O tempo parece ter a natureza de um rio ou correnteza que carrega até nós tudo o que é leve e inflamado, mas afoga tudo aquilo que tem peso e solidez."

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Com estas premissas passámos a acreditar que só somos válidos se, como se diz no português do Brasil, estivermos sempre antenados, o que é inglório neste mundo acelerado e multiplicado e estilhaçado no éter. Se já sabemos daquela notícia, e ouvimos o máximo de pontos de vista, se já vimos aquela série ou aquele filme, para depois vermos o outro e o outro, se já ouvimos aquele novo disco de uma banda que se parece com a outra e com a outra. Com tanto já, sentimo-nos sempre em falta de qualquer coisa, a falhar. Eu passei a adorar não saber de nada, porque o que está a dar, tirando a realidade noticiosa inescapável, é uma construção que não exige qualquer tipo de urgência. Ando a ver séries e filmes, a ler livros e a ouvir discos que já foram badalados, e dá-me um gozo bestial. Basta desligar a antena quando nos apetece. E a pandemia mostrou-nos esse batimento cardíaco do mundo quando o silenciamos.

É preciso resgatar o direito ao tempo próprio. Até porque os observadores sabem sempre mais do que os protagonistas, são os grandes estrategas da vida. Não é por acaso que Alessandro Michele, há uns anos, desenterrou o geek para a sua Gucci, ao lado dos underdogs camp do realizador Harmony Korine, que os fotografou e filmou para a marca italiana. A moda adora minorias de todo o género, embora sempre se julgasse que não. E por mais que persiga a democracia de gosto, o desejo estará sempre no raro e no incomum. Não pertencer é que é, e será sempre o caminho mais difícil, mas também o mais fascinante porque mais original. Ser do contra torna-nos bichos do mato, o que pode ter muita piada. E para a moda, sempre tão submersa em sexidão, depois de ter despido tudo nestes tempos de twerking, a discrição passou a ser um statement. A inteligência de se ser selectivo e silencioso, estar-se nas tintas numa era barulhenta e que coroa, às vezes com graça, uma certa vulgaridade, é do mais sexy que há. Todos sabemos que o sexo começa na cabeça.

Esta crónica é dedicada à alegria de não se ser conhecido por absolutamente mais ninguém para além dos que realmente nos conhecem. Nem ambicionar mais do que isso. É dedicada à liberdade de viver na bolha. Tenho amigos que não sentem a pandemia como eu, felizes por prolongar a sua natural acomodação de moluscos. Para pessoas de pessoas, é uma violência anti-natura: o pior que nos podem fazer é tirar-nos o mundo. Ou não, às vezes sabe bem desligar o botão e mostrar quem manda na sua própria vida.

Até há pouco tempo, éramos todos um pouco FOMO – fear of missing out – do qual nos tínhamos tornado de certa forma reféns, no advento da cultura da rede, onde mergulhámos em grupo, de pés juntos e sem muita escolha. Nessa animação constante, nessa voracidade de dias à superfície onde, no meio de algumas ideias e muita imagem, querem sempre vender-nos alguma coisa. Agora, alguns de nós começam a tornar-se JOMO – joy of missing out. (Que a pandemia está a esgotar ou a confirmar, vamos aguardar para ver). JOMO é decidir passar a passagem de ano em casa de pantufas e a ver televisão. Não é uma vontade de banalidade, é o cansaço dela.

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Há uns anos Phoebe Philo, que refez o espírito boémio girly da Chloé e foi mais tarde coroada pela mestria com que renovou o minimalismo na casa Celine, disse o que, na altura, ainda ninguém estava preparado para ouvir: Cool is not being on the internet. Cof cof cof. Lembra-me logo os clássicos italianos que esticam o tempo e a fruição como poucos, e a famosa frase de Giorgio Armani, quando disparou o made in Italy para o mundo, nos fim dos anos 70: Elegance is not about being noticed, it is about being remembered.

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