"João Canijo era o maestro das subtilezas do sentir." A homenagem da atriz Carolina Amaral ao realizador
Canijo filmava mulheres a partir da confiança. Uma relação próxima com as atrizes atravessa toda a sua obra. No dia em que nos deixa, a Alice de "Mal Viver" (2023) recorda a ligação que partilharam.
Há pessoas que atravessam o mundo rasgando um desamparo aos nossos corações. Erguem lugares de pasmo tais que a partir daí, os nossos respirares não se têm iguais. Compõem abismos absolutamente estarrecedores que nunca mais deixam de nos cantar.
Quem se abre com toda a sua vulnerabilidade ao real e avança, temerário, todo o seu ver e sofrer a um palco de contorções visuais, estabelece no mundo, uma nova perturbação poética.
João Canijo era o maestro das subtilezas do sentir. Orquestrou com a sua singularidade sonante uma sinfonia de abismos de viver. Com a sua acutilância de perceber toda a claridade e escuridão que se presentificam num rosto, teceu dramaturgias do humano que resultaram de uma beleza inédita. Articulou tensões de ferver no mundo numa composição que nos tirava o fôlego, tal era a potência da sua verdade, o carisma do seu jeito de absorver aquilo que arde. E ele abria, escancarava para nós esses incendiares que detetava na natureza dos encontros e desencontros uns com os outros.
Fez dos caos emocionais, das conturbadas experiências do existir, dos sufocos de sentir, uma obra que é de uma altitude profunda. De uma febre salvífica. Era preciso aceitar ferver com o que nos estendia para sobrevir desse encontro mais profundamente desperto ao mundo. Ele ofereceu-nos o que só alguns eleitos podem tecer, um lugar para que o nosso desconsolo se ilumine de uma fé para ainda continuar.
João Canijo: "Na vida as gajas fodem-se sempre. São mais disponíveis, mais vulneráveis"
Ao longo da sua filmografia, João Canijo construiu um olhar atento e profundo sobre o universo feminino. "Sangue do meu Sangue" é uma das expressões mais intensas dessa exploração - um retrato cru das relações familiares, do sacrifício e do amor. Recuperamos a conversa de 2011 com o realizador e os protagonistas do filme.
Carolina Amaral, revelação de 'Glória', entregue à vertigem de ser atriz
A sua personagem evoca a dureza da condição feminina em Portugal nos anos da ditadura. Face à nossa câmera, sem artifícios, a atriz fala-nos de personagens, superstições e até do movimento #MeToo.