"O 25 de Abril é um momento paradigmático da mudança da relação da mulher com o mundo." De Joana Vasconcelos a Paula Rego, o poder da revolução em 7 vozes femininas
O 25 de abril marcou o início de um Portugal livre e contemporâneo. Mas do lado feminino a mudança foi ainda mais radical.
Paula Rego, artista plástica
"Quando eu era jovem precisava da autorização do meu pai ou do meu marido para ter passaporte. O aborto era ilegal, contudo, claro, acontecia sem segurança. As mulheres estavam sempre em risco. Estes direitos mudaram, mas não sei se o comportamento dos homens em relação às mulheres mudou assim tanto. Talvez seja mais seguro viajar nos transportes públicos sem sentir que homens frustrados se roçam em mim, mas agora é raro para mim apanhar o comboio e, por isso, não posso jurar que hoje assim seja. Eu costumava voltar de Lisboa negra de todos os beliscões. Uma vez, a minha mãe e eu estávamos a caminho da estação do metro e vimos um homem a masturbar-se e a minha mãe disse: ‘Aquilo não pode ser dele.’ Não sei a quem é que ela achou que aquilo poderia pertencer. Depois havia os homens nos penhascos a olhar para as mulheres de biquíni e a masturbar-se… Ainda têm disso [em Portugal]?"
Simone de Oliveira, cantora e atriz
"Eu estava em casa, liguei o rádio, ouvi o locutor a falar das Forças Armadas e pensei: ‘Lá vai este homem outra vez ser preso porque não está a fazer a programação que devia fazer.’ E vou para o telefone para dizer ao homem para se calar quando percebi que realmente era uma revolução e perguntei: ‘Onde?’ Eu penso que não era só uma questão de mentalidades, havia realmente uma coisa fechada e sentíamos isso perfeitamente. Eu só consegui o divórcio depois do 25 de Abril, por exemplo. Houve também uma fase de disparate, talvez durante um ano a seguir ao 25 de Abril, e depois aos poucos as pessoas foram percebendo que a liberdade é extraordinária, mas a minha liberdade acaba quando começa a sua, e isso levou um certo tempo. E ainda hoje isso acontece.
Comigo foi sempre 25 de Abril. Desde que nasci. Para mim, por dentro, foi sempre 25 de Abril. Fui dizendo aquilo que pensava e que achava. Nunca me calei muito. ‘Quem faz um filho fá-lo por gosto’, dizia eu em cima de um palco, uma vez, e há um senhor que se levanta e diz: ‘Minha senhora, que horror, que barbaridade. É uma vergonha!’ E eu disse: ‘Se o senhor não faz um filho por gosto, não pode, não sabe ou já esqueceu.’ Foi depois do Festival. Tenho muitas histórias [de episódios que sucederam por ser mulher]. Uma vez fui chamada ao liceu por causa da minha filha Eduarda. Fui preocupada e a diretora de turma diz-me: ‘Senhora Dona Simone, nós não sabemos porque é que a filha de uma artista que usa decotes, fuma e se deita às quatro da manhã é tão boa aluna e tão boa pessoa.’ E eu respondi: ‘Perguntem-lhe a ela.’ A minha vida é um carrossel."
Isabel Ruth, atriz
"Eu costumo dizer que sou a grande responsável pelo 25 de Abril! Estávamos no início do ano de 1974 e era muito importante convidar um Mahatma a visitar Portugal. Eu ia viajar para Inglaterra, onde tencionava permanecer um ou dois anos, e queria deixar a casa arrumada e a despensa bem fornecida como uma mãe que é obrigada a afastar-se por algum tempo dos seus filhos. Nunca antes eu tinha pensado e sentido tanta proximidade ao meu país (meu?). Porém, algum tempo antes eu tinha compreendido que, de facto, ‘a minha pátria é a minha língua’ e que seria aqui o lugar onde melhor compreenderiam a minha Odisseia! Sim, tal como Ulisses, também eu parti à aventura, também eu naufraguei, encantaram-me, sobrevivi e regressei a casa. Sou a heroína da minha história, da minha própria vida. E que tem tudo isto a ver com a Revolução dos Cravos? Eu pergunto: e porquê cravos e não rosas? Não foi a rainha Santa Isabel a responsável por transformar pães em rosas? Acreditamos em milagres, no poder da fé?
Eu queria mesmo que Portugal abrisse as portas à Índia! Implorei e disse para comigo: ‘Senhor, faz com que algo aconteça para que se abram as fronteiras! É urgente o Conhecimento, em Portugal!’ No dia 25 de Abril de 1974 eu estava em Londres... E agradeci."
Olga Roriz, bailarina e coreógrafa
"Eu tenho sempre de começar pelos meus privilégios pessoais, desde criança, os que vieram dos meus pais e da minha formação. A minha situação é muito diferente da maior parte das pessoas da minha geração. Enquanto o meu pai fazia o jantar, a minha mãe estava a ler o jornal na sala. O contrário também acontecia. A minha mãe era jornalista e o meu pai desenhador naval. A minha mãe, uma mulher culta que gostaria de ter sido atriz, ia ao teatro e ao cinema todas semanas, o meu pai acompanhava-a quando podia, mas se ele não podia ela não deixava de ir por isso.
Quanto à [minha] formação dos oito aos 18 anos, foi feita dentro do Teatro de S. Carlos que, ainda na ditadura, era o teatro nacional mais eclético da altura, decerto o mais abrangente e mais internacional. A minha visão como criança nada tinha a ver com a ditadura. Por outro lado, em relação à liberdade de ação, não tive hipótese nenhuma. Nada de saídas à noite fosse com namorados ou com amigos. A liberdade que eu consegui ter foi quando resolvi casar-me. Do meu percurso, até agora, esse foi o meu momento de charneira e de diferença para com o presente. Poucas serão as raparigas, hoje em dia, que têm de se casar para sair do seio familiar. Com pouco mais de 20 anos eu já era coreógrafa no Ballet Gulbenkian. É óbvio que, como mulher, aí senti um peso e uma responsabilidade, sobretudo de não falhar, que hoje continuo a sentir. A democracia abriu o caminho, mas há ainda muito a percorrer. O tema da igualdade de género está na ordem do dia, mas ainda há mulheres a acharem-se inferiores e homens que publicamente e em cargos políticos ostentam a obrigatoriedade de dizerem todos e todas, sem um sentir profundo desse direito. Talvez no dia em que acabarem com o Dia da Mulher ou que instituírem o Dia do Homem estejamos a caminho de alguma igualdade."
Maria Teresa Horta, escritora e jornalista
"Lembro-me bem. Antes do 25 de Abril havia crianças descalças, de pés gretados pelo frio. A pobreza era endémica, as mulheres eram criadas dos homens, a mortalidade infantil altíssima e o pensamento livre um crime punível com prisão e tortura. Simone de Beauvoir passou por cá e escreveu nas suas memórias que a famosa ‘melancolia’ dos portugueses era fome pura. A garota de onze anos que eu era estava num quarto de hospital, enfaixada e proibida de se levantar da cama, na sequência de uma apendicite com peritonite, quando a enfermeira entrou clamando que havia uma revolução na rua. Perguntei se era dos bons ou dos maus, ninguém sabia responder-me. Quando consegui arrastar-me clandestinamente para a janela vi tanques de guerra cobertos de homens com cravos nas mãos. As mulheres corriam para os homens fardados, oferecendo-lhes leite, laranjas – e mais flores. Nessa noite soube que o Hugo dos Santos era um dos criadores daquele dia luminoso e justo, e percebi que aquela era a vitória do bem sobre o mal. O Hugo, infelizmente já desaparecido, que foi um segundo pai para mim, era um dos bons. ‘Foi para ti, para a tua geração, que fizemos o 25 de Abril’, disse-me depois o Hugo. ‘Para que vocês nunca tenham de viver com medo.’ Prometi-lhe honrar essa dádiva. Sempre que alguma sombra de medo se aproxima, com o seu cortejo de cobardias, subserviências e traições, penso nesse grupo de jovens que entregaram a sua vida à causa da liberdade e a sombra desaparece."
Joana Vasconcelos, artista plástica
"O 25 de Abril é um momento paradigmático da mudança da relação da mulher com o mundo. Eu sou resultado disso, perspetivando a minha família. A minha mãe é uma revolucionária que fez o 25 de Abril e a mãe da minha mãe, a minha avó, é uma mulher que viveu plenamente a época das colónias. A minha avó é uma pessoa que fez toda a sua vida nas colónias. Viveu na China, na Índia, em África, até regressar a Portugal. Quando a minha avó regressa das colónias, a minha mãe foge para Paris, tornando-se numa exilada política, juntamente com o meu pai. Nas quatro gerações da minha família – a minha avó, a minha mãe, eu e agora também a minha filha –, houve uma total mudança do paradigma da vida, da liberdade da mulher e das condições que as mulheres tinham e têm para serem livres e serem elas próprias. Se a geração da minha mãe não tivesse quebrado com os padrões, lutado pela liberdade de expressão das mulheres, pela liberdade do voto, talvez a minha mãe ainda teria de pedir autorização ao meu pai para sair do país, como quando para se casar teve de completar 21 anos para que o pai a autorizasse a tal. A minha mãe não era livre para ser o que ela gostaria de ser e a minha avó nem pensar! A minha avó, uma vez, disse-me: ‘Tens muita sorte. Tu podes ser quem gostas de ser, podes ser artista. Eu não pude ser artista.’ Ela era pintora e começou a pintar muito tarde, pois só quando o meu avô morreu, quando se deu o 25 de Abril, quando a Guerra Colonial acabou e quando o país se reencontrou é que ela ganhou a liberdade de expressar quem ela era na verdade, uma artista. O 25 de Abril para mim é a conquista de uma liberdade de eu ter espaço, entendimento e cabimento para ser quem sou."
Maria Antónia Palla, jornalista e ex-chefe de redação da Máxima
"São dias inesquecíveis. Subitamente, naqueles primeiros meses do parlamento democraticamente eleito pelos portugueses, em 1977, era necessário dar cumprimento à norma constitucional que consagrava a igualdade das mulheres e dos homens. Acabar com toda uma herança da ditadura que nos discriminava e diminuía na lei, na sociedade e na família. Tínhamos ganho o direito de voto em plena igualdade e foi preciso, numa notável cooperação de todos os partidos do Parlamento, alterar todas as leis e códigos. De todo esse trabalho, que tanto me marcou, sublinharei dois factos que contribuíram decisivamente para obter a plena igualdade: o fim do chefe de família e o fim dos filhos ilegítimos. Foi em 1977 com a alteração do Código Civil que acabou o chefe de família e se consagrou o dever de cooperação e a igualdade de direitos na família.
A mulher era obrigada a ter a residência do marido e necessitava da sua autorização para exercer certas profissões, até aos anos 60, e o marido podia requerer o fim do contrato de trabalho da mulher. Só nesse ano foi reconhecida a igualdade da responsabilidade na educação dos filhos e se consagrou o direito da viúva à casa de família. E o seu direito de ser ouvida em tudo o que dizia respeito aos interesses dos filhos. Outra enorme mudança foi o fim dos filhos ilegítimos. Filhos unicamente reconhecidos pelas mães casadas ou solteiras com a possibilidade de indicarem no registo do filho o presumível pai e elas simplesmente mães. O impedimento legal da discriminação da mulher e a consagração da igualdade de direitos não significou de imediato a mudança de mentalidades. Mas foi um passo gigante nesse caminho.
Por mim, recordo com muito orgulho ter feito parte desse fascinante trabalho coordenado pela professora de Direito [Isabel] Magalhães Colaço com a participação de notáveis mulheres deputadas de todos os partidos no Parlamento que, independentemente das divergências ideológicas e políticas, se uniram nessa tarefa. Bons tempos!"
Testemunhos publicados no artigo O Novo Mundo das Mulheres, publicado na edição de maio de 2019 da Máxima.
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