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Janja Silva, a desconhecida que se casou com Lula e que salta para as luzes da ribalta aos 56 anos

A socióloga tem estado omnipresente na campanha de Lula para as eleições presidenciais. Depois do ícone da esquerda brasileira ficar à frente na primeira volta do sufrágio de 2 de outubro, a sua terceira esposa mantém-se muito discreta, até mesmo misteriosa, no que toca à vida privada.

Rosângela da Silva, mulher de Luiz Inácio Lula da Silva, fala com os apoiantes de Lula durante a última fase da campanha presidencial do mesmo em São Paulo, 24 de setembro de 2022
Rosângela da Silva, mulher de Luiz Inácio Lula da Silva, fala com os apoiantes de Lula durante a última fase da campanha presidencial do mesmo em São Paulo, 24 de setembro de 2022 Foto: Getty Images
28 de outubro de 2022 Máxima

É a terceira mulher de Lula, aquela que verdadeiramente ninguém esperava, uma vez que o ex-presidente brasileiro ficou viúvo aos 71 anos. Rosângela Silva sucedeu assim a Marisa Letícia, a segunda esposa adorada de Lula, mãe dos seus quatro filhos, falecida em 2017 vítima de AVC após 30 anos ao lado do homem político, oito dos quais como primeira-dama. Este também a seu lado durante as numerosas campanhas do incansável líder que, aos 76 anos, disputa este ano a presidência pela sétima vez.

Amiga de estrelas

Em 2022, aquela a quem chamam "Janja" assumiu assim as suas funções, trazendo a sua energia e entusiasmo ao candidato do Partido Trabalhista (PT), postando os comícios e os apelos ao voto nas redes sociais. Aquela que ainda há pouco era desconhecida do grande público, depressa assumiu o seu lugar no seio da equipa de campanha, reservando a si mesma a tarefa de fazer a ponte com os artistas e os influencers. A sorridente quinquagenária (completou 56 anos em agosto), de rosto redondo, obteve assim o máximo de apoios. Desde estrelas do Tropicalismo, como Caetano Veloso e Gilberto Gil, até ao imenso Chico Buarque, seu padrinho de casamento em maio último, passando pela cantora Anitta, por atores de envergadura internacional como Wagner Moura, mas também influencers, como a cosmetóloga Juliette, ou estrelas do desporto… todos apoiaram a candidatura de Lula. Foi ainda Janja quem esteve por trás da manobra para organizar o último grande comício de campanha, o Super Live, em São Paulo, no dia 26 de setembro, que reuniu muitos artistas em palco. Mesmo o ator norte-americano Mark Ruffalo se viu obrigado a fazer um tweet de apoio.

Rosângela e Luiz Inácio Lula da Silva, ex-presidente do Brasil e candidato do Partido dos Trabalhadores (PT), acenam aos apoiantes durante uma conferência de imprensa no final do dia das eleições gerais em São Paulo, 2 de Outubro de 2022
Rosângela e Luiz Inácio Lula da Silva, ex-presidente do Brasil e candidato do Partido dos Trabalhadores (PT), acenam aos apoiantes durante uma conferência de imprensa no final do dia das eleições gerais em São Paulo, 2 de Outubro de 2022 Foto: Getty Images

Omnipresente na campanha

A sua omnipresença já lhe valeu críticas, nomeadamente internas. Mas não há como arrefecer a motivação de Janja, que se reforçou de comício para comício. Com a sua voz grave e serena, a oradora de longos cabelos castanhos apresenta os porta-vozes do marido, a quem ela chama apenas "amor". A sua conta no Instagram testemunha também a sua recente evolução de estilo. Os jeans, t-shirts coloridas com o rosto do marido e blusões em pele do início deram lugar, ultimamente, aos vestidos monocromáticos mais formais, mais "primeira-dama", perante um Luís Inácio Lula da Silva de ténis e jeans, como para dar a entender uma dinâmica própria da juventude.

"Os jeans, t-shirts coloridas com o rosto do marido e blusões em pele do início deram lugar, ultimamente, aos vestidos monocromáticos mais formais" Foto: @janjalula

A morte da mãe, vítima da covid

Ao contrário de Marisa Letícia, que se manteve sempre discreta, Rosângela não hesita em cantar em público e em exprimir-se acerca de questões políticas. Ela é também o braço armado do marido no que toca à sedução do eleitorado feminino, já encrespado contra Bolsonaro devido aos seus modos sexistas. "São as mulheres que decidirão estas eleições. As mulheres que ajudarão a reconstruir o nosso país, o Brasil da esperança", escreveu ela no Instagram. Nos vídeos oficiais, é sempre em torno da questão das mulheres que ela se posiciona, sensível "às dificuldades encontradas pelas mães de família, muito endividadas", ou para denunciar, nomeadamente, os feminicídios e a violência contra as mulheres no Brasil. O único assunto mais íntimo que ela aborda nos seus meetings é a morte da mãe, a sra. Vani Terezinha Ferreira, por covid, durante a pandemia, "tal como 700 mil brasileiros", faz questão de recordar Rosângela.

Rosângela da Silva com a mãe
Rosângela da Silva com a mãe Foto: @janjalula

"Dar um novo sentido ao conceito de primeira-dama"

Convidado a participar no podcast do cantor Mano Brown, em setembro de 2021, Lula descreveu a sua futura mulher como alguém "muito politizada, como uma excelente cabeça política e muito feminista". Esta sensibilidade está longe de ser artificial. Licenciada em Sociologia pela Universidade Federal do Paraná, com um MBA em Gestão Social e Sustentabilidade, Janja conquistou os seus galões de militante já há muito tempo. Membro do PT desde que tinha 17 anos, a socióloga conheceu Lula, aliás, através do partido. À medida que a possibilidade de uma vitória se perfila, Janja vai deixando pistas acerca da sua atuação enquanto futura primeira-dama. Interrogada por um seguidor no Instagram, ela abordou a questão em agosto: "Trabalhamos para que eu me torne essa primeira-dama que você espera". Acrescentando misteriosamente: "E há um pequeno segredo: vamos tentar dar um novo sentido a esse conceito de primeira-dama".

A 15 de setembro, ela confirmava que não seria uma "ajudadora", pegando no termo empregado por Michelle Bolsonaro, a atual primeira-dama, para falar das esposas. Quando a mulher do presidente de extrema-direita apregoa "a honra, a glória, a força e o poder do rei Jesus" como credo no Instagram, Janja, por sua vez, avança o seu curso universitário e a política. A Bolsonaro, que apela aos homens a encontrarem "as suas princesas", ela responde que só vê "guerreiras" reunidas entre o público.

Interrogado pelo site UOL acerca do papel da primeira-dama, em julho de 2022, Lula respondeu com a sua espontaneidade habitual: "Penso que não deve haver um mistério dedicado à primeira-dama, mas conto com ela para me ajudar, para me aconselhar e também para discutir comigo". E acrescentou: "É uma jovem senhora que tem as suas ideias próprias e terá toda a liberdade para decidir o papel que vai querer desempenhar".


Visitante na prisão

Ao ouvi-lo, quase que creríamos o antigo presidente intimidado pela personalidade forte de Rosângela. No entanto, no início, o seu encontro foi como o de um velho leão da política com uma militante de base 20 anos mais nova. É neste contexto de envolvimento político que os seus caminhos se iriam cruzar em finais de 2017, de acordo com a assessoria de imprensa do PT, antes de começar a história de amor, em 2018, pouco antes de Lula ter sido preso no âmbito da vasta operação anticorrupção Lava Jato. Condenado a uma pena de 12 anos, o ex-presidente passará 18 meses na Prisão de Curitiba. Será definitivamente inocentado em março de 2021 após a anulação das suas condenações pelo Supremo Tribunal, tornando-se assim reelegível para a mais alta função do Estado. Libertado a 8 de novembro de 2019, a sua primeira ação foi apresentar Janja à multidão que o veio saudar. E beijá-la na boca, sofregamente, ali mesmo em Curitiba. Pois durante os 580 dias de detenção, a socióloga fora um apoio que nunca falhou, multiplicando as visitas ao parlatório. "Escrevemos um ao outro 580 cartas, ainda as guardo comigo", contava assim Lula, de visita a Paris em 2020. E aquele que sempre bradou "conspiração política" acrescentava: "Foi graças a este amor que saí da prisão sem ódio".

Rosângela com o marido Luiz Inácio Lula da Silva
Rosângela com o marido Luiz Inácio Lula da Silva Foto: @janjalula

"Muralha de mutismo de lealdade"

O Brasil descobre então esta desconhecida e os media partem em busca de informações acerca desta mulher do sul, nascida a 27 de agosto de 1966 em União de Vitória, no estado do Paraná. Ficamos a saber que ela seguiu o curso de Sociologia e trabalhou quase 20 anos na empresa pública Itaipu Binacional, que gere a barragem com o mesmo nome. Mas acerca da sua vida privada, antes de Lula, nada se fica a saber. A revista Veja revela que ela terá sido casada durante seis anos e não tem filhos. Os nossos colegas do jornal de Curitiba Plural escrevem que, ao procurarem saber mais, foram confrontados com uma "muralha de mutismo e lealdade". Ainda assim informam que Janja é a mais nova de dois irmãos e que terá sido casada com um professor de História. O seu pai, José Clóvis da Silva, reformado com 82 anos, vive ainda em Curitiba. Contactados pelo jornal, os seus amigos descrevem-na como uma mulher "determinada, organizada, concentrada, leal". E afirmam que a paixão por Lula terá acontecido por altura de um jogo de futebol de beneficência em Guararema, em dezembro de 2017, onde o ex-presidente fazia parte da equipa liderada pelo cantor e compositor Chico Buarque.

Na sua conta do Instagram, criada em maio de 2017, nada transparece também. A primeira foto partilhada, a do seu cão Thor, recebeu 24 gostos. De seguida foram postadas as tradicionais selfies, fotos de jantares entre amigos, caminhadas e passeios, noites de jazz com o seu grande amigo, o advogado Leandro Pedron, ainda imagens de cães e apelos à libertação de Lula. Isto antes da ascensão no sentido da oficialização do casal. E de o número de seguidores passar de 700 a 226 mil.

O antigo cão de Rosângela, Thor
O antigo cão de Rosângela, Thor Foto: @janjalula

Vestido de casamento made in Brasil

O casamento de ambos celebrava-se, assim, a 18 de maio de 2022, numa cerimónia privada reservada a um círculo de pessoas chegadas, entre as quais figuravam inúmeros artistas, numa residência chique de São Paulo. A noiva avança envergando um vestido made in Brasil, é claro. A criação em tecido branco-sujo bordado à mão por artesãs locais é assinada pela muito em voga Helô Rocha.

Lula parece mais do que nunca empolgado pela relação dos dois. "Estou apaixonado por ela como se tivesse 20 anos", não para de repetir. O casal nunca se separa e percorreu o Brasil de mãos dadas ao longo da maratona da campanha. Unido por detrás do slogan "o amor vencerá", pelo "Brasil da esperança". E tendo de instituir um vasto programa para reparar um Brasil desunido como nunca após quatro anos da presidência de Jair Bolsonaro. "Sem medo de ser feliz", como o refrão do hino oficial da campanha de Lula.

Isabelle Bodet / madame.lefigaro.fr / Atlântico Press

Tradução: Adelaide Cabral

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