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Isabel Jonet: 'Não imaginava que hoje estaria aqui… Mas tem sido uma vida apaixonante.'

Humanitária e hiperactiva, Isabel Jonet começou por fazer duas tardes de voluntariado no Banco Alimentar Contra a Fome, em Lisboa, em 1994. Hoje, está à frente dessa associação que conta com 21 Bancos e apoia 2.600 instituições de solidariedade social em Portugal, que por sua vez são responsáveis por entregar bens alimentares a cerca de 400 mil pessoas com carências alimentares comprovadas. E isso, só por isso, é uma prova de humanidade irredutível.

Isabel Jonet
Isabel Jonet Foto: Pedro Ferreira
13 de setembro de 2019 | Rita Silva Avelar

Nascida numa família de cinco irmãos, Isabel Jonet cresceu com pais que a educaram segundo os princípios da partilha e da solidariedade. Aos 12 anos começou, tal como os irmãos, a fazer voluntariado no Hospital de Sant’Ana, na Parede, durante as férias de Verão. Nascida em 1960 e natural de Cascais, Isabel estudou no Liceu de Oeiras (numa altura que coincidiu com o 25 de Abril de 1974) e formou-se em Economia pela Universidade Católica. Trabalhou num restaurante e deu explicações durante esse período. Em 1982, casou com o ex-jornalista Nuno Jonet (com quem tem cinco filhos, Madalena, Carmo, Isabel, José Maria e Miguel) e começou a trabalhar na Sociedade Portuguesa de Seguros.

Foi para Bruxelas com o marido, onde se candidatou ao serviço de traduções do comité Económico-Social, da Comissão Europeia, no qual permaneceu sete anos. De regresso a Portugal, em 1994, tornou-se directora do Banco Alimentar Contra a Fome e, em 2012, da Federação Europeia de Bancos Alimentares Contra a Fome. De sorriso aberto e energia [aparentemente] infungível, é desta maneira que conversamos com Isabel Jonet.

A Isabel começou por trabalhar numa seguradora e, mais tarde, no Comité Económico e Social, em Bruxelas. Estava longe da missão a que estava destinada?
Desde os 12 anos que eu faço trabalho voluntário. Eu nunca tinha pensado chegar ao Banco Alimentar… Mas num determinado momento, quando regressei de Bruxelas, comecei à procura de um trabalho voluntário e apaixonei-me pelo Banco Alimentar. É uma paixão que se mantém ainda hoje, ao fim de 25 anos. Estou no Banco Alimentar desde 1994 e aquilo que foi possível fazer, naquela altura, foi estruturar um modelo de gestão que fez com que o Banco Alimentar pudesse replicar noutros pontos do país. Os Bancos Alimentares, na actualidade, ajudam a alimentar mais de 400 mil pessoas em Portugal. Um caminho que se fez porque houve muitas pessoas boas e muita receptividade para o voluntariado e para a responsabilidade social. Não imaginava que hoje estaria aqui… Mas tem sido uma vida apaixonante.

Como recorda esses primeiros momentos?
Na altura, eu fui propor a minha colaboração ao director do Banco Alimentar que, em 1994, era uma coisa muito pequenina que apoiava 16 instituições. Mas percebi logo que havia ali um grande potencial. Nessa época, eu fazia traduções económicas para a Comissão Europeia durante a parte da manhã e, à tarde, colaborava com o Banco Alimentar.

Que potencial é que encontrou?
Um potencial incrível, até porque o Banco Alimentar, na sua génese, luta contra o desperdício de alimentos, ideia que sempre me motivou e que me mobilizou muito no que quer que seja. Desperdício de tempo, desperdício de afecto, desperdício de amor e desperdício de comida. Quando destruímos um bem, um alimento que ainda está próprio para consumo, aquilo que estamos a fazer é, muitas vezes, tirar esse alimento da mesa de quem dele precisa e para quem ele é fonte de vida. E, em Portugal, há muitas pessoas com graves carências alimentares. Em Portugal, há um milhão de pessoas que vive com menos de 250 euros por mês e dois milhões de pessoas com 400 euros por mês.

Como é acordar sabendo que tem a missão de ajudar a erradicar a fome em Portugal?
Quando eu me levanto de manhã, aquilo que sinto é sempre uma grande motivação para trabalhar [e isso acontece] sobretudo porque tenho uma equipa extraordinária. E quando se trabalha com pessoas que estão totalmente alinhadas e focadas naquilo que é um projecto que é partilhado, então tudo é muito mais fácil. O facto de eu poder fazer aquilo que faço contribui para que a minha vida tenha muito sentido. Além do Banco Alimentar, eu fundei a Entrajuda que tem concebido um conjunto de iniciativas muito empreendedoras e com uma grande inovação social.

Quais são as maiores adversidades deste trabalho?
Eu diria que é vivermos de donativos. Os Bancos Alimentares vivem quase exclusivamente de donativos. E vivem da bondade dos outros. Portanto, a maior dificuldade poderá ser a capacidade de suscitar sempre essa bondade junto das pessoas que têm de perceber que podem dar algum pequeno contributo. Eu acho que o mais surpreendente é a capacidade de tocar corações de uma forma transversal. Seja de [pessoas] ricas, seja de [pessoas] pobres, seja de pessoas que têm crenças religiosas ou de pessoas que não acreditam em nada, mas que se deixam tocar pela mensagem da bondade.

Somos mais solidários do que há 30 anos? O que é que mais mudou, na consciência humanitária dos portugueses?
Os portugueses são fantásticos! É um povo de uma generosidade extraordinária. Eu digo que os portugueses têm "o coração na boca". E, portanto, sempre que há uma tragédia, algum incidente ou alguma coisa que os toque, querem de imediato ajudar. Nos países do norte da Europa não é assim… E não é assim porque nesses países existe a ideia de que o Estado tem de fazer tudo. Assim, a solidariedade espontânea morre porque as pessoas deixam de se sentir responsáveis pelo bem comum e acham que não é nada com elas e que há alguém que vai tratar do assunto. Em Portugal e nos países do sul da Europa, em especial em Portugal, em Espanha e em Itália, o que vemos é que as pessoas interessam-se pelos outros e que não estão egoisticamente sentadas no seu canto à espera de que alguém, o Estado ou um ente anónimo vá resolver os problemas dos mais carenciados.

O que é que faz um ser humano abrir os olhos e o coração para as causas sociais?
Nós vivemos tempos complicados, sobretudo na altura da crise… Mas todos nós conhecemos famílias desempregadas. E quanto mais as situações de carência nos são próximas, mais acreditamos que elas (nos) podem acontecer. Isso manifesta-se, por exemplo, nas campanhas do Banco Alimentar quando se vê muitas pessoas a contribuir, seja com um pacote de arroz ou seja com uma lata de atum. São pessoas que dizem: "Eu vou dar hoje porque já recebi ou habitualmente recebo." As pessoas deixam-se tocar quando sentem e quando vêem.

A Tecnologia veio ajudar?
A Tecnologia veio potenciar o conhecimento de que existe esta rede [de solidariedade] e veio permitir que esta rede possa estar mais "em rede". A ideia de que podemos partilhar aquilo que temos, mas que também podemos partilhar casos e situações de pessoas que sofrem. Podemos partilhar ideias e iniciativas… Isso fez com que, de alguma forma, se possa estar mais perto de quem precisa. Eu diria que hoje, em Portugal, todas as pessoas que têm carências podem ser assistidas. Porque há uma resposta perto delas. As tecnologias permitem que, por exemplo, o cidadão comum possa encaminhar um caso de pobreza. Porque vai à Internet e vê a instituição perto do sítio onde aquela pessoa mora. E, além disso, vemos que existem instituições que trabalham mais [em cooperação] umas com as outras. Antes era "cada um no seu quintal" e as pessoas não partilhavam. Hoje em dia, até a Internet faz com que as pessoas estejam mais próximas e menos sós. 

Saiba mais Isabel Jonet, Nuno Jonet, Federação Europeia de Bancos Alimentares Contra a Fome, questões sociais
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