Histórias de Amor Moderno: “Só lhe perguntei uma vez por que razão achava ela que não podia engravidar. Voltou-me as costas”
“Eu sabia que era muito mais velho do que ela, mas a Idalina fingia que não dava conta. Fazia-o de uma maneira tão natural e descontraída que eu próprio me fui esquecendo de ser mais velho e fui começando a ficar mais novo e mais novo. Quando dei por mim, era da idade dela e estava apaixonado.” Todos os sábados, a Máxima publica um conto sobre o amor no século XXI, a partir de um caso real.
Histórias de Amor Moderno
Histórias de Amor Moderno: “Só lhe perguntei uma vez por que razão achava ela que não podia engravidar. Voltou-me as costas”A Idalina, 17 anos mais nova do que eu, morreu há dois meses e eu fiquei cá. Não fiquei órfão, embora às vezes pareça. Fiquei viúvo. Viúvo de uma mulher 17 anos mais nova do que eu. A viver nesta terra, que nem sequer é a minha, mas que era a dela. Diz-se muito que a vida é injusta, usam-se frases feitas e lugares-comuns para descrever ou designar os contornos que o destino tem guardados para alguns de nós, os mais desafortunados, porventura, mas nunca esperamos sentir essa injustiça com um travo de crueldade e malícia.
Eu e a Idalina nunca tivemos filhos. Não os podíamos ter. Mas isso de ter filhos só não pôde acontecer mais tarde. Primeiro, antes, muito antes disso, conhecemo-nos. Tudo isto aconteceu na América. Nos Estados Unidos, como vocês dizem aqui. Lá, chamamos-lhe “América”, como se não houvesse outra, como se aquele território ocupasse tudo o que legitimamente designamos assim, “América”.
Eu era um biscateiro que aceitava pequenos serviços nas casas mais abastadas da zona de Newark, New Jersey. Antes disso, trabalhei muitos anos nas perfurações de petróleo. Andei nos poços do Texas e nas plataformas de alto-mar. Montar brocas e telescópios, trabalhar com cintas e cordame, cabos e contrafortes, ora a rasar a água do Golfo do México, ora sob o sol escaldante do deserto de Chihuahuan, eu era mestre a manusear ferramentas e maquinaria. A experiência acumulada excedia largamente a que era necessária para dar conta de mangueiras, torneiras e corta-relvas, vedações, aspersores e fechaduras de portões, entre outras minudências que a burguesia de ascendência latino-europeia necessitava de ver arranjada.
A Idalina era criada numa dessas casas burguesas. Tinha vinte ou vinte e um anos. Eu já andava a rondar os quarenta, era um homem feito, com experiência de vida. Já tinha a minha filha, quase da idade da Idalina. Já a tinha deixado para trás, também, a ela e à mãe dela, anos antes. A minha filha nunca gostou de mim. Não a condeno, não a censuro. Não fui boa pessoa. Guardo mágoas e uma grande angústia por não ter sido um bom pai. E não sei até que ponto, e de uma forma talvez inadequada, não projetei a minha culpa pela falta de atenção à minha filha na Idalina, quando começámos a falar um com o outro.
A Idalina, a minha mulher, a única com quem verdadeiramente casei e, sei-o agora, a única que amei de verdade, era uma menina frágil e desamparada quando a conheci. Trabalhava na casa de uma família obscenamente burguesa. Não é que eles fossem muito ricos. Diria que eram obesa e desajeitadamente ricos. Eram daqueles endinheirados sem qualificação alguma para o que quer que fosse, gente concentrada no bling-bling e na ostentação e na fatuosidade, sem substância, sem conhecimentos, sem cultura e sem bom-gosto. Além disso, eram pessoas com maneirismos colonialistas, cheios de vontade de mandar, de dar ordens. Eram prepotentes, ríspidos e malcriados.
A mim, tanto se me dava. Lidava bem com eles e podia mandá-los à fava se me apetecesse, pois clientes não me faltavam. Porém, a Idalina só os tinha a eles. Mal falava inglês, vivia naquela casa desde os 12 anos, era sobrinha-neta do patriarca - no fundo, era uma espécie de órfã refém da boa-vontade endinheirada daquela família. E foi por ela, e por me aperceber da situação dela, que fui ficando na casa. Não tinha quem a protegesse, quem lhe desse cobertura. Isso mexeu comigo, porque imaginei o que seria a minha filha a viver num ambiente semelhante. Tornei-me uma espécie de guardião dela.
Conversávamos, namoriscávamos. Eu sabia que era muito mais velho do que ela, mas a Idalina não parecia importar-se com isso. Ou então fingia que não dava conta, que não se apercebia da magna diferença entre nós. Fazia-o de uma maneira tão natural e descontraída que eu próprio me fui esquecendo de ser mais velho e fui começando a ficar mais novo e mais novo. Quando dei por mim, era da idade dela e estava apaixonado.
No início, eu era - e sei que o era - a fuga possível, o escape diário da Idalina à sua vida medíocre, contida e oprimida na casa daqueles familiares distantes o suficiente para não a acarinhar, mas próximos o bastante para terem poder sobre ela. Com o tempo, surgiu uma amizade, um interesse. Aos poucos, comecei a corrigir-lhe o inglês. Ela tinha muita facilidade em aprender, e só não aprendera antes porque lá em casa ninguém falava inglês corretamente.
A melhoria do inglês dela significou, necessariamente, uma inegável melhoria da comunicação entre nós. Gosto de acreditar que a sua melhor compreensão do inglês a levou a compreender muito melhor o meu charme de velho batido pela vida. Sei que, quando eu dizia alguma coisa mais malandra e rematava com o meu sorriso maroto, os olhos dela se derretiam e reluziam com uma expressão que passei a identificar, sem dúvida, como amor. A Idalina amou-me, eu vi-o nos seus olhos e no seu sorriso incontido.
Namorámos. Não o fizemos com todos os preceitos de um casal convencional, não houve pedido disto nem daquilo. Fomos acontecendo um ao outro, com ganas e beijos, e sorrisos e amassos. Fico feliz por ter sido assim, sem hesitações nem licenças. E depois decidimos casar-nos. Pedi-a em casamento de frente para a Baía de Newark. Estávamos os dois a contemplar as águas moderadamente plácidas. E então eu disse-lhe, “Idalina, o que é que achas de te casares comigo?”, e ela respondeu, “não parece má ideia”. Eu olhei para ela, tinha uma lata de Bud na mão, ela sorriu, abraçou-se ao meu pescoço, beijou-me com a pontinha dos lábios e, no fim, quando me largou, disse, “por mim, let’s do it”.
Eu não falo português. Compreendo o que me dizem. Já vivo em Portugal há mais de vinte e cinco anos. Habituei-me à vossa tagarelice, às vossas vogais, ora abertas demais, ora fechadas como túmulos de letras, à vossa cacofonia constantemente acabada em inho - bocadinho, paradinho, velhinho, coitadinho, sossegadinho, cafezinho, carrinho, solinho, tudo, mas tudo inho. É chato. E, no entanto, adoro essa vossa maneira de transformar palavras com o pior diminutivo do mundo. Adoro porque me lembra a minha querida Idalina, quando, para me irritar, me chamava “amorzinho”. E eu fingia que ficava irritado, mas no fundo gostava, sabia-me bem aquele carinho - e eu sei que aqui o “inho” não é diminutivo.
A culpa de eu não falar português é da própria Idalina, antes de mais, e de todos os portugueses que me acolheram aqui na vila. Toda a gente faz questão de falar comigo em inglês e isso impede-me de progredir, de aprender, de praticar.
Mudámo-nos para Portugal porque deixámos de suportar a vida em Newark. Num primeiro momento, foi esse o motivo. Depois de casar, percebemos que a Idalina não conseguiria engravidar. Quando a nossa suspeita - a de que não poderia engravidar - foi confirmada pela médica, ela não quis ouvir a explicação. “Sei muito bem porque é que não posso ter filhos”, disse, e depois começou a vestir-se. Só lhe perguntei uma vez por que razão achava ela que não podia engravidar. Voltou-me as costas e, segurando as lágrimas, disse-me apenas “nunca mais toques neste assunto, por favor”. E eu respeitei a sua vontade.
Eu nunca soube o motivo, fosse ele real ou apenas convicção da Idalina, para que não pudesse engravidar. No entanto, havia alguma coisa que me dizia que estava relacionado com a sua adolescência na casa dos burgueses parolos. Se aceitei evitar o assunto, não hesitei em pretender afastar-me e afastá-la definitivamente daquele ambiente. Numa primeira fase, a ideia passava por deixar Newark, experimentar outro lugar, a Florida, talvez, um sítio onde as nossas experiências profissionais e de vida pudessem ser-nos úteis. Após algum tempo de prospeção, acabámos por decidir que não valia a pena, que o melhor seria ela voltar para Portugal e levar-me consigo. Sempre tive muita curiosidade acerca da terra da Idalina, que nunca antes conheci, até nos termos mudado. Uma terra por que me apaixonei, perdoem-me o lugar-comum, desde a primeira troca de olhares. Eu olhei para o vale e para as serras, para a casa, para os terraços e para o terreno em redor, e perdi-me de amores de uma maneira muito profunda. Disse para mim: daqui não quero sair mais. É aqui que quero morrer.
E ainda é esse o meu projeto de vida. Uma vida que, hoje, agora, espero seja curta. Pois se já nada me resta. A minha mulher, o meu amor partiu. Fiquei sozinho, num sítio que é meu, que eu tão bem conheço, mas que não é meu de verdade, não é legitimamente meu. É o sítio dela. E ela, 17 anos mais nova do que eu, partiu e deixou-me aqui, a lidar com o sítio onde ela não está. Quando desejei nunca mais sair daqui, ficar até ao meu último dia, acreditei que fosse ela a cuidar-me da roupa que eu levasse para o túmulo. Mas a vida é cruel. A vida fez-me escolher a roupa que ela levou vestida.
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