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Histórias de Amor Moderno: “O Eduardo começou a despir-me, mas não muito. Eu não tinha muito o que despir e a pressa não permitiu”

“Na piscina, as brincadeiras, misturadas com álcool e música acelerada, começaram a ficar crazy.” Todos os sábados, a Máxima publica um conto sobre o amor no século XXI, a partir de um caso real.

After: Depois do Desencontro (2021)
After: Depois do Desencontro (2021) Foto: IMDB
28 de março de 2026 às 09:00 Maria Olívia Sebastião

Estávamos no final de maio, quando os fins de tarde são tão apetecíveis que só apetece festas e cocktails. Apropriadamente, um casal de amigos meus - fui colega de liceu da Andreia e, depois, fizemos juntas o curso de arquitetura - decidiu fazer a sua própria celebração do pôr do sol sobre a planície alentejana. Eles têm uma casa ou, melhor dizendo, um solar ou um palacete no centro de Beja, com uma vista deslumbrante sobre o vazio direitinho dos campos, vilas e aldeias, que se estendem pelo horizonte.

Era uma festa a sério, com banda no jardim - um crooner, muito bem vestido, e músicos com estilo inspirado nos Blues Brothers -, vários balcões com bebidas, uma pista de dança num dos alpendres e, acima de tudo, um monte de gente bonita, bem-vestida, de sorrisos muito alinhados e brancos. Gente vestida para viver a vida, com vestidos curtos e bem cortados, camisas abertas q.b., blazers ligeiros e coloridos, cabelos moldados e barbas aparadas à prova de qualquer repreensão.

Porém, o dress-code começou a tornar-se indistinto quando, ao fim de algum tempo e de muitos cocktails, o primeiro grupo decidiu atirar-se para a piscina. Os primeiros foram todos vestidos; os seguintes decidiram ter mais cuidado - havia camisas, tops e vestidos pelo chão, um pouco por toda a parte. A banda dos Blues Brothers tentou acompanhar a loucura e começou a tocar canções mais mexidas do que haviam tocado até então. Eu só conhecia uma dos Blink-182, mas o meu forte não é a música, muito menos essas coisas mais antigas.

Na piscina, as brincadeiras, misturadas com álcool e música acelerada, começaram a ficar crazy. Não sou a maior fã desse tipo de loucuras, mas o dia era especial e eu não queria passar por menina de coro. Atirei-me para a água, toda vestida, e apanhei o primeiro cocktail pousado na borda da piscina. Bebi-o de uma só vez e mergulhei. Quando voltei à superfície de novo, havia um rapaz sem camisa, dentro de água, a olhar para mim, como se estivesse à minha espera. “Menina, acabaste de beber a minha bebida. E agora?” “Queres que vá buscar outra?” Riu-se e empurrou-me para debaixo de água outra vez. Foi o começo de uma brincadeira que iria prolongar-se bastante.

Da piscina para uma suíte com vista sobre as planícies: as gargalhadas e jogos de mãos dentro de água, empurrões, agarrões e demais tipos de amassos, resvalaram rapidamente para toques de lábios nas faces e depois nos lábios um do outro, e depois das línguas, e mais mãos e mais língua e mais mãos, mãos por todo o lado, com água, sem água, com dedos, com força, com delicadeza. “Isabel, vamos até lá acima.” Fomos.

Entrámos numa das quatro suítes da casa - como eu disse, é um palacete, um solar citadino - e lembro-me de ter tido o instinto de verificar se a porta tinha ficado fechada. Ficou. Saltei para a cama. O Eduardo saltou para cima de mim.

O Eduardo é primo direito do Ricardo. O Ricardo é o marido da minha amiga Andreia. O Ricardo é o dono da casa - da mansão, do solar, palacete, enfim, já expliquei. É uma casa enorme, pronto.

O Eduardo começou a despir-me, mas não muito. Primeiro, porque eu não tinha muito o que despir. Depois, porque a pressa dele não permitiu que perdêssemos muito tempo com detalhes como “retirar a roupa do corpo” - chegar um bocadinho para o lado foi suficiente para que pudéssemos continuar sem mais demoras. Não foi delicado, mas foi eficiente e, a meu ver, honesto. Gostei.

Quando entrámos na suíte e me preocupei com a porta, certificando-me de que estava bem fechada, vi uma coisa que não devia ter visto: o reflexo do Ricardo - o dono da casa, o primo do homem que estava prestes a possuir-me animalescamente - no espelho da casa de banho. Não sei o que estava ali a fazer. Nunca me preocupei em investigar. Não me diz respeito. Mas vi-o. Naquele momento, tinha duas opções: parar tudo, exclamar pudicamente “ah, Ricardo!” e estragar uma noite perfeitamente boa, ou fingir que não tinha visto nada, deixar que tudo prosseguisse e esperar ver onde é que íamos dar. Optei pela segunda.

Não sei se o Ricardo olhou com atenção para tudo o que o Eduardo me fez durante a meia hora que se seguiu. Só sei que não ouvi ninguém sair do quarto. Pode não ter visto, mas, pelo menos, ouviu. Isso eu sei.

Eu e o Eduardo não fomos só mais um caso de uma one night stand. Pelo contrário: depois daquela loucura, começámos a sair e, eventualmente, aceitámos o compromisso. Fomos namorados, primeiro; entretanto, ficámos noivos. Vamos casar no fim do verão. Nunca contei nada a ninguém sobre aquela nossa primeira aventura na suíte do primo dele. Ele não sabe que o Ricardo estava lá e que ouviu e, possivelmente, viu tudo o que fizemos. E eu sei que o Ricardo sabe que eu sei. Mas não faz mal.

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