Histórias de Amor Moderno: “Pensei ‘está bonito’. Está mais gordo, é verdade. Mas quem não está, quando chega aos 40?”
“Esse é o encanto do Pedro: existe como uma tempestade permanente, que vai devorando tudo em redor, partilhando vida enquanto a tira e suga. É um homem encantador e devastador.” Todos os sábados, a Máxima publica um conto sobre o amor no século XXI, a partir de um caso real.
Histórias de Amor Moderno
Histórias de Amor Moderno: “Pensei ‘está bonito’. Está mais gordo, é verdade. Mas quem não está, quando chega aos 40?”No comboio, de regresso a casa, pego de novo na Elena Ferrante. Faltam-me nem cinquenta páginas, talvez, para chegar ao fim do último tomo dos Romances de Nápoles, a História da Menina Perdida. Mas leio e releio um parágrafo e é como se não saísse do sítio, como se o comboio não andasse, ou andasse para trás, e eu tivesse de olhar, uma e outra vez, para aquelas letras, para aquelas linhas, palavra por palavra, juntá-las de novo na cabeça e esperar que façam sentido. Debalde. Não fazem.
Leio as letras e junto-as, produzem sons na minha imaginação, mas são sons despegados, como latidos ou cacarejos transpostos para o papel por meio de um alfabeto que serve apenas para sinalizar onomatopeias sem sentido. Leio e não leio nada. O cérebro não processa. Cada letra que junto neste exercício penoso surge-me sobre a imagem viva do Pedro. Ele é o cenário perpétudo de tudo quanto me passa pela vista.
Fui a Lisboa em trabalho. Não ia à capital desde há, sei lá, talvez 15, 16, 17 anos. Vivo longe e junto à fronteira. De Lisboa, guardo alguma memórias boas e queridas, mas a maior parte das coisas que recordo são tristes, momentos maus - separações, isolamento, e a mais triste de todas, a morte da minha mãe. O Pedro ocupa quase todas essas memórias em quase todas as posições, do lado bom e do lado mau, como apoio fundamental e como espírito crítico que me agravou as dores. Ah, e claro: como a pessoa que se separou de mim, depois de ter feito com que me separasse do meu companheiro anterior. Esse é o encanto do Pedro: existe como uma tempestade permanente, que vai devorando tudo em redor, partilhando vida enquanto a tira e suga. É um homem encantador e devastador. Sempre o conheci assim.
Há coisas que não mudam. Confesso que entrei naquele café movida por uma espécie de curiosidade masoquista. Talvez não tenha sido propriamente masoquista, não procurei deliberadamente sofrer ou ser magoada. Mas quando decidi entrar no café, fi-lo com a clara intenção de testar, de perceber se o Pedro mantinha o seu hábito. Afinal, passaram mais de vinte anos desde que nos separámos. E era ali que ele se refugiava já nessa altura, quando estávamos juntos. Quando éramos felizes.
Entrei e lá estava ele, numa das mesas junto à parede, longe da montra, longe da janela, de frente para a sala - parece que o ouço ainda hoje, “não gosto de ter uma sala inteiro nas minhas costas, a fazer sabe-se lá o quê; preciso de os ver”. Em momentos como este, não sei como reagir. Olhei em busca dele, mas sem esperança de o encontrar. Para minha surpresa - a surpresa começou logo na existência do café: achei que o mais provável era já não existir -, encontrei-o mesmo.
O Pedro está diferente, naturalmente. Vinte anos não são vinte dias e o tempo deixa marcas, deixa vida registada. O seu rosto continua bonito como sempre foi, a expressão é semelhante, está apenas mais depurada, mais intensa. Juntou algumas rugas, mas não muitas. Nota-se que tem cuidado da pele. Está bem vestido, muito melhor do que se vestia quando éramos novos - digo isto, mesmo reconhecendo que sempre teve estilo, sempre soube escolher e usar as roupas. Mas agora veste-se mais como um adulto: sem perder o toque irreverente, de uma espécie de juventude tardia, mas com aprumo, com arrumação. Com juízo.
Pensei “está bonito”. Está mais gordo, é verdade. Mas quem não está, quando chega aos quarenta? Éramos jovens e magrinhos num dia, e no dia seguir, que é hoje, passaram vinte anos e pelo menos dez quilos. No caso dele, talvez mais. Está robusto. O Pedro era um palito.
Não sei como agir nestes momentos porque, em boa verdade, nunca os vivo. Não tenho treino. Entrei num café das minhas memórias à espera de não encontrar o meu ex-bamorado dos tempos de faculdade e aquilo que me acontece é deparar-me com ele. E ele olhou para mim. Não me reconheceu de imediato, deu para ver pela expressão: olhou na minha direção e estagonou o olhar, como quem diz “eu conheço aquela cara”. Depois reconheceu-me e, apanhado desprevenido, desviou o olhar - provavelmente, e tal como eu, não sabia o que fazer -, para logo de seguida olhar de novo para mim e sorrir. E eu acenei. Cumprimentei-o. Chamou-me.
Cumprimentou-me com um abraço, dissemos aquelas coisas que se dizem quando não sabemos o que dizer, há quanto tempo, é verdade, o que é feito de ti, olha, cá estamos, a vida segue, estou mais gordo, não estás nada, estás ótimo, ah ah ah, não, tu é que estás incrível, os anos não passam por ti, que sortuda, oh, não digas disparates.
Até que, depois da descarga eufórica de clichés e frases sem significado, nos sentámos e caiu sobre o nós um silêncio que serviu para nos meter no lugar: naquele sítio, naquele momento, no presente, na consciência do que estava a acontecer ali, o reencontro desajeitado e imprevisto de dois ex-namorados de há vinte anos - de há tanto tempo que não guardávamos ressentimentos, e mesmo as mágoas que restavam tinham o sabor agridoce das memórias dolorosas da infância, como as das feridas que fizéramos em quedas de bicicleta.
“O que é que fizeste da tua vida?” A pergunta, tão simples e desajeitada, atingiu-me como um soco no estômago. Não estava preparada para responder, isso é óbvio. Mas estava ainda menos preparada para ser questionada daquela forma e de ser levada a pensar nisso. O que é que tu fizeste da tua vida, Diana? O que foi feito de ti desde o ponto do nosso desencontro, desde que voltaste para casa, nesse sítio remoto e distante da cidade, enquanto eu permaneci aqui, a ser um rapaz de Lisboa? De certo modo, senti que a pergunta podia ter-se traduzido por “de que maneira falhaste” ou “como é que deste cabo da tua vida”.
O Pedro sentiu o meu desconforto e apressou-se a tentar emendar o tom e o tempo, “não me interpretes mal, só quero saber, por curiosidade, o que aconteceu na tua vida durante todos estes anos em que não tivemos contacto”. Pareceu-me sincera a sua curiosidade e até justa a sua pergunta. Mas ripostei: tu, primeiro. Diz-me, Pedro, o que aconteceu na tua vida esplêndida desde que me largaste?
Houve alguma coisa muito sensível. Não queria dizer mágica, porque não é isso - e também porque odeio lugares-comuns destes baratos, que não significam coisa nenhuma. Mas senti que nos ligámos de uma maneira não-física, escondendo, talvez, os nossos erros, aquilo que nos frustrou e a sensação de que podíamos ter feito melhor na vida, ao longo do caminho - cada um no seu, mas possivelmente encontrando muitos traços comuns aos dois.
Despedimo-nos com novo abraço, à porta do café. No dia seguinte, vimo-nos outra vez. O Pedro quis ir despedir-se de mim à estação de comboios. Naquele momento, enquanto esperávamos que a máquina chegasse para me levar de volta à minha terra, ficámos um pouco em silêncio. Não sei o que lhe passava pela cabeça, mas na minha voltámos vinte anos para trás: ali estávamos, como quando éramos jovens e ele me levava à estação para eu ir passar o fim de semana com os meus pais. Ele deixava-me ali e depois seguia a sua vida, como um bicho da cidade que só sabe viver ao ritmo dela, entre eventos e amigos.
Sentei-me no meu lugar, junto à janela, e procurei-o para lhe acenar uma vez mais - uma última vez? Quem sabe. Ele não se foi embora, esperou que o comboio partisse. E eu sinto uma imensa vontade de voltar e de o ver de novo. Entretanto, vou tentar retomar a leitura.
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