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Há três tipos de pessoas no amor, segundo a ciência. Faça o teste.

No novo livro 'Ligados', o psiquiatra Amir Levine e a psicóloga social Rachel S.F. Heller debatem a teoria da vinculação adulta para ajudar a descortinar que tipo de pessoas somos - no amor, sintonizando-nos melhor com o outro.

Foto: Os Sonhadores / IMDB
11 de agosto de 2022 Rita Silva Avelar

Amir Levine, psiquiatra, neurocientista e investigador principal da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos da América, começou por  interessar-se por uma questão transversal à Humanidade: porquê é que muitas relações acabam de forma inexplicável, mesmo havendo um amor verdadeiro entre os elementos do casal? Muniu-se da ciência e, depois de recorrer ao trabalho pioneiro do psicólogo John Bowlby e à sua teoria da vinculação, chegou a várias conclusões que agora expõe no livro Ligados (Lua de Papel), que assina com a psicóloga social Rachel Heller.

Segundo os autores, as pessoas adultas tendem a posicionar-se numa relação amorosa de uma de três formas: as ansiosas, as evitantes e as seguras. Neste livro, os autores fornecem as ferramentas necessárias para identificar o tipo de vinculação das pessoas com quem se relacionam, ao mesmo tempo que expõem vários casos de pacientes de forma a evitar a armadilha das relações ansiosas, evitantes ou seguras, sendo que a última categoria tem mais facilidade em compatibilizar-se. Conversámos com Amir Levine sobre todas estas questões. 

Primeiro: em que consiste a ciência da vinculação adulta? Para pessoas que nunca ouviram falar dela?

A ciência da vinculação estuda a forma como nos comportamos em relações próximas. Oferece insights e dissipa certos mitos sobre como agimos ou devemos agir nas relações, é por isso que a considero tão útil. No centro da investigação da teoria da vinculação dos adultos está a descoberta de que nem todos percebemos as relações da mesma forma. Longe disso. Dependendo do nosso estilo de apego, desenvolvemos um conjunto de crenças e expetativas, bem como perceções que ditam a forma como interpretamos o que acontece nas relações. Se compreendermos melhor esta ciência, podemos fazer com que as relações funcionem melhor. Há toda uma biologia de segurança que está relacionada com a ligação e se compreendermos como funciona, podemos fazer com que as relações funcionem a nosso favor e não contra nós.

O livro diz que há amores que acabam inexplicavelmente, mesmo sendo casos de amor verdadeiro. Haverá uma ciência que possa responder a isto?

Sim, e ela pode explicar muito mais. Antes de mais, quando nos tornamos tão próximos de alguém, deixamo-los entrar no nosso santuário mais interior, uma parte deles ficará sempre connosco. Para a maioria de nós, escolher alguém da multidão e torná-lo especial e único não é uma coisa comum. A maioria de nós pode contar pelos dedos de uma mão quantas pessoas deixámos entrar assim nas nossas vidas.

Mesmo que as relações acabem, por qualquer razão, isso não significa que a pessoa esteja completamente "divorciada" do nosso coração. Na verdade, não é assim tão invulgar as pessoas voltarem a casar com a mesma pessoa após o divórcio. 6% dos divorciados voltarão a casar com a mesma pessoa no futuro. Isto não tem em conta quantas pessoas se voltam a juntar sem se casarem.

Amir Levine, psiquiatra, neurocientista e investigador principal da Universidade de Columbia.
Amir Levine, psiquiatra, neurocientista e investigador principal da Universidade de Columbia. Foto: Blanche Mackey

Mesmo que odiemos a pessoa com quem estivémos, ou que as combatamos em tribunal, ainda possuímos sentimentos em relação a elas. Assim, saber que este vínculo é duradouro é um impulso ainda maior para ter isso em mente enquanto se está numa relação, e quando se está a passar por uma separação. É melhor encontrar uma forma pacífica de acabar com as coisas do que lutar. É melhor manter uma janela de oportunidade aberta para o amor.

Um bom exemplo é alguém que sei que se divorciou do marido e, 20 anos depois, quando ficou muito doente com cancro pancreático de fase 4, o seu ex-marido e a sua nova mulher acolheram-na e tomaram conta dela. Ela morreu em casa deles.

Como é que se chega a estes três tipos de pessoas? Que estudos foram feitos, e onde estavam baseados?

A origem da teoria da vinculação está na forma como as crianças se apegam aos seus prestadores de cuidados. Depois, [Condy] Hazan e [Phillip] Shaver, em 1987. publicaram um artigo onde mostraram que os adultos também seguem os mesmos estilos de apego, ansiosos, evitantes e seguros em estreitas relações românticas. Esse artigo foi o início de todo um campo de estudo dos estilos de apego de adultos e hoje existem dezenas de laboratórios em todo o mundo que estudam a apego em adultos.

O livro Ligados.
O livro Ligados. Foto: DR

Este livro é escrito das perspetivas da psicologia e da psiquiatria. O amor deve ser visto através do prisma dos dois?

Não exatamente... ambos o vemos do ponto de vista do apego - penso que trabalhar neste livro em conjunto ajudou-nos realmente a usar melhor o nosso conhecimento no trabalho com os nossos pacientes.

Quais são as bases para uma relação saudável? E os gatilhos para identificar uma relação tóxica?

Penso que se tivesse de retirar um ensinamento sobre relações sólidas, diria que o bem-estar do nosso parceiro/a é o nosso bem-estar. Não é apenas uma ideia, é a forma como a nossa biologia funciona. Tornamo-nos biologicamente tão interligados um com o outro que não há separação fisiológica entre um casal como muitas pessoas pensam que há.

Será que esta teoria funciona como um Tinder da vida real, fora do ecrã? Como identificar compatibilidades, num primeiro encontro, por exemplo?

Sim, funciona. O livro guia-o através dos passos. Primeiro ensina-lhe a decifrar o seu estilo de apego, depois ensina-lhe a decifrar o estilo de apego dos outros. É como aprender a ler um novo mapa - um mapa de encontros, para ajudar a guiá-lo através deste processo de encontros para encontrar pessoas que sejam mais compatíveis consigo. Também lhe ensina ferramentas seguras para ter mais confiança e comunicar melhor quando está a namorar. Escrevi este livro porque este é o tipo de informação que desejava ter quando estava a namorar - informação baseada na ciência, baseada em factos para me ajudar a guiar através deste processo.

*Os autores convidam a fazer um teste de compatibilidade online, aqui.

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