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Diogo Faro, o pugilista digital: "Odiaria que a minha vida fosse igual à das mulheres que são apalpadas e assediadas."

O comediante lisboeta tornou-se nos últimos anos uma voz ativa na luta pela igualdade de género. As provocações humorísticas de Diogo Faro sucedem-se no mundo virtual, espicaçam a atualidade, incomodam alguns e originam reflexões sobre o machismo, homofobia e racismo. O seu humor serve-se de ironia para fazer crítica social. Um combate que Diogo Faro abraçou totalmente.

Diogo Faro
Diogo Faro Foto: Frederico OM
28 de julho de 2020 | Tiago Manaia

Intensa vaga de calor em Lisboa e Diogo Faro está sentado de frente para o sol. Escolheu o bairro onde cresceu para evocar o seu percurso. Fala-nos das ruas da Alvalade, é nelas que encontra calma e reconforto. Ouvem-se cigarras na esplanada onde bebemos cerveja, há livros em cima da mesa. Diogo parece querer ter sempre leitura nas mãos. Dias antes, enquanto o fotografávamos, lia sobre o racismo estrutural no Reino Unido. Hoje descobre as teorias da feminista americana Camille de Paglia. A pandemia fez com que interrompesse o seu espetáculo de stand up, "Lugar Estranho" – onde refletia sobre o mundo. Trabalha atualmente num livro, onde conta deixar por escrito os ideais que defende. Seguido por milhares de pessoas, em inúmeras plataformas digitais, há oito anos que a internet é o seu trampolim de ironia. As entrevistas que fazia a desconhecidos na rua intitulavam-no de Sensivelmente Idiota, e tornaram-no popular. Mas o tom amadureceu desde então. O vídeo satírico, "o machismo não é grave porque é normal", levou um número gigante de mulheres a verbalizar um quotidiano feito de abusos. Nasceu assim o movimento feminista #Nãoénormal. No último ano, Diogo Faro intercalou humor com conferências para falar de igualdade de género.

À frente da esplanada onde o entrevistamos, há o recreio de uma escola. E ainda que Lisboa esteja mais silenciosa por causa da pandemia, as perguntas e respostas desta entrevista são pontuadas por gargalhadas de crianças a brincar ao ar livre.


Máxima: queremos começar por falar contigo sobre esta ideia de mazelas que vamos acumulando quando tentamos defender alguns ideais. Foi isso que nos fez querer tirar estas fotografias num combate simulado. Como vives com o ódio, que é expresso diretamente contra ti e enche muitas vezes as tuas caixas de comentários nas redes sociais?

Sinto que tenho as costas largas no sentido em que tenho uma família e amigos incríveis. No que diz respeito a estes meus valores que partilho, é impossível eu estar errado. Eu só defendo que toda a gente merece ser feliz. Acredito nos direitos LGBTQI+, na igualdade de género, no antirracismo e na luta contra a xenofobia. É impossível alguém dizer que isto está errado, por mais que me odeiem. No entanto há críticas que me fazem e que sinto que são bem feitas. Agora o ódio quando vem de racistas, fascistas ou homofóbicos, não me afeta.

Consegues desligar o teu corpo disso ou trancas a porta à noite?

A maior parte das vezes consigo, não posso dizer que sou o super-homem e nada me afeta... Na internet tudo dura sempre mais ou menos dois dias, e se às vezes faço uma crónica mais dura sobre o machismo ou racismo, há dias em que as mensagens podem mexer comigo, por mais que eu acredite no meu trabalho de comediante que defende um ponto de vista.

Diogo Faro.
Diogo Faro. "Às vezes fico espantado por as pessoas me odiarem tanto, só por eu dizer que há racismo sistémico em Portugal." Foto: Frederico OM

Portanto as pessoas que te fazem ameaças não têm humor nenhum?

À partida não, porque isto extravasa com o concordar ou discordar com os meus pontos. Às vezes fico espantado por as pessoas me odiarem tanto, só por eu dizer que há racismo sistémico em Portugal. Por causa de uma evidência como esta, as pessoas são capazes de me dizer coisas inacreditáveis e eu questiono: "o que se passa na vossa vida para ficarem tão afetados?".

As reações desse tipo começaram quando começaste a mexer com política?

Creio que todos os comediantes são muito atacados e criticados. Eu com algumas criticas aprendo muito, outras acho que são só descabidas. Quando comecei há 8 anos o meu humor era muito menos político, era um pouco mais quotidiano. Agora como há este lado social, o ódio é mais visceral.

Da tua parte parece ter havido um amadurecimento grande, quando voltámos a ver os teus primeiros vox pop na red carpet dos Globos de Ouro ou na Vogue Fashion’s Night Out , há momentos em que quase roçavas o bullying na forma como aproximavas os teus entrevistados. Eles quase se assustavam. Tu também parecias assustado, era uma defesa?

São coisas que não faria hoje. O fixe disto é nós podermos aprender. Se quiserem ir rebuscar o meu Twitter de há 8 anos, se calhar vão encontrar piadas e poder dizer-me, "afinal foste machista". Já escrevi piadas de merda. Mas não vivo preocupado com isso, mal de mim se continuasse a escrever as mesmas coisas. Uma das críticas que surge regularmente no Facebook é dizerem-me que têm saudades de quando fazia só humor, e não havia política e questões. Eu não tenho saudades nenhumas. Hoje em dia continuo a fazer vox pops, mas faço-os de outra maneira.

Foi a vida que te fez dar a volta então? Esta mudança vem das leituras, do palco, dos amigos com quem conversas? 

Vem de tudo. Eu não sou nenhum génio, um Kant ou um Espinoza ou um filósofo à antiga que se metem em casa e começam a pensar um universo e escrevem livros geniais, eu aprendo a falar com as pessoas, a ler os livros delas.

Houve alguma coisa que te tenha abanado?

Foi um acumular de coisas. Em relação à igualdade de género foram muito as minhas amigas. Eu nunca fui machista do género mandar piropos na rua, mas acho que talvez o fosse por compactuar com o estado normal das coisas, ou seja se calhar desvalorizava quando uma amiga me tentava explicar o quão horrível pode ser um piropo. Quando vejo isso à luz de hoje, sinto que ao desvalorizar estava a ser complacente, fazia-me compactuar com o patriarcado instalado na sociedade. Mas não acordei um dia e fiquei feminista, o mérito foi todo das minhas amigas. Fui ouvindo, e percebendo que odiaria que a minha vida fosse igual à de todas as mulheres, que são apalpadas, assediadas no metro, na faculdade, no trabalho. Algumas, sofreram mesmo tentativas de violação. Eu percebi que realmente estava numa bolha por ser gajo, e pensei que não queria viver numa sociedade em que coisas como estas são normais.

E começar a defender os direitos dos gays veio por acréscimo?

Nunca fui minimamente homofóbico. Sempre lidei com pessoas LGBTQ+, os meus pais são artistas. Nunca na vida fui educado com a ideia de que ser LGBTQ+ seria alguma anormalidade. Mas o meu tipo de discurso foi mudando…Comecei a perceber que algumas pessoas usavam a palavra gay como um insulto.

Tens uma crónica sobre futebol no Expresso, jogas à bola desde miúdo e defendes os direitos LGBTQ+. Não há aqui um choque de mundos? Por exemplo, não temos conhecimento de nenhum jogador de futebol na primeira divisão que seja gay...

Que seja gay ou tenha saído do armário? Seria extremamente importante isso acontecer. O futebol é uma cena tão patriarcal, é tão o símbolo do machismo. Percebo que seja muito difícil para um jogador sair do armário. 

Diogo Faro.
Diogo Faro. "Não ando na comédia para degolar traumas." Foto: Frederico OM

 As pessoas precisam mesmo de dizer com quem dormem?

Não vejo isso como uma obrigação. Mas se tiverem essa disponibilidade e se puderem… De um ponto de vista social e de representatividade é importante…Eu, se saísse do armário agora, se eu achasse que era gay, tenho a certeza que para a minha família seria tudo na boa. Agora imagino a quantidade de pessoas para quem isso é muito difícil. Portanto quanto mais representatividade houver, melhor.

O teu pai é maestro, a tua mãe é cantora de ópera. Ainda te lembras de ser miúdo e andares nos corredores do Teatro Nacional de São Carlos rodeado de cantores?

Sim, era tudo muito dramático, tanto homens como mulheres. Cresci muito ali.

É uma boa recordação?

Ótima! Eu depois comecei a fazer óperas como figurante, entretanto comecei a estudar música. Era muito pequenino, aquilo era muito normal para mim.

O que sentias no palco nessas figurações que fazias? 

Acho que fiz isso dos 7 até aos 13 anos. Estive muitas vezes no palco do São Carlos, eu e mais três miúdos a contracenar com aquilo cheio. Para nós era uma brincadeira. Lembro-me de estarmos mascarados de vampiros numa das óperas. Fui muito habituado ao palco desde sempre, ainda muito antes de ser comediante. 

Quando falas em ser comediante, lembra-me a personagem do bobo na peça do Rei Lear de Shakespeare. O bobo era aquele que dizia a verdade a rir, é uma personagem com uma dimensão trágica e por conhecer a verdade, é infeliz…

Os comediantes, em muitos casos, combatem a sua tristeza fazendo rir os outros. Eu não sou assim. Faço humor em relação ao mundo e à sociedade, e não em relação a mim. Não ando na comédia para degolar traumas. Serve para alguns comediantes. Agora, às vezes olho para o mundo e custa-me. Há muitas situações que mexem comigo, isso sim deprime-me um bocado. Ao mesmo tempo, eu sei que não vou salvar o mundo, por mais que esteja aqui aos berros nas redes sociais ou a fazer um espetáculo de stand up sobre esses assuntos.

"Portugal continua a ser altamente patriarcal e continua a haver muito machismo" Foto: Frederico OM

É preciso alguém para salvar o mundo?

Não vai ser ninguém. Estamos numa altura excelente para nos mobilizarmos e haver um sentido coletivista de sociedade. Temos de perceber que ganhamos muito mais se nos preocuparmos com os que estão ao nosso lado, em vez de andarmos só preocupados com o nosso próprio bem-estar e riqueza.

Tinhas consciência disso quando eras miúdo? 

Não… Mas o meu pai foi um dos músicos da revolução, andava por aí a cantar os seus ideais com o Zeca Afonso... Só que nunca me impingiu nada, só os valores de equidade e justiça. Os meus pais nem a música me obrigaram a tocar. Mas quando és filho de músicos estás ali… É tão natural, ganhas gosto só de ouvir a tua mãe cantar.

O movimento #metoo começou em Hollywood e acabou por se espalhar por outros países, saindo também do meio artístico para outras áreas profissionais. Mas foi um movimento que nunca cresceu em Portugal. Porque achas que isto aconteceu? Será que de certa forma o teu movimento "Não é normal" foi o #metoo português?

O facto do #metoo não acontecer cá tem a ver com o tamanho. O meio artístico em Portugal é muito pequeno. E Portugal continua a ser altamente patriarcal e continua a haver muito machismo, mesmo entre mulheres. Temos um exemplo disso, no que toca a culpabilização das vítimas em caso de violação... Deixa-me só acrescentar que não fui só eu a criar o #metoo português, nem o consideramos assim, fomos 6 pessoas a criar o Movimento "Não É Normal". A grande impulsionadora é a Ana Esteves, que trabalha em psicologia organizacional e recursos humanos. É minha amiga há mais de dez anos, e foi quando fiz o vídeo para o Youtube, O Machismo Não é grave Porque é Normal, que me ligou a dizer que tínhamos de nos sentar e pensar fazer algo sério com o que estava a acontecer. O vídeo que eu tinha feito com propósitos cómicos extravasou tudo o que podíamos imaginar. No meu Instagram aquilo estava gigante. Deixaram-me dezenas relatos sobre situações de assédio e violação. Pensei que estava na altura de agir civicamente. Tenho muito orgulho nisto, e espero que dure muito tempo.


A arte é mais emocionante quando tem um propósito cívico ?

Eu gosto mais, mas não quer dizer que todos os comediantes tenham de estar sempre a tocar nestes tópicos. Os comediantes que acompanho mais são os que fazem isso, especialmente os estrangeiros o Trevor Noah ou o John Oliver, e cá o Ricardo Araújo Pereira no Governo de Sombra

Quando ficaste em casa durante a quarentena, reagiste de imediato com uma rotina de trabalho? Fazias posts com o teu "Minuto sem Covid" com alguma regularidade...

A minha vida mudou como a de toda a gente, mas no meu dia a dia foi só estar mais horas em casa, visto que trabalho muito dali. E honestamente, eu não sou muito trabalhador.

Mas publicas com muita regularidade textos, comentários sobre a atualidade, que alimentam a tua personna pública…

Isso é quando tenho uma ideia ou estou a ler um livro e vejo uma notícia e surge um ponto de vista.

Nunca é muito refletido?

É refletido, mas pode ser um só um par de horas ou dois dias, às vezes é de impulso (risos). Quando escrevo uma crónica tento pensar nas coisas.

Tu atacas diretamente a extrema-direta. Há quem defenda que não devemos mencionar os líderes desses partidos, nem mesmo escrever os nomes deles nos motores de busca da internet para evitar dar-lhes força…

Eu percebo esse dilema. Há amigos que me dizem, "não lhes dês palco". Mas é ilusório acharem que lhes estamos a dar alguma vitória. Não estamos. Todos esses gajos têm maneiras de funcionar idênticas, é igual no Bolsonaro, Trump, Putin, Erdogan... Não são os que falam contra eles, que lhes estão a dar palco. As pessoas que são pró-Ventura ou Bolsonaro, são malucas por eles. Parecem seitas. E acho, que nós devemos fazer o contra ponto. Não compro essa ideia que se deixarmos de falar deles, eles vão desaparecer. Simplesmente não vão. Quem é racista ou homofóbico está sempre na rua ou nas redes sociais a gritar "isto não é normal"…Acho que chegámos a um ponto em que para eles não gritarem sozinhos, o nosso lado tem de falar também, e falar mais alto que eles. Tu olhas para as redes sociais e há outra vez muita homofobia e muito racismo. As pessoas se calhar já eram assim, mas agora estão a lixar-se. Sentem-se legitimados por ver na televisão um gajo a ser racista, que é líder parlamentar ou presidente do Estados Unidos.

Viajas muito sozinho. Quando estás em viagem, no estrangeiro, como explicas às pessoas o que fazes na vida?

Há uns anos não dizia que era comediante, continuava a dizer que era publicitário. Parecia-me estranho dizer que era comediante, agora digo na boa.

As pessoas ficam intrigadas?

Perguntam-me se faço stand up, digo também que escrevo. Mas quando estou a viajar tento que a conversa não se torne logo sobre mim e o meu trabalho.

O que é um bom sonho para ti?

Profissional ou pessoal?

Diz-nos tu…

Não tenho grandes sonhos e ambições. Já percebi que sou um privilegiado com a vida que tenho, e agora não estou a falar do facto de ser um homem branco (risos). Estou a falar de conseguir ter esta vida de comediante. Tenho a sorte de, sem trabalhar muitas horas por dia, me sobrar dinheiro para pagar as contas e viajar. Não quero ser rico, portanto não ambiciono nada…Não quero comprar carros, etc...E trabalhar muito está incutido no espírito do neoliberalismo, de termos de ser todos muito trabalhadores e ganhar imenso dinheiro. Não quero. Quero ler e ver documentários, e ir para a esplanada falar com os meus amigos.

Fotografia: Frederico OM 

Maquilhagem: Miguel Stapleton

Saiba mais Diogo Faro, Lugar Estranho, LGBTQ+, Sensivelmente Idiota, Bolsonaro, questões sociais, política
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