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Vacinação das crianças. Sim ou não? Especialistas e pais respondem

A decisão de vacinar a faixa etária entre os 5 e os 11 anos resulta da recomendação da Direção Geral da Saúde depois de ouvida a Comissão Técnica de Vacinação. Mas nem todos estão de acordo.

Foto: Getty Images
16 de dezembro de 2021 Rita Silva Avelar

Uma mãe, anónima, partilhava há poucos dias no Instagram um episódio que descrevia a discriminação que sentiu por ter sido impedida de entrar num balneário de natação, para ajudar o filho pequeno a vestir-se, por ter optado por não ser vacinada. Choveram comentários polarizados: uns diziam que era da responsabilidade da mãe vacinar-se e assumir as consequências, outros diziam que era errado limitar-se alguém a este ato, uma vez que a vacinação contra a covid-19 não é obrigatória, apenas recomendada, e que as máscaras FFP2 serviam para estes casos. Estamos prestes a ver acontecer o mesmo, com as crianças, cuja vacinação já pode ser agendada e até já começou na Madeira. Entretanto, há já alguns pais, páginas em redes sociais e associações a manifestar a preocupação que os filhos sejam excluídos de atividades escolares, e extracurriculares, caso os encarregados de educação optem por não os vacinar. Ao todo, há 660 mil crianças elegíveis para a vacinação.

A decisão de vacinar a faixa etária entre os 5 e os 11 anos resulta da recomendação da Direção Geral da Saúde (DGS), depois de ouvida a Comissão Técnica de Vacinação e ponderadas as questões de natureza logística com o núcleo de coordenação de apoio ao Ministério da Saúde (nomeadamente a disponibilidade de vacinas da Pfizer na versão pediátrica). Os pediatras hesitam e dividem-se nas opiniões: é, afinal, um tema delicado. Para Jorge Amil Dias, pediatra e presidente do Colégio da Especialidade de Pediatria,vacinação de crianças entre os 5 e os 11 anos é "desproporcionada" e "desnecessária"não aconteceria em "nenhuma outra doença" com "um terço da população já protegida", disse, em declarações à LUSA. Também o pediatra e intensivista Francisco Abecasis, do Hospital de Santa Maria, teme que as crianças entre os cinco e os 11 anos sejam vítimas da discriminação que, alega, os adolescentes não vacinados têm sido alvo. Numa entrevista ao Diário de Notícias, Maria do Céu Machado, pediatra e ex-presidente do Infarmed, defende a vacinação das crianças dos 5 aos 11 anos, porque, justifica, "a doença também as afetou". 

Também Ana Sanches e Diogo Onofre, responsáveis pela página Dido & Co sobre gravidez, parto e parentalidade, foram cuidadosos a abordar o tema, expressando-se através de um post no Instagram. "Eu acredito que não houvesse uma outra altura para partilhar esta informação porque ainda faltam muitos dados e há pouca informação sobre o efeito não só da covid-19 nas crianças e efeitos da vacina" afirma, mas "a verdade é que a forma como o processo foi conduzido em Portugal deu azo a que todos pensássemos que a decisão política foi tomada antes da decisão técnica e de saúde, porque na verdade as vacinas para as crianças já estavam compradas quando a DGS ainda não tinha um parecer técnico do seu lado."

Quanto à Comissão Técnica de Vacinação, diz que "a verdade é que este parecer técnico é bastante contraditório, basta lê-lo para perceber que na verdade os especialistas estão a indicar que é prudente esperar, que existe a possibilidade de termos algumas consequências relacionadas com as pericardites e miocardites que têm que ser consideradas, e por isso, o próprio parecer parece indicar que a decisão da toma universal é precipitada." Refere-se a estudos como o Riscos de miocardite, pericardite e arritmias cardíacas associadas à vacinação COVID-19 ou infeção por SRA-CoV-2, publicado no jornal médico Nature Medicine. "E se assim é, então não percebemos todos muito bem porque é que nos está a ser levado a pensar que nesta fase deveríamos vacinar as nossas crianças nessa faixa etária. Obviamente que se a criança tiver um risco acrescido, sabemos qual será a escolha correta."

Carlota, mãe de Benedita, que tem 1 ano e meio e ainda não está elegível para vacinação, concorda que a vacinação seja feita. "Quando a Benedita nasceu só queria que ela tomasse as vacinas - são muitas as que os bebés tomam no primeiro ano. Não sei exatamente o que contêm, mas quero proteger o bebé, acho que é a minha responsabilidade como mãe. Confio na Medicina. Tenho a certeza de que se representasse um perigo grave para a saúde não era administrada a toda a gente" afirma. 

Sobre os riscos, "há riscos em tudo na vida, qualquer decisão tem consequências. Eu prefiro acreditar no que os pediatras recomendam mesmo". Quando a Benedita for elegível, Carlota irá vaciná-la. "Por exemplo, o que é que as pessoas sabem sobre os riscos da vacina da poliomielite? Nada, mas tomam. Agora de repente há toda uma paranóia que eu acho que é alimentada pelas redes sociais em que toda a gente tem uma opinião. Mas isto é um assunto médico."

Ana Sanches continua a reflexão, afirmando que pode existir, aqui, o fator precipitação. "Sabendo nós que este não é um grupo particularmente afetado pela doença, que a vacina nos está a imunizar perante uma estirpe que não está tão ativa como as seguintes, leva-nos a pensar se não estamos a ser precipitados." É uma dúvida legítima dos pais, entende. "Aquilo que sinto é que a DGS tem muito pouca abertura para fazer este diálogo, pouca abertura para explicar e talvez tenha muito pouca noção da realidade." E continua: "A maioria dos pais será obrigado a tomar uma decisão por não querer sujeitar os filhos à discriminação e ao tratamento diferenciado que neste momento já está a acontecer nas escolas e nas atividades desportivas."

Isto porque, acredita Ana, "todos os temas que são éticos, e que mexem com as nossas liberdades versus a liberdade dos outros, têm sempre este risco de polarização". Na sua página, tenta partilhar informações isentas, sempre com alguma subjetividade. "Não havendo obrigatoriedade na vacinação, também não deveria existir limitação das liberdades das pessoas por essa vida. Isto vale para adultos mas é ainda mais importante para as crianças, que se vêm limitadas naquilo que podem fazer."

Patrícia Gouveia, mãe de gémeos com 3 anos, concorda com a vacinação infantil "na medida em que devemos confiar em quem sempre cuidou de nós. Morrem milhares de crianças no mundo todos os dias por falta de vacinas e andamos nesta discórdia. Eu tento olhar para o lado positivo, estamos a viver uma pandemia, algo desconhecido para a maioria, se não confiarmos em quem percebe mais disto do que nós, vamos confiar no quê e em quem?" pergunta-se. "Os meus filhos ainda não estão em idade de serem vacinados, mas se chegar a altura deles, farei o que faço sempre, falo com quem percebe mais disto do que eu, confio muito na pediatra deles e em toda a equipa médica que sempre nos acompanhou", afirma.

Por fim, Ana Sanches alerta anda para as consequências a curto, médio e longo prazo, na saúde mental de todos, independentemente da decisão. "Se esta exclusão está a acontecer, corremos o risco de termos muitas crianças a sentir-se postas de parte, vítimas de bullying, tratadas pelos profissionais que as acompanham de forma diferenciada, e isso é tão triste quanto perigoso, se vamos caminhar por aí. Penso como serão estas crianças os adultos do futuro. Vai-se exigir que qualquer decisão tomada em massa seja obrigatória? Caminhamos para uma condição em que já não importa a liberdade individual?" Questiona-se. "São estes princípios éticos e morais que estou a canalizar para a minha reflexão, porque não é só sobre tomar uma vacina ou não tomar. A DGS e o Governo têm um papel fundamental na responsabilização deste assunto. Porque nós, pais, estamos a tentar tomar a melhor decisão com base na informação mais atual que temos."

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