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“O cenário de crime é sempre um cenário de desconhecido”

Se uns viram as suas vidas estagnadas com a chegada de um vírus que se tornou uma preocupação global, outros chegaram-se à frente com a nobre missão de cuidar. Uma enfermeira, uma piloto, uma chef e uma comissária da PSP contam-nos as suas histórias da pandemia.

Maria do Céu Viola, Comissária da PSP de Setúbal
Maria do Céu Viola, Comissária da PSP de Setúbal Foto: Mariline Alves
27 de julho de 2020 | Rosário Mello e Castro

A investigação criminal não é para todos os estômagos, mas Maria do Céu, 43 anos, soube desde cedo que era para o seu. Tinha uma curiosidade especial pela procura do suspeito, daquelas que é difícil de satisfazer apenas com uma boa série policial. "Não tinha ninguém na família nesta área, mas interessava-me por tudo o que tinha a ver com o crime e quis concorrer à Polícia," conta com determinação. Em 1998, entrou no curso de formação de agentes na Escola Prática da Polícia, em Torres Novas, e em 2003 concorreu ao Instituto Superior de Ciências Policiais e de Segurança Interna, em Lisboa, onde se licenciou. Quando acabou o curso, em 2008, foi a primeira mulher a comandar a esquadra do Montijo. Passou pelo comando de Beja, depois pela esquadra de investigação de criminal da mesma cidade e seguiu para o comando distrital de Faro, onde chefiou o núcleo de investigação criminal. Há cinco anos que está no comando Setúbal e lidera o núcleo de investigação discriminal do distrito: comanda diretamente 40 pessoas e coordena 200 só na área da investigação criminal. "A exigência é uma constante do meu trabalho, nunca sabemos o que vai acontecer", diz.

 

De riso honesto e sempre com o sentido de missão em cada resposta, Maria do Céu explica que a pandemia mudou muita coisa na sua vida, foi preciso ganhar consciência de que "o mundo estava diferente" e ultrapassar a ansiedade. "O cenário de crime é sempre um cenário de desconhecido. As minhas primeiras preocupações foram a segurança dos polícias, o que na área criminal implica ter os meios necessários, e ao mesmo tempo continuar a prestar um bom serviço ao cidadão."

 

Maria do Céu Viola comanda diretamente 40 pessoas e coordena 200 só na área da investigação criminal de Setúbal
Maria do Céu Viola comanda diretamente 40 pessoas e coordena 200 só na área da investigação criminal de Setúbal Foto: Mariline Alves

Tal pressupõe, por exemplo, antecipar os crimes mais prováveis num cenário de pandemia. "Com o estado de emergência algumas tipologias criminais podem agravar-se ou encontrar novas formas de concretização, nós pensamos em todos os cenários, a nossa gestão tem de prever isso", explica. Naturalmente, a violência doméstica mereceu uma maior atenção na análise e também respostas mais rápidas. "O facto de as famílias estarem em confinamento poderia fazer com que este crime se tornasse menos perceptível. Não queríamos que as vítimas sentissem que a quarentena significaria isolamento", explica. "Nós somos muitas vezes psicólogos das pessoas, há uma série de fatores que são analisados antes de entrarmos em ação. Tudo isso é estudado e não é perceptível. Com uma vítima de violência domestica, é preciso estar muito atento para ver os sinais e perceber se existe pressão para que não se diga a verdade." Só o ato de fazer a denúncia pressupõe muita coragem.

 

Sobre a forma como lida com situações limite, Maria do Céu Viola explica que trabalhar em investigação criminal inevitavelmente mexe consigo. "Seja o crime de violência doméstica ou quando um pai mata um filho, ou uma mão mata um filho, isso afeta-nos, mas com o tempo, criamos mecanismos para ultrapassar essas situações." A pandemia foi, por isso, mais um desses desafios. "Com a agravante de estar sempre preocupada com os riscos que os profissionais correm porque estamos na linha da frente." E porque também a sua vida tinha mudado. "Estive meses sem visitar a minha família porque não queria que o risco que eu corro afetasse os meus pais, a minha avó, a minha sobrinha."

 

Sem filhos por opção, escolheu dedicar-se à vida profissional que sempre quis ter. E conta com o apoio fundamental do marido, "que também veste a farda, é oficial da PSP, por isso tudo o que a profissão nos força a passar, nós conseguimos compreender e ajudar-nos mutuamente." É um trabalho duro, admite. "Mas adoro o que faço e nunca me passou pela cabeça ficar em casa, quem está na linha da frente quer estar cá para fazer o melhor: a missão falou sempre mais alto."  

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