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27 anos depois, Allegra Gucci quebra silêncio sobre o assassínio do pai (pela mãe)

Quase três décadas após so assassinato de Maurizio Gucci, ordenado pela mulher, Patrizia Reggiani, Allegra revela o que aconteceu entre os pais.

Foto: D.R
10 de março de 2022 Ana Filipa Damião

Há 27 anos, a vida de Allegra Gucci, filha de Maurizio Gucci e Patrizia Reggiani, dava uma volta de 180 graus. Num piscar de olhos, Allegra perdeu o pai e foi arrastada para o olho de um furacão que chegou a proporções que ninguém esperava. Quase três décadas depois da tragédia, ocorrida a 27 de março de 1995, a filha do herdeiro da Gucci quebra o silêncio sobre o que realmente aconteceu, e que descreve no seu livro Fine dei Giochi.

Numa entrevista exclusiva à revista Vanity Fair, conta como soube da morte do pai, baleado quatro vezes quando se encontrava em Milão. "Estava no meu quarto, não tinha dormido bem nessa noite. A minha mãe entrou na sala e disse-me à pressa que o meu pai estava morto. Eu, com 14 anos, agachei-me no chão e olhei pela janela com vista para a Piazza San Babila." Foi como se a sua própria vida tivesse parado no tempo, disse. Apenas uma adolescente, Allegra só se deu conta de que se tratava de um crime algum tempo depois, quando viu as notícias na televisão.

Quando questionada pelo motivo de publicar o livro apenas agora, a italiana de 41 anos diz que foi pelos filhos. "Ao ver todo o alarido com o filme House of Gucci, não queria que eles crescessem sem saberem a verdade sobre a família de onde vêm. Encontrar todos os fragmentos desta história em adulta fez-me compreender ainda melhor como as coisas aconteceram. E vê-las assim, preto no branco, deu-me uma serenidade muito inesperada."

Ao longo da entrevista, Allegra toca em diversos temas sensíveis. Fala de Paola Franchi, na altura companheira do pai (desde 1993), Giuseppina Auriemma, confidente da mãe, Silvana Barbieri Reggiani, sua avó, e, claro, fala da sua custódia e a da difícil relação que ela e a irmã, Alessandra, têm com Patrizia. Revela ainda a falta de veracidade de diversas cenas em House of Gucci.

Como foi relatado em vários meios de comunicação, o divórcio dos pais não foi causado por Franchi. Na realidade, o casal terá se separado pelo menos sete anos antes da relação de Maurizio com a mesma (Maurizio divorciou-se de Patrizia em 1992 na Suiça e em 1994 em Itália). Contudo, segundo Allegra, a nova companheira do pai não era sua amiga. "Quando a minha mãe foi condenada em 1998, Franchi foi ao tribunal juvenil e fez saber que o meu património e eu tínhamos sido deixados ‘na mão’ e que ela se oferecia para me proteger a mim e aos meus interesses. Paola Franchi não nos deu descanso. Não compreendo como se pode atacar uma menina tão jovem dessa maneira", disse, referindo-se ao modo como as ações de Franchi não iam de encontro às suas palavras.

Patrizia Reggiani em Nova Iorque, 16 de novembro de 2021
Patrizia Reggiani em Nova Iorque, 16 de novembro de 2021 Foto: Getty Images

Na entrevista, refere também a avó, que ficou com a sua custódia. "Cedo percebi que Silvana só estava interessada no dinheiro e no poder", explicou. "Quando verificámos os livros de contabilidade, percebemos que estava a esconder parte dos fundos que nos eram destinados, transferindo-os para as suas contas."

Em Fine dei Giochi, Allegra descreve a mãe como o oposto de uma traça, algo que é atraído pela escuridão, referindo-se à amizade que esta tinha com Canò fora da prisão. "Em criança, a sua forma de amar era suficiente para mim. Não foi fácil criar duas filhas sozinha e estou-lhe grata por isso. Mas a situação começou realmente a mudar em 1992", quando lhe foi diagnosticado um tumor cerebral maligno, que posteriormente se revelou benigno. Do cérebro de Patrizia foi retirada uma massa do tamanho de uma tangerina, uma parte considerável do lobo frontal. "Ela nunca mais foi a mesma depois disso."

Contudo, e mesmo com a mudança de personalidade da mãe, Allegra e Alessandra nunca pararam de a visitar na prisão ao longo de 17 anos. "Todas as semanas trazíamos-lhe roupa, lençóis e comida, porque ela só queria comer os pratos cozinhados pela sua mãe, bem como outras iguarias da Peck [loja gourmet em Milão]. Foram anos de muitos sacrifícios, de dor profunda. A minha irmã e eu lutámos todos estes anos porque sempre acreditámos na inocência da nossa mãe. Mas descobrimos pela televisão mais tarde pelas suas meias frases que este não era o caso."

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