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100 homens a usar sapatos de salto alto pelos direitos das mulheres
Nos 30 anos da Máxima, relembramos o desafio à altura de uma causa difícil, ainda longe de estar ganha. Por ela, 100 homens aceitaram calçar sapatos de salto alto e dar um passo pelos direitos das mulheres. Venceram o preconceito e, num gesto de coragem, colocaram-se no lugar delas por instantes. Relembramos o projeto que faz hoje 5 anos.
Conseguir que 100 homens vencessem o preconceito e subissem a sapatos de salto para manifestar a sua solidariedade com as mulheres parecia uma tarefa impossível. Ou quase. Prevíamos discursos politicamente corretos e desculpas esfarrapadas, mas pouco seriam aqueles que se atreviam a arriscar, a descalçar os sapatos de "homem" e ousar uns stilettos pretos, encarnados ou dourados, no local de trabalho ou num estúdio fotográfico. Afinal, que pensaria o chefe, o eleitor, o público e a mãe (estávamos certos de que nenhum deixaria de temer a opinião da mãe).
Mas a ideia era tão boa, estávamos tão, tão seguras do significado do gesto, e do impacto final desta campanha que a Máxima iria construir em defesa do direito das mulheres, ainda por cima em associação com a Laço, promovendo a investigação contra o cancro, que decidimos que íamos dar tudo por tudo. Mês a mês, durante um ano inteirinho.
E a ideia era boa porque colocamo-nos no lugar do outro, ou usando a expressão inglesa "calçando os sapatos do outro", equivale a abandonarmos por momentos o nosso posto, pensando e sentindo como o outro, aceitando ver a realidade pelos seus olhos. Exercitamos nem mais nem menos do que a empatia, essa supercola das relações humanas.
Arriscámos, portanto, não podíamos fazer outra coisa. E na edição de março de 2014 publicámos as fotografias dos nossos dez primeiros heróis, os primeiros a desbravar caminho. Gente corajosa, que deu direito a sessões fotográficas cheias de queixumes divertidos, porque os saltos eram altos demais, ou se sentiam as irmãs da Cinderela a enfiar um sapato que não lhes cabia, de risos e gargalhadas, porque sério não se confunde com sisudo. Momentos também de conversa grave, já que cada um deles quis tornar esta experiência uma declaração de guerra a questões tão díspares mas tão chocantes como a violência doméstica, as desigualdades no mercado de trabalho, o peso da contraceção colocado apenas sobre os ombros das mulheres, ou o escândalo da mutilação genital feminina, problemas que as mulheres portuguesas e as de todo o mundo ainda sofrem.
Com as fotografias extraordinárias destes pioneiros, verdadeiras obras de arte, e o objetivo da campanha mais claro, tornou-se fácil sensibilizar os noventa seguintes, que foram aderindo com progressivo entusiasmo. Deputados, médicos, cientistas, atores, músicos, desportistas, chefes de cozinha, jornalistas, escritores e tantos outros estiveram à altura do desafio, içando a sua bandeira em defesa dos direitos das mulheres ainda espezinhados. Todos estiveram à altura do desafio.
Os sapatos, criados por Luís Onofre, foram o ponto em comum de todos estes encontros. Alargados para um jogador de râguebi ou para uma equipa de basquetebol, encolhidos para pés mais pequenos, mantiveram a forma e a beleza, símbolos deste nosso esforço para acordar o País para uma realidade que tantas vezes passa desapercebida.
Por Isabel Stiwell
100 Homens sem Preconceitos – Um Passo pela Igualdade
Uma ideia original de Sofia Lucas | com Isabel Stilwell.
Fotografia Branislav Šimoncík com direção criativa de Jan Králícek.
O livro 100 Homens sem Preconceitos – Um Passo pela Igualdade acompanhou uma exposição de fotografia exibida no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, em março de 2015. Contou com a direção criativa de José Santana com Sandra Costa.
Foto: Branislav Šimončík1 de 36 /Manuel Alves, criador | "A violência contra as mulheres revolta-me. Só leis fortes e educação mudarão alguma coisa. Mas vai levar tempo"
Foto: Branislav Šimončík2 de 36 /Rui Pregal da Cunha, músico | "São as mulheres que mandam no mundo, mas ninguém lhes dá crédito por isso"
Foto: Branislav Šimončík3 de 36 /Ricardo Pereira, ator | "A igualdade de género nada mais é do que uma forma de equilíbrio da sociedade e quero uma sociedade igualmente justa tanto para o meu filho como para a minha filha"
Foto: Branislav Šimončík4 de 36 /Julião Sarmento, artista plástico | "Homens e mulheres são forçados a ser outros, às vezes por boas razões, outras por más, mas seguramente sempre pelas razões erradas"
Foto: Branislav Šimončík5 de 36 /Tiago Monteiro, piloto | "Não faz sentido que, dentro da mesma empresa, um homem e uma mulher com as mesmas responsabilidades tenham ordenados diferentes. Tal como não faz sentido que só a mulher tenha direito a ser a 'dona de casa'"
Foto: Branislav Šimončík6 de 36 /Vicente Alves do Ó, realizador | "É preciso deixar de estigmatizar as mulheres que optam por não ter filhos. Chega de chantagem emocional"
Foto: Branislav Šimončík7 de 36 /Simão Morgado, nadador | "O que aconteceu na Nigéria é o mais bárbaro terrorismo. Temos de abrir os olhos"
Foto: Branislav Šimončík8 de 36 /Pedro Gonçalves e Tó Trips, músicos | "O silêncio e o medo são os grandes inimigos das mulheres de quem não ouvimos queixas." "Quando ocupam um lugar de topo, há sempre quem levante dúvidas sobre como o obtiveram"
Foto: Branislav Šimončík9 de 36 /Paulo Pires, ator | "Como é possível que as mulheres sejam apedrejadas? Mulheres sem liberdade de escolha, tratadas pior do que se trata um animal"
Foto: Branislav Šimončík10 de 36 /Manuel Luís Goucha, apresentador | "Sensibilizam-me todos os casos de mulheres que conseguem sair de uma espiral de violência gratuita e machista, infligida abusivamente em nome do amor. O amor constrói, não mata"
Foto: Branislav Šimončík11 de 36 /Jorge Corrula, ator | "Gostava de saber como seria Portugal conduzido por mulheres. O fado mantinha-se, mas seria sem dúvida um país melhor"
Foto: Branislav Šimončík12 de 36 /Ricardo Carriço, ator | "Não faz sentido que o facto de poder ser mãe prejudique a mulher no mundo do trabalho. É transformar uma das suas maiores forças numa fragilidade"
Foto: Branislav Šimončík13 de 36 /Kalaf Ângelo, músico | "Muitas das mulheres que conheço são verdadeiras heroínas. Calço estes sapatos por elas, para que recebam o devido reconhecimento"
Foto: Branislav Šimončík14 de 36 /Pedro Lima, ator | "Porque chegam a milhões de pessoas, as novelas são uma forma poderosa de mudar mentalidades"
Foto: Branislav Šimončík15 de 36 /Kevin e Jonathan Sampaio, modelos | "Nenhuma religião justifica a desigualdade de direitos entre homens e mulheres. É insuportável a mania que os homens têm de que são o elo mais forte"
Foto: Branislav Šimončík16 de 36 /José Rosa, cirurgião plástico | "Sabe o que me deixa feliz? Quando a mulher, passados uns anos, vem ter comigo e diz: 'Não gosto desta cicatriz.' Porque quer dizer que já confia, já se permite ser exigente"
Foto: Branislav Šimončík17 de 36 /Ljubomir Stanisic, chef | "Admiro as mulheres que se libertam de uma situação de violência doméstica"
Foto: Branislav Šimončík18 de 36 /José Avillez, chef | "A exigência do horário leva muitas mães a desistirem da cozinha. Por que não ficam os pais com os filhos?"
Foto: Branislav Šimončík19 de 36 /José Wallenstein, ator | "Içava uma bandeira pelo direito à dignidade da pessoa. Detesto viver num país onde dois milhões e meio de pessoas vivem abaixo do limiar da pobreza"
Foto: Branislav Šimončík20 de 36 /José Fidalgo, ator | "Os sapatos de salto alto dão um enorme poder à mulher: são como uma pistola, uma arma, uma patente"
Foto: Branislav Šimončík21 de 36 /Diogo Infante, ator | "É sempre mau sinal quando há necessidade de se falar em igualdade de géneros e de direiros da mulher. A suposta fragilidade feminina não passa de um argumento cobarde para lhes retirarmos o acesso ao poder, político e económico"
Foto: Branislav Šimončík22 de 36 /João Reis, ator | "O desinvestimento na educação e na cultura deixa-nos mais à mercê das desigualdades e da estupidez e, neste contexto, sabemos bem que as mulheres continuarão a ser as mais prejudicadas e violentadas"
Foto: Branislav Šimončík23 de 36 /Ricardo Serrão Santos, eurodeputado | "Não vejo razão alguma para recusar calçar estes sapatos. O político também deve estar na margem de comunicação, na provocação da mensagem"
Foto: Branislav Šimončík24 de 36 /João Tordo, escritor | "Têm de ser altas, magras, louras, bonitas, bem vestidas. Esta 'obrigação' de corresponder aos padrões que os outros estabeleceram é uma tirania"
Foto: Branislav Šimončík25 de 36 /João Miguel Tavares, jornalista | "Quando olho para a forma como as mulheres são tratadas em muitos países muçulmanos, custa-me que a esponja multiculturalista tenha uma excessiva tolerância em relação a práticas atentatórias dos direitos da pessoa humana"
Foto: Branislav Šimončík26 de 36 /João Manzarra, apresentador | "Há países onde uma mulher é apredejada por ter uma página no Facebook"
Foto: Branislav Šimončík27 de 36 /Nelson Évora, atleta | "Em comparação com outros países europeus, penso que Portugal ainda está um pouco atrasado no reconhecimento dos direitos das mulheres, principalmente a nível profissional"
Foto: Branislav Šimončík28 de 36 /Carlos Ribeiro, Leopoldo Petreanu, Gonzalo Polavieja, Rui Costa e Michael Orger, neurocientistas | "As leis dizem uma coisa, mas as expectativas outra." "Não se pode falar de direitos violados em países onde as mulheres ainda nem sequer têm direitos." "Na escola, as raparigas são as mais submissas, e esse comportamento é premiado, reforçando-o." "As mulheres ainda são menos ouvidas do que os homens, quando se trata de grandes decisões." "O mundo ocidental fez progressos, mas suspeito que estamos muito mais longe do ideal do que imaginamos"
Foto: Branislav Šimončík29 de 36 /Alfonso Renart, Zachary Mainen, Joe Paton e Christian Machens, neurocientistas | "Choca-me a forma como nalgumas partes do mundo se tratam as mulheres, mas sei que as mudanças terão de ser feitas a partir de dentro." "A liberdade cognitiva é o paralelo interior da liberdade física. Quando não a têm, as mulheres assumem papéis que as limitam." "Quantas mulheres não interiorizaram a ideia de que a matemática não é para elas?." "Na Alemanha, as mães escolhem interromper a carreira para ficar com os filhos. Só que 'escolher' se calhar não é a palavra certa"
Foto: Branislav Šimončík30 de 36 /Afonso Cruz, escritor | "Aceitei calçar estes sapatos porque, no que respeita aos direitos, sou tão mulher quanto qualquer mulher. Uma sociedade só vinga se os direitos de alguns forem defendidos por todos"
Foto: Branislav Šimončík31 de 36 /António Zambujo, músico | "A grande solução para a humanidade será os homens perderem este preconceito sem sentido e entregarem o poder às mulheres. Porque elas são, de forma comprovada, muito melhores gestoras do que nós"
Foto: Branislav Šimončík32 de 36 /Fernando Alvim, apresentador | "Não me deixo de pasmar que, por dia, 55 mulheres sejam alvo de violência doméstica. Sinto vergonha por cada uma das pessoas que o faz. Isso não é de homem"
Foto: Branislav Šimončík33 de 36 /David Fonseca, músico | "É perturbante perceber que o mundo que vive à velocidade da Internet é o mesmo que aceita a violência contra as mulheres"
Foto: Branislav Šimončík34 de 36 /Pedro Martin, modelo | "Acabei de ser pai e, se há coisa de que me apercebi, porque sou um pai presente e estou em casa com a minha companheira, é que ser mãe é uma profissão a tempo inteiro, que é muito dura e exigente. Por isso, aceitei este convite para posar com o meu filho, como forma de representar essa igualdade de direitos"
Foto: Branislav Šimončík35 de 36 /Sérgio Dias, cientista | "Nos laboratórios elas estão em clara maioria, mas se formos ver quantas são diretoras de unidade ou de institutos por essa Europa fora, verificaremos que não representam mais de 10 por cento. E com salários diferentes. É um disparate que me preocupa"
Foto: Pedro Bettencourt36 de 36 /Frederick Gentry, Tomás Barroso e Carlos Andrade, jogadores da equipa de basquetebol do Sport Lisboa e Benfica | "Se este trabalho for feito desde pequeno talvez o mundo venha a ser diferente - afinal, quando nasce uma criança não tem ódios nem ideias feitas." "Tenho a certeza de que o meu enorme respeito pelas mulheres, e a consciência de que ainda são vítimas de tantas injustiças, se deve à minha mãe, uma supermulher. Posso dizer que também foi por ela que calcei estes sapatos." "Quero acreditar que com mais instrução, mais educação, estes comportamentos inadmissíveis acabem"