Quando o mundo azeda, há sempre um fósforo. A luz de Patti Smith na arte e na vida
No dia em que a autobiografia "Just Kids" celebra 15 anos, publicamos a carta de Madalena Sá Fernandes à artista que lhe abriu caminho para as palavras e lhe ensinou a rectificar a gramática do mundo.
Madalena Sá Fernandes escreve carta a Patti Smith, ícone inspirador
Foto: Getty Images19 de janeiro de 2026 às 09:00 Madalena Sá Fernandes
Quero dizer, Patti: foi por tua causa que aprendi a entrar num museu como quem entra numa canção, e a abrir um livro como quem liga um amplificador. Aprendi contigo que o punk, no início, é educação sentimental, uma disciplina em que Rimbaud passa com 20, Blake dá aulas de desenho e Mapplethorpe arruma a luz. Aprendi que às vezes a coragem é uma menina que sobe ao púlpito de um bar com um poema no bolso e diz as oito palavras que salvam a noite. Aprendi que se pode amar um santo e ainda assim discutir com ele, que se pode rezar numa discoteca e dançar numa igreja, que se pode escrever a lápis e ficar para sempre.
O mundo continua a cair das suas próprias alturas, mas tu ergues a cabeça, ajeitas a camisa, dizes one, two, three, four e fazes sinal para avançarmos. Quando o Sol se põe no Atlântico e as notícias não cabem no peito, ainda te ouvimos: "We shall live again." E enquanto houver cafés frios, mesas vazias, paredes onde encostar a testa, livros de bolso, polaróides a revelar-se lentamente, enquanto houver palavras, teremos a tua voz a abrir caminho. People Have the Power. E tu lembraste-nos disso, uma e outra vez, até que acreditámos.
PUB
Há quem te chame a madrinha do punk, mas eu penso primeiro no retrato de camisa branca e casaco ao ombro, o cabelo como um pequeno vendaval, Mapplethorpe fixa-te e Horses acaba de nascer. Penso na abertura que é um sacramento ao contrário, oito palavras que passam a ferro o medo: "Jesus died for somebody's sins but not mine." E é como se a St. Mark's Church ainda ecoasse o teu primeiro set de poesia com Lenny Kaye a costurar electricidade por baixo, a Bowery a ranger, CBGB a abrir-se como um porão onde se guardam os santos e os amplificadores.
Madalena Sá Fernandes escreve uma carta a Patti Smith, um ícone que lhe abriu caminho
Foto: Getty Images
Patti, de botas gastas e mapas desenhados à mão. Vens de Chicago, cresces em New Jersey, atravessas o Hudson com um caderno e um salário curto, Piss Factory numa mão e Seventh Heaven, With, Babel na outra. Há um hotel com anjos desalinhados no tecto, o Chelsea, onde prometes ao Robert que serás artista e que ele também será. E cumpres. Em Birdland, o rapaz sobe para dentro de uma nave que é só dor transformada em voo; em Gloria, rompes a liturgia e celebras a tua; em Land, a dança tem mil danças dentro; em Redondo Beach, a praia é uma carta que ninguém quer receber; em Free Money, já se ouve uma aurora de guitarras.
Crucifixos e graffiti, o sagrado e o sujo a partilhar o mesmo copo. A tua mão aperta a de Springsteen e Because the Night acende postes de luz em cidades que nem sabiam que tinham noite. Ghost Dance convoca uma roda: "We shall live again", e acreditamos porque a tua voz é uma fogueira que sabe esperar. Em Wave, entre Dancing Barefoot e Frederick, há uma oração que não precisa de templo: basta um acorde e alguém a quem chamar pelo nome.
PUB
A vida chama-te num sotaque de Detroit: Fred "Sonic" Smith, dois filhos, um afastamento sem drama do palco para cultivar a mesa de família. Dream of Life encosta-se ao coração com The Fackson Song e uma inscrição na casa comum: "People Have the Power." Escreve-se nos muros, nos cartazes, nos cadernos que tratas como relíquias. E quando o mundo decide testar a tua ossatura: Fred parte, o teu irmão parte, tu voltas com Gone Again, e há canções que são luto e bênção: About a Boy acende uma vela por Cobain; Beneath the Southern Cross mostra-te a ler o céu como quem aprende outra vez o alfabeto.
Segues, insistente. Trampin' põe os pés no barro e a voz no vento de Bagdade, a procurar os vasos partidos do museu da memória. Twelve visita os outros como se fossem teus, porque são. Banga abre uma porta romana: Pilatos tem um cão, Bulgakov sorri na sombra, This Is the Girl envia flores para Amy, e Constantine's Dream caminha até Arezzo para ler Piero della Francesca no fresco, deitando o corpo no chão da arte para ouvir o sangue antigo da madeira.
Patti Smith, ícone da cultura, inspira com palavras e redefine a gramática do mundo
Foto: Getty Images
Na minha estante, os teus livros são talismãs: Just Kids foIheia o pacto com Robert; M Train bebe café preto e atravessa continentes com cadernos, canecas e polaróides; Year of the Monkey transforma um ano torto num mapa onírico com estradas secundárias e fantasmas gentis; Devotion (Why I Write) abre o motor da escrita e mostra o óleo nas mãos; Woolgathering regressa ao casulo onde se aprende a ver; The Coral Sea é o teu requiem de mar alto para o amigo que partiu. E um dia as tuas polaróides saem do bolso e viram constelação diária: A Book of Days, um calendário íntimo de velas, lápides, canecas, janelas; os teus objectos falam baixinho e, ainda assim, fazem-se ouvir. Há noites em que te pedem um milagre e tu entregas um gesto de humanidade. Em Estocolmo, na celebração comovida de um outro Dylan. a letra dá-te uma rasteira, paras, respiras, pedes desculpa. O mundo inteiro percebe: a canção é maior do que qualquer falha, e o nervo que te treme é o mesmo que nos protege. Foi uma aula de graça.
PUB
Noutra frente, pegas na mão da tua filha e escreves com a cidade: Pathway to Paris, o clima como assunto de família; os poetas: Blake, Rimbaud, Genet, Ginsberg, sentados ao fundo, a acenar com as suas páginas como quem abana lenços numa gare.
Também te ouvi nas trilogias-fantasma com o Soundwalk Collective: The Peyote Dance, Mummer Love, Peradam, e senti Artaud e Rimbaud atravessarem o deserto para nos deixarem um caderno com areia entre as páginas. És peregrina de bibliotecas e cemitérios: Charleville, Montpar-nasse, Père-Lachaise, uma pedra lisa com um nome que te sustenta o dia. Tiraste fotografias aos pequenos deuses: um garfo de Rimbaud, uma chávena lascada, um casaco de la, um bilhete de metro com um verso no verso. Ensinas-nos que um altar cabe num bolso. Dizem que não há nada a fazer quando o mundo azeda. Tu respondes devagar: há sempre um fósforo no estojo dos lápis.
Na penumbra, a tua figura tem a geometria dos faróis. Trazes contigo um inventário humilde de objectos que quero copiar, como as pedras lisas apanhadas num cemitério. No fim, ficas onde sempre estiveste: um pouco ao lado do centro, no sítio exacto onde se escuta melhor.
Quando dizes "Nobody refers to Picasso as the male artist", deslocas centímetros de século. Rectificas a gramática do mundo. O adjectivo que nos prende cai ao chão e o que fica é belo e vasto.
PUB
Madalena Sá Fernandes escreve carta a Patti Smith, ícone inspirador
Foto: Getty Images
E no palco o ritual continua simples: uma camisa, um ca-saco, os dedos a contar o ritmo, Kaye a incendiar cordas, Jay Dee Daugherty a bater o coração comum, Tony Shanahan a pôr chão debaixo dos pés. Dizes "connect!" e a plateia liga-se como as luzes de uma árvore de inverno. Em Dancing Barefoot pairamos; em Ghost Dance damos as mãos aos ausentes; em People Have the Pozer lembramo-nos, de uma vez por todas, que o refrão não é metáfora.
"We are all alive together", diz a tua biografia no Instagram. Obrigada, Patti. Por nos lembrares de que o plural é o nosso instrumento. Seguimos pelo trilho que abriste, vagar e juntos, até que o mundo aprenda o teu compasso.
* A autora escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.
O livro Before Easter After, lançado pela Taschen numa edição de colecionador em tamanho XL e limitada a 1.600 exemplares, nasce de um diálogo artístico que a cantora foi estabelecendo com a fotógrafa Lynn Goldsmith. Conheça também mais duas novas obras para ler agora.
Cinco anos depois do aclamado álbum de estreia Antwerpen, a alter-ego musical de Débora Umbelino está de regresso com Alla, “um trabalho autobiográfico”, como assume nesta entrevista, na qual aborda questões como o bullying, a androgenia ou a identidade de género.
De raízes alentejanas e vivências lisboetas, Joana Espadinha confessa-se, com orgulho, cantautora. Conversámos com a artista, num rooftop em Lisboa. Veja o vídeo e leia a entrevista.