Moda e política podem andar juntas? Michelle Obama defende que sim
A ex-Primeira-Dama revela como cada peça que vestiu ao longo da carreira carregou uma mensagem.
Zohran Mamdani tinha tudo para desiludir os poucos esperançosos que restavam na esquerda (centrista?) norte-americana. Como Ícaro ambicionou ir até onde mais ninguém tinha chegado, também o recém-eleito presidente da câmara de Nova Iorque podia ter de se preparar para uma catastrófica queda na consideração do público. Em campanha, prometeu transportes públicos gratuitos, uma rede de creches também gratuita e, claro, aumentar os impostos dos mais ricos. Mamdani fez-se símbolo do poder social nova-iorquino, o rosto jovem da mudança que poderia efetivamente ter um impacto nas vidas dos residentes. Então, quando anunciou que não iria marcar presença na Met Gala deste ano, o fator-surpresa não foi necessariamente esta tomada de posição - que está claramente alinhada com os valores que tem vindo a defender - mas, quiçá, a coerência que é cada vez mais escassa entre a classe política.
O anúncio, feito no passado dia 16 em entrevista, surgiu no seguimento de uma outra notícia, em que divulgou a criação de um novo imposto imobiliário destinado a segundas habitações de luxo de valor superior a cinco milhões de dólares. O encadeamento das duas decisões é apenas lógico, tendo em conta que justificou a ausência da gala como um esforço para manter o foco “na acessibilidade e em tornar a cidade mais cara dos Estados Unidos acessível”. Afinal, apesar de utilizar um museu como centro de operações, a Met Gala é uma angariação de fundos para os mais ricos dos mais ricos - quem sabe muitos daqueles que serão visados pelo novo imposto imobiliário.
O mayor de Nova Iorque quebra, assim, uma longa tradição de autarcas e políticos que até utilizaram a escadaria do Metropolitan Museum para fazer passar mensagens (como esquecer o vestido com o qual Alexandria Ocasio-Cortez apelou a que se taxassem os ricos?). Ao fazê-lo, Mamdani está a dar visibilidade a um descontentamento que se sente nas ruas da cidade. Longe vai o tempo em que Anna Wintour era uma valiosa aliada do partido democrata, tendo até organizado uma angariação de fundos para Joe Biden em período de campanha, há dois anos. No que toca à Met Gala, as alianças tornam-se cada vez mais duvidosas, antagónicas até, tendo em conta o que o público tem vindo a conhecer de Wintour. Em novembro - meses depois de terem sido fotografados para a capa da Vogue americana -, Jeff Bezos e Lauren Sánchez Bezos foram anunciados como principais patrocinadores do evento, um título que se especula ter custado ao casal um valor na ordem dos milhões de dólares. E à medida que a primeira segunda-feira de maio se aproxima, Nova Iorque enche-se de posters que pedem um boicote à Met Gala, chegando alguns cartazes a denominá-la “Bezos Met Gala”, patrocinada por um homem que “foge aos impostos, sustenta a ICE e apoia Trump”.
O histórico de colaboração com os democratas pode estar a aproximar-se do fim já que, com a eleição deste casal como anfitriões honorários da festa, Anna Wintour está a alinhar-se com alguém que representa porventura o que há de pior do outro lado. Um aliado de Donald Trump, Bezos apoia o funcionamento da polícia de imigração ICE através da disponibilização de tecnologias de reconhecimento facial e armazenamento de dados. Enquanto os trabalhadores da Amazon já denunciavam este negócio em 2018, agora são eles os alvos da organização apoiada pelo próprio patrão. Não só a Amazon tem vindo a ser acusada de maltratar os empregados, como estes mega armazéns estão a ser afetados pela vaga de deportações e revogações de vistos.
Este tipo de mecenato, ou a escolha que é necessário ser feita para o aceitar ou recusar, é, claro, político. Um evento da escala que é a Met Gala persiste apenas graças à boa vontade de quem tem dinheiro para investir. O dinheiro, apesar de ser considerado uma doação, não é grátis. Vem à custa de uma mudança na perceção pública, uma viragem que pode vir a custar muitos outros parceiros, que pode comprometer a exclusividade de um lugar à mesa. Quando ter gosto e sensibilidade se torna secundário, quando uma transferência bancária pode comprar acesso ao que devia ser conquistado, perde-se a base sobre a qual se construiu uma instituição. Para Zohran Mamdani, subir aquela escadaria poderia ser uma confirmação de estatuto, se não, pelo menos uma ótima ocasião de publicidade. Mas o mayor pôs a decisão na balança e verificou que o que pesa mais é mesmo a concordância com o que tem vindo a fazer carreira.