O casaco napoleão regressa em 2026: alistamo-nos nesta tendência ou não?

Dos hussardos a Kate Moss em Glastonbury, até Jenna Ortega na Dior, o casaco militar é o comeback mais polémico da estação.

Foto: Getty Images
08 de junho de 2026 às 12:57 Safiya Ayoob

Há frases que a moda já repetiu até à exaustão. "A moda é cíclica" é uma delas. Logo seguida, naturalmente, por aquele conselho que todas ouvimos de uma mãe ou de uma amiga mais sensata: não te desfaças disso, ainda vai voltar. Voltaram as capris, as bolinhas, os sapatos de plástico que pareciam condenados ao imaginário da infância e até certas silhuetas dos anos 2000 que jurámos nunca mais usar. Desta vez, porém, a peça que reaparece não vem propriamente do armário de uma adolescente Y2K, mas de um campo de batalha. Falamos do casaco Napoleão - ou, se quisermos ser historicamente mais rigorosos, do casaco de hussardo.

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O nome "Napoleão" é, na verdade, uma espécie de atalho inventado pela moda contemporânea. Funciona porque é visual, imediato e teatral: evoca império, autoridade, botões metálicos, golas subidas, ombros direitos e aquele dramatismo muito francês de quem entra numa sala como se estivesse a comandar uma marcha. Mas a origem da peça é anterior ao imaginário napoleónico tal como o conhecemos. O casaco nasce ligado aos hussardos, unidades de cavalaria ligeira com raízes na Hungria do século XV, mais tarde adotadas por vários exércitos europeus. E não era um uniforme discreto. Pelo contrário. O traje dos hussardos foi concebido para ser visto. Para impressionar. Para intimidar. Havia nele uma consciência quase cinematográfica da imagem: casacos curtos e ajustados, entrançados decorativos, cordões, fileiras de botões, galões metálicos, peles, cores fortes e contrastes pensados para se destacarem à distância.

Durante as Guerras Napoleónicas, esse vocabulário visual tornou-se inseparável da ideia de bravura, hierarquia e espetáculo. O uniforme não servia apenas para vestir soldados; servia para construir mitos. Num tempo em que a guerra também se fazia de encenação, a roupa era uma arma psicológica. O casaco dizia: aqui está alguém treinado, disciplinado, perigoso. A moda, que sempre soube reconhecer bons símbolos, nunca esqueceu essa lição. Talvez por isso o casaco Napoleão seja uma das peças militares que mais facilmente atravessou a fronteira entre o uniforme e o guarda-roupa civil. No início do século XIX, a pelisse encontrou um novo papel na moda feminina, adaptada ao gosto Regency e Império: silhuetas compridas, cinturas subidas, tecidos mais delicados, mas ainda com ecos militares nos botões e nos fechos. A peça perdeu o cavalo, a espada e o campo de batalha, mas manteve a postura. Passou a vestir mulheres que não queriam parecer frágeis, mesmo quando a moda lhes pedia leveza.

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No século XX, a peça saltou para o palco. A música percebeu antes de muitos designers que aquele casaco tinha tudo para ser performance pura. Os Beatles usaram a linguagem das fardas coloridas no álbum Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, transformando a disciplina militar em psicadelismo pop. Jimi Hendrix, Mick Jagger, Freddie Mercury e Michael Jackson fizeram o mesmo à sua maneira: pegaram num símbolo de autoridade e devolveram-no ao público carregado de sensualidade, excesso e rebeldia.

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A alta-costura e o pronto-a-vestir também se renderam ao seu dramatismo. Yves Saint Laurent foi um dos nomes que ajudou a traduzir a autoridade militar para a linguagem do guarda-roupa feminino, dando estrutura e poder à silhueta. Mais tarde, Thierry Mugler, Jean Paul Gaultier e John Galliano exploraram o lado teatral, quase operático, do uniforme. Alexander McQueen levou-o para um território mais sombrio e crítico, onde a beleza e a violência se olhavam de frente. Já nos anos 2000, Hedi Slimane ajudou a tornar o casaco militar uma peça-chave do imaginário indie sleaze: estreita, afiada, usada com jeans justos, cabelo desgrenhado e a atitude de quem saiu de um concerto às três da manhã. Imaginemos Kate Moss. Balmain, por sua vez, fez dela quase uma assinatura. Sob Olivier Rousteing, os casacos militares bordados, estruturados e brilhantes tornaram-se parte do ADN visual da casa: glamour de ombros marcados, luxo em modo desfile, poder sem pedir licença.

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E agora, em pleno regresso das silhuetas históricas, o casaco Napoleão volta a marchar. Nas passerelles recentes, apareceu reinterpretado por casas como Dior, Balmain, McQueen, Kenzo, Ann Demeulemeester e Louis Vuitton. Jonathan Anderson trouxe para a Dior uma versão menos rígida e mais jovem, cruzando referências aristocráticas com uma leveza quase descontraída. A Vogue Arabia destacou o look de Jenna Ortega no desfile Dior - um casaco Napoleão sem mangas, usado com minissaia de ganga, óculos aviador e sapatos pontiagudos - como prova de que a peça já não precisa do peso literal da história para parecer atual.

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A nova geração veste-a de outra forma. Menos reconstituição histórica, mais styling. O casaco aparece com denim, tops simples, saias curtas, calças de cintura descida, botas pesadas ou sapatos delicados. Pode ser preto e dourado, como uma peça de palco, ou surgir em tons pastel, como se a guerra tivesse sido filtrada por um sonho de alta-costura. O importante é o contraste: a rigidez com a pele, o bordado com a ganga, a autoridade com a ironia.

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Mas porquê agora? Talvez porque vivemos um tempo em que a roupa voltou a procurar estrutura. Depois de anos de conforto, fluidez e minimalismo silencioso, há uma vontade crescente de peças que façam alguma coisa por nós. Que desenhem o corpo. Que ofereçam presença. Que comuniquem antes de falarmos. Num mundo instável, o casaco Napoleão dá a ilusão de controlo. É armadura, mas uma armadura decorada. É poder, mas com consciência de imagem. E, claro, há também a nostalgia. Não apenas a nostalgia de Napoleão ou dos hussardos, mas a nostalgia de todas as vezes em que a moda transformou o uniforme em símbolo pop. Da capa de álbum ao palco, do festival de música à passerelle, este casaco carrega uma espécie de memória coletiva: já o vimos antes, mas nunca exactamente assim.

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