“Obsession” transforma o medo de dizer “não” a um homem no filme de terror do ano

Apontado como um dos filmes mais perturbadores de 2026, o verdadeiro desconforto surge quando percebemos o quão familiar esta história pode ser para tantas mulheres.

Obssesion: a felicidade é relativa (2026) Foto: IMDB
25 de maio de 2026 às 16:31 Rita Pinto da Silva / com Patrícia Domingues

O novo filme de terror Obsession, de Curry Barker, está a dar que falar - e eu faço parte das pessoas que ainda não se calaram desde que o viram. A história segue Bear, que tem uma crush na sua amiga de longa data, Nikki, mas ela só o vê como um amigo. Aqui está o primeiro passo para o desastre - um homem que é enviado diretamente para a friendzone. Não contente com isto, Bear encontra um objeto antigo numa loja espiritual que lhe promete a certeza de um desejo concretizado. No desespero, Bear pede que Nikki o ame mais do que qualquer pessoa no mundo e a ideia do “One Wish Willow” (o objeto que realiza desejos) passa a funcionar quase como símbolo moderno da expectativa de gratificação imediata: querer amor sem vulnerabilidade, reciprocidade ou maturidade emocional.

Muitos críticos chamam-lhe “Gen-Z horror” porque fala de isolamento, awkwardness social, comunicação emocional fraca e relações mediadas por fantasia e idealização. Mas é a obsessão doentia (e forçada) de Nikki o que torna o filme realmente assustador - podemos vê-la cada vez mais obcecada por Bear, ao ponto de abandonar todo o sentido de identidade e ignorar as suas necessidades humanas, com o objetivo de se manter o mais dedicada possível. O resto da história desenrola-se num misto de suspense e incredulidade sobre tudo aquilo que estamos a ver, mas não pude deixar de pensar em como até nestas alturas o interesse de um homem supera sempre o querer de uma mulher.

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Nikki deixa gradualmente de ser pessoa para virar projeção do desejo do outro (e isso sugere uma leitura mais profunda sobre como relações tóxicas podem apagar identidade individual). Sem querer dar spoilers, mas dando, a meio do filme percebemos que a pessoa que Nikki se torna depois do desejo não é efetivamente ela. Bear consegue até comunicar com a verdadeira Nikki, que lhe implora que acabe com aquilo e lhe explica que aquela não é ela e que não o ama da mesma forma. Mas pode adivinhar o que Bear faz, certo? Ignora todos os seus pedidos e chega mesmo a tentar virar a história quando pergunta quase um clásico: "é assim tão mau estar comigo?". Ou seja, mesmo sabendo, quase desde o início, o porquê de ela agir como age e retirando-lhe qualquer tipo de autonomia, decide ignorar e deixar que fique com o papel de “maluca”. 

Cosmopolitan descreve a situação na perfeição:, "Obsession mostra que, quando não lhes são dadas as ferramentas para comunicarem adequadamente os seus sentimentos, os homens tiram a independência às mulheres assim que têm oportunidade - e o que há de mais assustador do que isso?”. O filme encaixa numa tendência recente do horror: usar namoro, dependência emocional, ghosting, insegurança e codependência como matéria-prima do medo. Em vez de monstros externos, o horror nasce da intimidade. Algumas leituras - especialmente a do LA Times - sugerem também que o filme brinca com o medo masculino perante mulheres "emocionalmente intensas" ou "impossíveis de controlar".

No artigo publicado no substack, Obsession & the Male Loneliness Epidemic, Amanda Brown liga a tudo isto à : "O filme permitiu-me refletir sobre até que ponto os homens estão dispostos a ir para se sentirem acolhidos, especialmente no que diz respeito à forma como a solidão masculina é vista atualmente, em particular, a epidemia de solidão masculina". E continua, “os homens começaram a chamar-lhe uma epidemia de solidão (...)  Na realidade, porém, as mulheres simplesmente não dependem de um homem para obter estabilidade emocional da mesma forma que, os homens dependem delas”. 

Aqui vemos a obsessão como espelho da solidão moderna: o horror não vem apenas da violência, mas da incapacidade de lidar com rejeição, luto, solidão e vazio emocional. Apesar de Bear não passar de um personagem de um filme, a verdade é que é a representação de muitos homens. Estudos sobre violência de género mostram que muitos casos de abuso, perseguição e feminicídio surgem precisamente da incapacidade masculina de aceitar rejeição, perda de controlo ou autonomia feminina. A Organização Mundial da Saúde estima que cerca de 1 em cada 3 mulheres no mundo já sofreu violência física ou sexual, maioritariamente por parceiros ou ex-parceiros. O stalking, a vigilância obsessiva e a manipulação emocional são frequentemente normalizados antes de escalarem para violência física.

Neste sentido, Obsession torna-se perturbador porque não cria um monstro distante da realidade: expõe comportamentos que já existem no nosso quotidiano. Bear representa a masculinidade possessiva que confunde amor com posse e intimidade com controlo - uma dinâmica amplamente analisada por estudos feministas e psicológicos sobre violência relacional. Quantas mulheres já tiveram de transformar um simples “não” numa questão de sobrevivência? Quantas mulheres já tiveram medo de um homem que dizia amá-las? O verdadeiro terror está no facto de tantas mulheres já conhecerem esta história, antes mesmo de entrarem na sala de cinema.

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