As redes sociais estragam relações. Não somos nós que o dizemos, mas é provavelmente a frase que melhor representa a era do amor em que vivemos atualmente. Estamos à distância de uma mensagem, de um story no Instagram, de um áudio no WhatsApp - até parece fácil estar presente, sem estar. Mas também se tornou mais fácil estar ausente 'só porque sim' e mostrar que se está offline, mesmo sem estar.
Os termos ghosting e quiet dumping já não são novidade para ninguém. São expressões modernas que descrevem problemas que sempre existiram, como relações que desaparecem ou se desfazem em silêncio. Mas temos mais um termo do mesmo género a ganhar espaço em certas conversas e, mesmo que não queiramos familiarizar-nos com o mesmo, parece não haver como remar contra a maré.
Micro Cheating. Um fenómeno mais discreto e talvez um pouco impercetível. Não há beijos ou toques físicos. Não há encontros secretos em hotéis. Não há muitas provas evidentes, daquelas que dá vontade de contar às amigas e perguntar "será que ele me está a trair?". Esta técnica de traição - sim, também é considerado traição - procura ficar pelos detalhes e é mesmo aí que está o poder do micro cheating e, consequentemente, o seu perigo.
Pequenos gestos que destroem relações. O conceito pode parecer moderno, mas o comportamento é antigo. Trata-se de uma forma mais subtil de traição. É feita de gestos que, isoladamente, podem parecer inofensivos, como trocar mensagens frequentes com alguém sem falar disso ao parceiro, grande frequência de novos seguidores nas redes sociais e, talvez o mais grave, criar um perfil numa app de encontros 'só para ver como funciona'. Nem sempre é sobre traição física, afinal, esta técnica é sobre o que se esconde, o que se omite, o que não se partilha.
Onde fica a intimidade e os limites da relação e onde começa a traição? Numa conversa durante a madrugada? Num emoji com segundas intenções? Num contacto guardado com um nome suspeito? A resposta a todas estas perguntas, como em quase tudo no que diz respeito ao amor, não é universal. Cada casal tem os seus limites e para algumas pessoas, estes comportamentos são claros sinais de traição. Para outras, fazem parte do flirt, do ego e da curiosidade e não ameaçam a relação. Depende.
Há que assumir que nem tudo é traição. Principalmente, num tempo em que tudo é observado, analisado e, muitas vezes, amplificado, há também um risco inverso: transformar qualquer gesto num sinal de infidelidade. A base de um relacionamento requer respeito e confiança e quando esses dois deixam de estar presentes é porque algo não está bem. Caso contrário, nem todo o olhar é uma promessa e nem toda a interação é uma ameaça, tudo depende. Às vezes, ver traição em cada detalhe pode dizer mais sobre o medo de perder a pessoa e sobre a insegurança pessoal do que sobre a intenção de trair. No entanto, é importante que haja comunicação entre o casal para que estes 'pequenos gestos inofensivos' não se tornem num comportamento de desrespeito.
Há coisas que ficam por dizer, não fosse um dos comportamentos deste fenómeno a 'não partilha' de informação. Será o micro cheating um sintoma de algo que precisa de mais atenção? De um alerta para as relações que entraram profundamente na rotina? No amor raramente são os grandes gestos que afastam um casal. As pequenas distâncias, os silêncios acumulados, a pressão das redes sociais - pequenos gestos que, por mais subtis que sejam, chega sempre o momento em que as questões parecem não ter resposta. E porquê? Por tudo o que deixou de ser partilhado e passou a ser escondido.