Dentro do supper club lisboeta onde a comida se serve entre livros
A experiência mais performativa da minha agenda acabou por ser também a mais verdadeira. No menu: espargos, kombucha e uma estranha sensação de pertença.
Espargos, kombucha e outros pratos num supper club em Lisboa.
Foto: @turmacreative15 de maio de 2026 às 18:01 Patrícia Domingues
Os supper clubs oferecem mais do que comida: criam um sentimento de pertença. A frase podia funcionar como manifesto silencioso para a nova geração de jantares íntimos que tem vindo a ocupar Lisboa. Entre eles, o Aquela Coisa Supperclub, um projeto itinerante que transforma o jantar numa experiência cuidadosamente coreografada entre comida, design e comunidade. Não há pressa, nem a rigidez habitual de um restaurante: há mesas compridas, velas acesas, cocktails improvisados entre desconhecidos e um menu pensado para ser partilhado tanto quanto a conversa.
Mais do que um simples dinner party, o Aquela Coisa encaixa perfeitamente naquilo a que a ELLE Decor norte-americana chamou recentemente de "hostingcore": uma nova obsessão coletiva por encontros cuidadosamente pensados e uma ideia de hospitalidade mais emocional do que performativa. Uma resposta direta à solidão contemporânea e à fadiga das interações digitais. Uma geração que já não procura apenas sair, mas sentir-se parte de alguma coisa.
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Jantar com livros em Lisboa: espargos, kombucha e comunidade
Foto: @turmacreative
Na Salted Books, uma biblioteca independente em Lisboa, o jantar começou como todos os bons encontros contemporâneos: com desconhecidos ligeiramente desconfortáveis, copos de cocktail na mão - toranja, gengibre, cardamomo, cravinho e sumac são oficialmente a minha nova mistura estranha preferida - e a sensação vaga de que talvez estivéssemos todos à procura da mesma coisa. Não apenas comida, mas contexto. Conversa. Presença.
À medida que os pratos iam chegando, o ambiente mudava de tom. O menu, servido quase como uma sequência narrativa inspirada em Kitchen Confidential (2000), um dos bestsellers da Salted, obrigava inevitavelmente à interação. Alguém pergunta o que tem o prato, outro comenta o molho inesperado, alguém pergunta quem fez a playlist. Havia pequenos detalhes que faziam tudo parecer ainda mais encantador: bancos compridos partilhados, espargos transformados em arranjos florais improvisados, uma iluminação baixa que convidava naturalmente a conversas mais profundas. Nada parecia excessivamente produzido, embora tudo tivesse sido claramente muito pensado.
Refeições preparadas num supper club em Lisboa oferecem uma experiência gastronómica e cultural
Foto: @turmacreative
“Trouxemos esta ideia à realidade e foi um processo muito bonito que quase se transformou num book club”, disse Carolina Silva Marques que juntamente com Bárbara Gomes - sim, a dupla que muitos reconhecem do MasterChef - criou um menu que dialogava com o universo de Bourdain sem cair na literalidade. Quem conhecia o livro identificava imediatamente as referências; quem nunca o tinha lido também nunca se sentia excluído da experiência.
Os espargos brancos com escabeche de amêndoa e muxama abriram o jantar de forma quase cinematográfica, mas foram os dumplings de camarão e o brioche de pá de porco que geraram consenso à mesa, incluindo entre pessoas que, meia hora antes, ainda não sabiam os nomes umas das outras. E talvez seja precisamente isso que explica o regresso dos supper clubs.
Espargos e kombucha num jantar em Lisboa, onde a comida se junta aos livros
Foto: @turmacreative
Depois de uma década em que sair para jantar se tornou um exercício de performance - reservas feitas com semanas de antecedência, restaurantes desenhados para feeds de Instagram, menus concebidos para serem fotografados antes de serem provados - o Financial Times descreve esta nova vaga como uma reação direta à fadiga digital e à cultura das dating apps. Continuamos profundamente sociais, mas cansados de interações mediadas por ecrãs. Os supper clubs respondem a isso com uma fórmula simples e tradicionalmente portuguesa: tudo acontece em torno de comida.
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Mas há também uma componente estética muito específica nesta nova vaga de encontros. O "hostingcore" não é apenas sobre receber pessoas; é sobre criar atmosfera. Aqui, a decoração foi o ponto de partida para toda a narrativa visual, pelas mãos do Costa Atelier e da Mariana Costa, a "faz-tudo" da noite. A toalha foi construída a partir de 12 torchons franceses da Bragard, dos anos 70, numa referência subtil à primeira geografia do amor de Bourdain pela comida: França. Os aventais, feitos do mesmo material, evocavam um tempo em que as famílias reaproveitavam tecidos e bordavam os seus próprios linhos.
Sobre a mesa, espargos repousavam ao lado de couves, cenouras e alhos quase como uma natureza-morta contemporânea, reforçando a estética crua e orgânica da refeição. Até o menu trazia uma ilustração daquilo que Bourdain considerava indispensável em qualquer cozinha: manteiga. Pequenos detalhes que fazem o jantar parecer menos um evento e mais a extensão natural da personalidade de quem recebe. Como descrevia a ELLE Decor, “a intenção por detrás” tornou-se tão importante quanto o próprio menu.
Na Salted Books, os livros funcionavam quase como decoração emocional: tornam o ambiente imediatamente mais íntimo, mais silencioso, mais curioso. Há qualquer coisa de cinematicamente europeu em jantar rodeado de lombadas enquanto desconhecidos discutem autores favoritos, viagens improváveis ou o livro que deixaram a meio na mesa de cabeceira. O espaço transforma o jantar numa experiência cultural e não apenas gastronómica.
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Funcionários da Salted Books recebem clientes em Lisboa
Foto: @turmacreative
Tanto que, mal acabamos o último pedaço do bolo de cacau com espuma de cogumelos, passamos da sobremesa para as prateleiras. Com o estômago cheio, chega a altura de alimentar o intelecto. Enquanto passamos os olhos por títulos com nomes sugestivos, percebemos que a Inês adora poesia, enviamos a fotografia de um livro sobre amizades a uma amiga e descobrimos outro sobre a história dos tecidos que alguém promete comprar “um dia destes” - esse alguém sou eu, e comprei-o antes de sair.
As conversas já não têm a formalidade do início; tornaram-se mais lentas, mais próximas, como se a mesa tivesse continuado entre os corredores da biblioteca. Mais do que uma tendência gastronómica, estes encontros parecem representar o regresso de uma certa ideia de hospitalidade. É sobre passar tempo com pessoas. Tempo de qualidade. Do tipo em que nem reparas que passaram três horas desde que chegaste e o telemóvel chega ao fim da noite com mais de metade da bateria. O Aquela Coisa - e talvez os supper clubs no geral - não é apenas sobre jantar (aliás, o clube está à procura de uma nova localização inesperada para uma segunda edição). É sobre a possibilidade rara de criar intimidade entre desconhecidos. Ainda que só por uma noite.