Há pessoas que atravessam o mundo rasgando um desamparo aos nossos corações. Erguem lugares de pasmo tais que a partir daí, os nossos respirares não se têm iguais. Compõem abismos absolutamente estarrecedores que nunca mais deixam de nos cantar.
Quem se abre com toda a sua vulnerabilidade ao real e avança, temerário, todo o seu ver e sofrer a um palco de contorções visuais, estabelece no mundo, uma nova perturbação poética.
João Canijo era o maestro das subtilezas do sentir. Orquestrou com a sua singularidade sonante uma sinfonia de abismos de viver. Com a sua acutilância de perceber toda a claridade e escuridão que se presentificam num rosto, teceu dramaturgias do humano que resultaram de uma beleza inédita. Articulou tensões de ferver no mundo numa composição que nos tirava o fôlego, tal era a potência da sua verdade, o carisma do seu jeito de absorver aquilo que arde. E ele abria, escancarava para nós esses incendiares que detetava na natureza dos encontros e desencontros uns com os outros.
Fez dos caos emocionais, das conturbadas experiências do existir, dos sufocos de sentir, uma obra que é de uma altitude profunda. De uma febre salvífica. Era preciso aceitar ferver com o que nos estendia para sobrevir desse encontro mais profundamente desperto ao mundo. Ele ofereceu-nos o que só alguns eleitos podem tecer, um lugar para que o nosso desconsolo se ilumine de uma fé para ainda continuar.