Sobre o aparador da sala, havia uma fotografia. Havia várias, mas aquela despertou-me a atenção. E então, fiquei a contemplá-la. Gélida, impávida, sem reação. Olhar para aquela imagem, emoldurada com cuidado e simplicidade, foi como olhar para Medusa, olhos nos olhos. Quase consegui sentir o sangue arrefecer e empedernir-se dentro das minhas veias.
Eu e o Bernardo conhecemo-nos há pouco tempo. Amigos em comum acabaram por nos juntar num dos muitos jantares em que aproveitamos para partilhar vinhos, novas descobertas, novas tendências. Este é um grupo de amigos muito vocacionado para as experiências gastronómicas, para as viagens, para os prazeres singelos da vida. O Bernardo foi convidado para alguns desses jantares e acabámos por coincidir nuns quantos. Até que, eventualmente, começámos a conversar.
Eu e ele temos coisas em comum. Nascemos ambos em maio, dia 9, ele é mais velho do que eu precisamente um ano. Somos os dois seres notívagos, mais do que diurnos. Preferimos o outono a todas as outras estações, o cinzento dos dias aos dias de sol dourado e céu azul. Ambos crescemos fora de Lisboa e temos uma espécie de condição existencial que nos faz fugir para o Sul sempre que é possível.
A paixão do Bernardo pelo Sul é saciada com facilidade: os pais dele têm uma casa de férias no Algarve. Acaba por ser, segundo ele, um refúgio, um abrigo para onde se recolhe sempre que pode, ou sempre que precisa. A minha família não tem casas de férias. Não porque não as possa ter, mas antes porque o meu pai as considera um desperdício. Além disso, o meu pai não partilha da minha paixão pelo Sul. Acredito que, caso decidisse ter uma casa de férias, havia de escolher outras paragens, nunca o Sul, o Algarve, ou mesmo o Alentejo.
Em todo o caso, o meu pai gosta de invocar Peter Mayle e o seu The Perfect Second Home, concluindo invariavelmente que uma segunda casa “é um fardo”, “uma duplicação da realidade - familiar e individual!” O seu discurso é sempre eloquente. Chega a ser difícil perceber de onde lhe vem tão poderosa aversão a ter uma casa de férias, esse desígnio que povoa os sonhos de boa parte da classe média à escala mundial.
Eu e o Bernardo demo-nos tão naturalmente bem que chegou a parecer estranho. Há pessoas com quem estabelecemos uma ligação imediata, quase como se já estivéssemos ligados a priori. Foi o nosso caso. Coincidimos, conhecemo-nos sem ter de explicar muito. Acho que parecemos simples aos olhos um do outro, sem ter de aprofundar demais. Acredito que uma experiência destas seja uma raridade, uma lotaria muito afortunada. A mim, nunca tinha acontecido uma ligação tão espontânea, tão imediata.
Em pouco menos de três meses, descobrimos uma afinidade improvável, que vai dos detalhes às grandes questões - as questões morais, a ética, o pensamento ideológico, a percepção existencial. Claro que não passamos a vida a falar desses assuntos mais robustos, mas é bom e reconfortante encontrar sintonia e amparo quando os temas surgem, sem termos de justificar esforçadamente cada ponto de vista, cada tomada de posição ou cada intuição, cada crença, cada gesto e olhar para a vida e para o mundo.
A vertigem da paixão leva-nos, por vezes, a cometer erros. Sobretudo, faz-nos ter pressa. No nosso caso, sentimos alguma urgência de nos consagrarmos como casal diante do público e da família. Felizmente, porque já não somos adolescentes nem inexperientes, soubemos refrear os impulsos e obrigar-nos a uma certa parcimónia. Eu fui introduzindo o assunto nas conversas em família acerca de um rapaz com quem tenho saído. Pelo que me conta, o Bernardo foi fazendo o mesmo.
E foi nesta espécie de impasse propositado que fomos criando oportunidades à nossa medida para estarmos juntos. Normalmente, essas oportunidades passavam por escapadinhas de fim de semana na casa de férias em Vilamoura.
Foi lá, nessa casa, que eu vi a fotografia. Eu já tinha olhado dezenas de vezes para aquela mobília, para aquelas paredes, para a decoração. Já tinha notado que há pelas mesas, estantes e armários objetos decorativos, imagens, quadros nas paredes, algumas esculturas mais ou menos inócuas espalhadas pela casa, pelos corredores, pelas salas. Mas nunca me tinha detido a olhar com olhos de ver.
Quando reparei pela primeira vez naquela fotografia, o meu corpo parou. Suspendeu-se de existir. Na imagem, um grupo de seis pessoas muito alegres, com instrumentos musicais nas mãos. Pareciam estar em cima de um palco. Deviam ter terminado uma atuação. Em primeiro plano, um homem de cabelos compridos, talvez o vocalista. Mais atrás, um outro homem, com baquetas na mão, sem dúvida o baterista, e uma mulher encostada a ele, com uma certa intimidade. Uma mulher igualzinha à minha mãe. Uma mulher que era, com toda a certeza, a minha mãe.
Peguei na moldura. O Bernardo estava na cozinha a preparar qualquer coisa para jantarmos. Olhei com atenção, tentei que os meus olhos fizessem o mais profundo e perfeito dos zooms. Aumentei até ao meu limite físico, até ao fim das minhas possibilidades, aquele rosto, tão parecido com o meu, tão jovem. Sem saber o que fazer, fotografei com o telemóvel. Não sei para quê nem porquê. Senti essa necessidade súbita.
Quando o Bernardo saiu da cozinha, deu comigo ainda a contemplar apaticamente aquelas fotografias, sem dizer nada. “Está tudo bem? Pareces estranha.” Até ele notou que algo se passara. “Não, não é nada. Estava só a ver estas fotos.” Aproximou-se, olhou. Pegou naquela moldura e disse “isto é dos tempos em que o meu pai era músico”. E depois contou mais qualquer coisa, mas eu não consegui absorver a informação. Nem partilhar, já agora. Fui incapaz de lhe dizer que a minha mãe era aquela, ao lado do baterista. Nem mesmo quando o Bernardo detalhou, “o meu pai era um bom baterista - ainda hoje toca, um dia tens de ouvir”.
Quis confrontar a minha mãe com todo o caso, mas não sabia bem como. Afinal de contas, ela não fizera nada de mal. Simplesmente estava ali numa fotografia, ao lado do pai daquele que era agora o meu namorado. Mas não é como se ela levasse uma vida oculta - era simplesmente o passado a vir à luz do dia graças ao líquido revelador.
Tentei abordar esse passado de forma discreta. Perguntei-lhe se ela, quando era nova, não tinha tido uma vida diferente, não tinha experimentado coisas excitantes. Ela achou a conversa meio estranha, presumo. Limitou-se a dizer “fiz as minhas tonterias, como todos os jovens”. De que tipo? “Oh, sei lá, Diana. Olha, cheguei a ter uma banda de folk-rock. Serve?” Serve perfeitamente. Pedi-lhe que me falasse mais disso. Disse que não, que não havia nada para dizer. “Além disso, é uma coisa de outro tempo. De outra vida. E o teu pai não gosta particularmente que se recupere essa outra vida.”
Hesitei. Esperei um pouco. Mas ganhei coragem e mostrei-lhe a fotografia. Ficou sem reação, primeiro. Em seguida, pegou no meu telefone. Aumentou a imagem. Disse “Fernando”. E depois: “Apaga isso. Não quero essa foto aqui.” Respondi-lhe que não, que não ia apagar. E acrescentei que queria saber tudo. “Porquê? Para que é que queres saber estas coisas, que interesse tem, Diana? É desenterrar o passado, não serve de nada.” "O meu namorado, mãe, o meu namorado é o filho do baterista. Sim, filho do Fernando." “Ai, filha…”
A minha mãe e o Fernando namoraram mais de cinco anos. Tiveram aquela banda juntos. A fotografia foi tirada já no fim dos tempos da banda - que acabou precisamente porque a minha mãe e o Fernando se chatearam, acabando por se separar. “Eu gostava muito dele”, confessa-me, em lágrimas. “Muito.” Só que ele não queria ter filhos. Ela queria muito. A insistência dela acabou por afastá-lo, diz ela. Acha que o pressionou demais.
“O mais curioso, sabes o que é?” Não sei. Mas não é difícil adivinhar. “Passados uns meses, talvez um ano, de nos termos separado, ele engravidou a sua namoradinha nova.” Referia-se, sem saber, à mãe do Bernardo. E o filho era o Bernardo. Nessa altura, a minha mãe já tinha conhecido o meu pai. E eu, mãe? Como é que eu surgi? “Quando soube que ele tinha tido um filho, fiquei muito desnorteada. Afastei-me do teu pai. Quis ficar sozinha.” Mas depois voltaram, ficou tudo bem. Tão bem que eu fui concebida logo que reataram a relação. “Não contes nada disto ao teu pai, Diana. Peço-te por tudo.”
Não contei ao meu pai. Na verdade, não contei a mais ninguém. E agora não sei o que fazer, porque não posso fingir que não sei de nada. Não posso esconder o assunto para sempre. Não posso ocultar tudo do Bernardo. E receio que, ao revelá-la, a história traga consequências para nós e para as nossas famílias. Mas o pior de tudo é que o ganhar consciência de tudo isto criou um estranho fio, uma ligação etérea, como que familiar, entre mim e o Bernardo. E nós devíamos ser só namorados, amantes. Afinal, não. Afinal, temos um passado.