Histórias de Amor Moderno: "A tensão entre nós era difícil de dissipar. Sem válvula de escape, sem sexo, carregados de contas para pagar"

“Quando o nosso filho mais novo nasceu, os escombros do nosso amor eram um terreno miserável de abandono e solidão. Mantínhamo-nos unidos porque não sabíamos ao certo o que fazer com o desespero.” Todos os sábados, a Máxima publica um conto sobre o amor no século XXI, a partir de um caso real.

Third Person (2013) Foto: IMDB
18 de julho de 2026 às 10:00 Maria Olívia Sebastião

Vocês não me conhecem. Se me veem sentado numa esplanada do centro de cidade, com a barba grisalha, o cabelo branco, ralo e por pentear desde 2020, uma camisa colorida aberta até ao umbigo, um brinco dourado e reluzente na orelha esquerda, de mão dada com uma mulher 20 anos mais nova do que eu, gira, bonita, bem vestida, cuidada, aposto que o primeiro pensamento que vos assoma à mente é: sugar daddy. Olham em redor em busca de um Ferrari mal estacionado, de um Patek Philippe no meu pulso de velho bronzeado, de um qualquer sinal exterior de riqueza e displicência capaz de explicar aquele cenário. Mas enganam-se. Isto é mesmo amor. E se alguém precisa de ajuda com as contas sou eu - e a Sara tem sido imensamente generosa comigo. Chamem-me sortudo.

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A minha vida não foi sempre assim, dedicada ao deleite e ao supremo luxo de viver um dia de cada vez. Aliás, a minha vida foi bastante o oposto de ser assim até há não muito tempo. Aos 45 anos, arrastava o mundo às costas: tinha uma família, uma mulher, um trabalho, nenhum sonho. Eu e a minha mulher éramos profundamente infelizes um com o outro. Já o éramos há mais de dez anos. Quando o nosso filho mais novo nasceu, os escombros do nosso amor eram um terreno miserável de abandono e solidão. Mantínhamo-nos unidos porque não sabíamos ao certo o que fazer com o desespero.

Felizmente, apesar do desencanto, não entrámos profundamente pelo caminho fácil do ódio. Mantivemos a sanidade, permanecemos compreensivos, tanto quanto possível. Desligados, sim, mas funcionais. Só que a tensão entre nós era difícil de dissipar. Sem válvula de escape, sem sexo durante meses, quiçá anos a fio, e carregados de responsabilidades, contas para pagar, três filhos para educar, as discussões aconteciam praticamente por geração espontânea. A existência do outro era motivo bastante para incendiar uma irritação.

Até que um dia, sem aviso prévio, durante um desentendimento banal, menor, insignificante - “Beatriz, já deixaste cozer demasiado o linguine” -, a minha mulher olhou para mim e disse “olha, para mim chega”, pegou na carteira, no telefone e nas chaves de casa, bateu com a porta e desceu as escadas do prédio a correr, como se fugisse. Os miúdos estavam espalhados pela casa, o mais velho a ouvir música no quarto e provavelmente a fumar; a do meio estava à secretária a ler e a escrever qualquer coisa, enquanto trocava mensagens com os amigos; o mais novo estava diante da televisão, a ver pela milionésima vez o filme preferido em DVD. E eu não soube o que fazer.

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Liguei para a minha sogra. Expliquei-lhe o que acabara de acontecer. “Espera, Lourenço, parece-me que alguém está a entrar em casa, talvez seja a Beatriz.” Era ela. Disse à mãe que não queria falar, mas que vinha para ficar - “até arranjar uma casa para mim”.

Foi assim que nos separámos, eu e a Beatriz. Sem gritos nem ameaças, apenas uma decisão assertiva, convicta e inabalável, como uma sentença: isto acabou, aqui e agora. Nos momentos que se seguiram, o mais difícil foi contar aos meus filhos o que acontecera, sem fazer com que a mãe parecesse um monstro frio - que não é, de todo; é uma pessoa que me é muito querida, que, de certo modo, ainda amo, com carinho, com cuidado, com interesse, como se ama um amigo de infância, ou talvez um irmão de quem nos afastamos com o tempo.

A Beatriz atingira o seu limite. E eu também, só que eu não tive a mesma coragem e determinação que ela teve. Fiquei sossegado, à espera que a vida se resolvesse, em vez de pegar eu mesmo na vida para a resolver. Mas quantas vezes podemos mudar de vida? E será que algum dia conseguimos resolvê-la? Estas questões, nem eu as levantava. Dócil, aceitei o meu fado sem questionar. A vida era assim mesmo, e havia que seguir em frente, ganhar dinheiro, pagar as contas, levar os miúdos à escola.

Aquele bater com a porta foi, durante algum tempo, um som traumático. Hoje, soa-me libertador. É o som da mudança. É o som do progresso. O som daquela porta a fechar-se é o som de uma porta que se abriu. Hoje em dia, os nossos filhos dividem-se entre as casas de um e do outro, sem dramas nem escalas, consoante o desejo e a conveniência de cada um de nós, filhos incluídos neste alinhamento de vontades.

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Até que idade podemos mudar de vida? Até que ponto da existência nos é dada autorização para tentar de novo, recomeçar, admitir que não era exatamente aquilo que queríamos? Decerto, não há resposta para estas perguntas tontas, divagações inconsequentes. O que importa reter é que eu, a caminho dos 50, numa idade em que muitos se arrumam no canto e se entregam à função de ser avô, consumindo da vida a satisfação pontual de ter pequenas surpresas nos intervalos de rotinas instaladas há tanto tempo que criaram raízes.

Depois da saída da Beatriz, segui em frente. Primeiro, a medo, fui reatando laços com pessoas de quem me afastara por causa da vida de família. Pelo meio, conheci a Laura. Podia ter sido amor, mas a minha mudança não foi grande o suficiente para contemplar a loucura e a vertigem como elementos desejáveis na minha vida. Num percurso feito de excessos, de exuberância, de inconsciência e de auto-destruição, foram muitos os solavancos, as curvas apertadas e as travagens a fundo. Ao fim de algum tempo, percebi que seria errado insistir na relação.

E quando me desprendi, deparei-me com a Sara. Mora no mesmo bairro que eu. Diz que já tinha reparado em mim, quando tinha um ar mais velho e infeliz. Ela diz abertamente “mais miserável”. Começámos a conversar quase por acidente. Temos amigos em comum, lembrava-me dela porque a vi algures, não sei onde, não sei quando. Achei-a simpática, achou-me adorável, ou vice-versa, pouco importa.

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Certa tarde, demos por nós aos beijos no jardim, sem que nada o fizesse prever. Num intervalo de lucidez, parei, afastei-me um pouco, olhei-a nos olhos e disse, num inglês que me saiu sem preparação nem aviso, why not? E ela riu-se muito mais do que eu podia esperar. Acho que nos apaixonámos nesse momento.

Aceitar o que a vida dá, desfrutar, deixar fluir - não temer, não questionar demasiado, não hesitar sem razão. Foi o que aprendi ao longo da minha história, foi o que a vida - acho eu - tentou ensinar-me. E é isso que partilho convosco.

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