Exclusivo Máxima. Renate Reinsve, nomeada ao Óscar de melhor atriz por “Valor Sentimental”: “A ternura é o novo punk"
Está aí um dos filmes mais celebrados do momento: “Valor Sentimental”, de Joachim Trier, história de pais e filhas na Oslo contemporânea. A Máxima esteve com Renate Reinsve e Inga Ibsdotter Lilleaas, nomeada para melhor atriz secundária. Atrizes brilhantes que contam o nível de felicidade que estão a viver após a receção triunfal de um filme que, ao todo, tem nove nomeações da Academia, incluindo melhor filme.
Renate Reinsve, atriz nomeada ao Óscar por "Valor Sentimental", em Oslo
Foto: Getty Images28 de janeiro de 2026 às 13:54 Rui Pedro Tendinha
“A ternura é o novo punk”. A frase é de Renate Reinsve quando me encontro com ela em Cannes numa ação de promoção de Valor Sentimental, na véspera de apresentar o filme no Palais Lumière. A atriz norueguesa faz de seguida um disclaimer: “quem disse isso não fui eu, foi o Joachim Trier e eu adoro os seus filmes. O que ele faz é quase impossível, toca uma intimidade muito rara. Estas personagens são bastante privadas e dizem muito acerca da experiência humana. Quer tenhamos ou não família, todos nós relacionamo-nos com este tema”.
Valor Sentimental chega agora a Portugal depois das 9 nomeações aos Óscares, da vitória nos Prémios do Cinema Europeue do Grande Prémio em Cannes. Esta realização de Joachim Trier é o filme nórdico sensação, uma espécie de fenómeno cultural que muitos comparam ao peso das peças de Bergman ou de Ibsen mas que o próprio Trier parece recusar.
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Renate Reinsve e Inga Ibsdotter Lilleaas celebram nomeações aos Óscares por "Valor Sentimental"
Foto: Kasper Tuxen Andersen
Renate Reinsve, que está aqui nomeada ao Óscar, já depois de em A Pior Pessoa do Mundo, também de Trier, ter vencido o prémio de interpretação em Cannes, interpreta uma atriz que tenta ajustar contas sentimentais com o pai (Stellan Skarsgard, obviamente nomeado para o Óscar), um cineasta famoso que vai rodar o seu próximo filme na casa de família onde está também a sua irmã (a soberba Inga IbsdotterLilleaas) cujos traumas de falta de ternura com o pai talvez tenham outras camadas. Fala-se de criação artística, distância parental e de dor feminina num filme onde todas as explosões dramáticas têm uma contenção elegantíssima.
“Este filme faz-nos olhar para as nossas antigas relações numa nova perspectiva. Nem imagina o quanto chorámos todas num plateau…”, salienta também Renate. Ao seu lado, no terraço do Marriott, numa tarde ventosa de Maio, está Inga Ibsdotter Lilleaas. A “mana mais nova” entra na conversa e explica a química fraternal entre as duas atrizes: “foi fácil sermos irmãs. Ambas identificamo-nos com aqueles sentimentos e temos uma sensibilidade emocional parecida. Nas nossas famílias temos laços fortes e amores robustos. Imaginámos muito o que poderia acontecer se estivéssemos numa situação destas. O argumento está tão bem escrita que facilitou tudo. E trabalhamos com o mesmo tipo de liberdade, além de que damos muito espaço uma à outra”. Renate acena em concordância. Ao vivo, dir-se-ia, que parecem ainda mais irmãs.
Renate Reinsve e Inga Ibsdotter Lilleaas nomeadas para os Óscares por "Valor Sentimental"
Foto: Kasper Tuxen Andersen
“Discutimos muito sobre o que é isso da ausência paternal, sobre o que é crescer numa casa e ter duas experiências completamente díspares, enquanto uma fica zangada, a outra tenta ser conciliadora. Passámos as duas horas e horas a falar com o Trier sobre todas estas nuances”, confessa Renate que o ano passado foi vista em grande em Armand, de Halfdam Ullmann Tondel e já antes no neo-clássico da A24 A Different Man, de Aaron Shimberg. Pode-se mesmo suspeitar ter capitalizado na perfeição o balanço dado pelo seu desempenho premiado em A Pior Pessoa do Mundo. Com um pé entre a Noruega e Hollywood, Renate não parou e tudo parece estar a correr-lhe de feição: antes desta nomeação ao Óscar foi também agraciada com o Prémio da Academia europeia de melhor atriz. Pergunto se no meio de tudo isso consegue ainda usufruir todo este belo momento: “claro que consigo! Às vezes, parece tudo excessivo - fiz cinco filmes no mesmo ano e fui a cinco grandes antestreias nos maiores festivais! Já chega! A partir de agora, vou tentar apenas fazer dois filmes por ano. Aí sim vou usufruir mais”, responde e vinca: “usufruir a vida! Sabe que mais? Não me sinto pressionada com tudo isto que me está a acontecer. Se estivesse a sentir isso estaria em sarilhos. Ainda tento escolher os meus papéis pelo instinto do meu coração”.
Voltando ao filme, Inga fala da outra personagem do filme: a casa! A casa de família: “filmámos tudo lá, aquilo é lindo. A casa é a personagem principal do filme e ajudou-nos a criar as personagens. Naquela casa, senti-me em casa e estava cheia de histórias. É uma casa em Oslo que se arrisca agora a ser visitada por turistas”.
Em jeito de despedida, outra memória da estreia em Cannes que vai ficar para sempre na memória de Renate: “duas das minhas irmãs estiveram ontem na gala e foi muito especial. A minha relação com elas tem coisas que estão no filme, elas foram uma espécie de espelho para o meu trabalho. Uma delas foi mesmo sincera e disse que Valor Sentimental era o melhor filme que já alguma vez tinha visto. A verdade é que depois de tantos minutos que tivemos da ovação de pé eu já não sabia comportar-me. Agora vejo as imagens e percebi que me refugiei no sorriso, era o mais simples…Foi uma noite fantástica, sobretudo porque estava nervosa. Nunca pensei que o filme pudesse ser tão bem recebido, o Joachim conseguiu criar um filme que toca mesmo nas pessoas. E tínhamos muita pressão, sobretudo após A Pior Pessoa do Mundo. Fiquei tão feliz!!”.
O distanciamento mais recente entre celebridades reacende um debate ainda tabu: até que ponto manter vínculos familiares é saudável - e quando é que o afastamento pode ser um ato de autopreservação?
O método explica que destinos herdados de geração em geração podem afetar negativamente os membros de uma família, conduzindo a doenças e fracassos que se repetem sistematicamente. É visto como um renascimento, na medida em que a pessoa consegue ver as ligações que impediam o seu equilíbrio e desenvolvimento saudável.