E quando a família é o problema? O que o afastamento de Brooklyn Beckham nos ensina sobre cortar laços
O distanciamento mais recente entre celebridades reacende um debate ainda tabu: até que ponto manter vínculos familiares é saudável - e quando é que o afastamento pode ser um ato de autopreservação?
Durante décadas, os Beckham foram o retrato da perfeição: amor, sucesso, filhos e uma coreografia familiar sempre pronta para as câmaras. Mas bastou um afastamento – e seis stories – para a imagem rachar. Os rumores sobre a rutura entre Brooklyn Beckham e os pais abriram uma pergunta incómoda e urgente: e se a família não for um lugar seguro?
Depois de meses de especulação, Brooklyn decidiu falar. Num longo desabafo no Instagram, acusou David e Victoria Beckham de tentarem sabotar o seu casamento com Nicola Peltz e de priorizarem a marca Beckham acima de qualquer vínculo emocional. “Não estou a ser controlado. Estou a defender-me pela primeira vez”, escreveu. E disse não querer reconciliação.
Entre os episódios relatados, um tornou-se instantaneamente viral. No casamento de 2022, Brooklyn planeava uma dança romântica com a noiva. Victoria teria interrompido o momento para dançar com o filho, de forma descrita por ele como “inadequada”. O resultado: a internet fez o que sabe fazer melhor. Transformou desconforto em entretenimento e entregou alguns dos melhores memes de 2026. O humor chegou antes do processamento. Too soon?
Houve mais: o vestido de noiva que Victoria teria prometido criar e cancelado à última hora (Nicola acabou num Valentino de alta-costura que, segundo um artigo da Vogue, foi feito por medida durante um ano), comentários sobre “não ser de sangue”, aniversários transformados em eventos públicos onde a presença da esposa não era bem-vinda. Para Brooklyn, o recado era claro: intimidade só se vier com fotógrafos.
O casal, agora baseado em Los Angeles, esteve ausente das celebrações dos 50 anos de David Beckham. Segundo Brooklyn, qualquer tentativa de aproximação ao pai era condicionada à performance pública. “A marca vem primeiro”, escreveu. O amor mede-se em posts, presenças e patrocínios. Desde o afastamento, diz sentir algo raro: “paz”.
O caso Beckham não é apenas sobre celebridades. O distanciamento familiar tornou-se também linguagem terapêutica. No TikTok, multiplicam-se relatos de quem cortou laços e voltou a respirar. Livros sobre limites emocionais ocupam as prateleiras. Ainda assim, a pergunta persiste: por que romantizamos famílias disfuncionais? E por que a rutura continua a ser tão facilmente condenada?
Depois de um descalabro emocional destes, fizemos o único gesto possível – marcámos consulta. Falámos com a Dra. Nídia Franco, psicóloga da Clínica da Mente, para perceber quando o afastamento deixa de ser fuga e passa a ser sobrevivência.
O que revelam casos mediáticos como o da família Beckham sobre a “família perfeita”?
Casos mediáticos como este lembram-nos que a ideia de família perfeita é, muitas vezes, uma ilusão construída socialmente. A dor e os conflitos fazem parte da experiência humana, mesmo em famílias que parecem perfeitas nas redes sociais. Os Beckham mostram-nos isso mesmo: ninguém está imune. Como diz o provérbio: “as aparências iludem”. O valor de uma relação não deve ser medido pelas aparências, mas sim pelo respeito e pela segurança emocional.
Este exemplo também nos deixa o alerta para importância de não nos punirmos por escolher cuidar de nós mesmos, mesmo quando isso implica tomar decisões difíceis, como o afastamento familiar. O choque social não é um reflexo de uma falha nossa, mas da dificuldade coletiva de lidar com imperfeições humanas. É legítimo proteger-se.
O que é, do ponto de vista psicológico, a regra do “no contact” e quando pode ser autoproteção emocional?
A regra do “no contact” é uma estratégia relacional de afastamento total. Esta estratégia permite a autoproteção emocional quando existe abuso emocional, psicológico ou relacional persistente, ou seja, quando o contacto gera ansiedade, medo, culpa ou sensação de perda de identidade. Também se justifica quando os limites são repetidamente violados e quando todas as tentativas de diálogo falharam. Nestes casos, cessar o contacto com o abusador é saudável, pois evita a exposição continuada ao sofrimento.
Quais são as razões mais comuns para cortar contacto com a própria família, apesar da ruptura social?
Na prática clínica, os motivos mais frequentes incluem abuso emocional continuado, como humilhação, manipulação e a invalidação constante dos sentimentos e experiências da pessoa. Também se verificam frequentemente tentativas de controlo excessivo e desrespeito pelos limites pessoais. Conflitos profundos relacionados com valores ou identidade, como por exemplo escolhas de vida, carreira, parceiro ou orientação sexual, podem tornar a convivência insustentável.
Normalmente, a decisão de cortar contacto surge após muitas tentativas de diálogo, adaptação e sofrimento acumulado, quando a relação deixa de ser saudável e reparável. É muito raro dever-se a um evento isolado.
Que peso emocional carrega esta decisão: é luto, alívio ou ambos?
Esta decisão não é fácil. Não se trata de sentir uma coisa ou outra, mas sim uma coisa e outra. Há um luto pela família idealizada, pela relação desejada que nunca existiu. Este luto é conhecido como perda ambígua: a pessoa está viva, mas a relação deixou de existir. Há também alívio, especialmente corporal e emocional. Contudo, a diminuição da ansiedade e do stress não invalida a dor do luto. As duas experiências coexistem.
Porque é que a culpa e o julgamento externo continuam a ser tão devastadores?
A culpa e o julgamento externo não surgem da decisão em si, mas da transgressão de regras culturais profundamente internalizadas. Crescemos a ouvir frases como: “o sangue fala mais alto”, “mãe e pai são sagrados” ou “um dia vais-te arrepender”, que associam o afastamento da família a falha moral ou egoísmo. Psicologicamente, isto gera muito sofrimento. Os seres humanos dependem da aprovação social e da pertença para se sentirem seguros — é uma resposta evolutiva de sobrevivência. Deste modo, o julgamento social ativa mecanismos cerebrais que nos sinalizam ameaça, fazendo-nos sentir vulneráveis, em perigo e acreditar que estamos a falhar como pessoa.
A psicoterapia ajuda-nos a olhar para esta dor de outra forma, a reconhecer que afastar-se de relações que nos adoecem é um ato de cuidado e sobrevivência, não de ingratidão. É possível sentir tristeza e ainda assim afirmar limites, e isso não nos torna menos humanos ou má pessoa, apenas mais conscientes do que merecemos.
O “no contact” é definitivo ou pode ser temporário?
Em alguns casos, o “no contact” é definitivo porque não existe mudança, responsabilização ou segurança emocional possível. Noutros, o afastamento é temporário e até necessário para a recuperação e autonomia emocional. Durante este período, é possível a reorganização psicológica e o fortalecimento de limites. A sua função não é punir, mas criar uma distância de segurança suficiente para permitir clareza e escolha consciente, em vez de uma reação defensiva.
Que sinais indicam que manter contacto pode ser mais prejudicial do que benéfico?
Manter contacto com alguém que nos magoa de forma repetida costuma gerar sinais claros. O corpo expressa sinais mesmo antes da mente. Muitas pessoas, em contexto clínico, descrevem sensação de cansaço constante, exaustão emocional, aperto no peito, sensação de falta de ar, tensão muscular, crises de choro ou irritabilidade. Estes sintomas são mensagens do corpo a indicar que os nossos limites estão a ser ultrapassados.
A manutenção de um vínculo adoecido deixa marcas profundas a vários níveis:
Psicológico: aumento da sintomatologia ansiosa, depressão, diminuição da autoestima, dificuldade em confiar em si mesmo e nos outros;
Físico: insónia, fadiga, dores musculares, problemas digestivos e alterações da pressão arterial ou frequência cardíaca;
Relacional: dificuldade em estabelecer ou manter relações saudáveis; tendência a repetir padrões de violência emocional.
A psicoterapia tem um papel fundamental, pois ajuda a pessoa a não se culpabilizar por sentir tudo isto e a perceber que é válido procurar segurança emocional, mesmo que isso implique criar distância ou redefinir limites na relação. Não precisamos de suportar a dor para ser boa pessoa. Estabelecer limites não é egoísmo, mas sim um ato de coragem e autocuidado. Quando se percebe que o contacto obriga a silenciar o próprio sentir, a negar necessidades ou a abdicar de valores essenciais, é um sinal de que a relação deixou de ser saudável e que afastar-se pode ser um ato de preservação emocional.
Não sabe dizer "não"? Este truque de linguagem simples ajuda a impor limites
Semântica. O que foi, para alguns, uma cadeira muito chata na faculdade, pode, na verdade, ajudar a manter à distância açambarcadores de tempo. Quer isto dizer que as palavras que usamos para responder a solicitações podem libertar-nos (ou aprisionar-nos).
Trabalho. "Se não tivermos amor-próprio, entramos em sobrecarga. Não conseguimos dizer 'não' porque queremos agradar"
No primeiro dia do Máxima House of Beauty 2025, o New Era Stage foi palco de uma conversa sobre o impacto que o amor-próprio tem na carreira.
Histórias de divórcio no feminino. “Seria muito fácil dizer que ele me traiu, mas fui eu que o traí a ele”
No meio de uma crise, o relato de uma mulher que se envolveu com outra pessoa e não se perdoou. Tomou a decisão de se separar “por medo” de perder o marido “ainda mais”.