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Máxima

Prazeres

Se um quadro de Rembrandt pudesse falar, o que diria a um vestido de Balenciaga?

O curador da exposição Arte & Moda dirá que nunca se viu nada assim, “nem no Metropolitan, nem no Victoria & Albert, nem no Louvre”. A mostra reúne 270 peças, das quais 140 são criações de alta-costura, as restantes são obras de arte da colecção Calouste Gulbenkian – 500 anos de arte em diálogo com 150 anos de moda. Para visitar até 21 de junho.

Vestido e capa de Alexander McQueen para Givenchy; A Virgem e o Menino de Jan Gossaert.
Vestido e capa de Alexander McQueen para Givenchy; A Virgem e o Menino de Jan Gossaert. Foto: ©Jon Cazenave
21 de abril de 2026 às 18:07 Madalena Haderer

Há qualquer coisa de muito especial em visitar uma exposição que ainda está a ser montada. Sim, é preciso ter cuidado para não tropeçar num escadote e aterrar em cima de um vaso da dinastia Ming de valor incalculável, e tentar para não perturbar o trabalho dos técnicos que ainda estão a colocar peças no seu devido lugar e a fazer ajustes de última hora. O que se perde em informação – muitas das pequenas placas que identificam as peças ainda não foram colocadas – ganha-se em intimidade. E em confusão mental – passa-se num sítio e está lá um lindo vestido com plumas de avestruz azuis que, dez minutos depois, foi substituído por uma espécie de armadura feita de peças de cerâmica. Ao mesmo tempo, é um pouco como entrar numa gruta cheia de tesouros. Toda a gente está atarefada, focada nos seus afazeres, os alarmes ainda não estão ligados, e basta esticar um braço para tocar num quadro de Rubens ou num vestido de Hubert de Givenchy, encarnado e com penas, usado por Audrey Hepburn em 1988 – esta jornalista precisou de convocar todo o autodomínio que tem (e sobretudo o que não tem) para não o afagar.

Era este o ambiente que se vivia a pouco mais de 24 horas da inauguração da exposição Arte & Moda, na Fundação Calouste Gulbenkian. Um evento que vai ficar para a história porque, como sublinhou, Eloy Martínez de la Pera Celada, o curador, nunca se viu nada assim, “nem no Metropolitan, nem no Victoria & Albert, nem no Louvre, nem em lado nenhum”. A mostra reúne, ao todo, 270 peças, 140 das quais são criações de alta-costura, as restantes são obras de arte que fazem parte do espólio da colecção Calouste Gulbenkian. Há toda a sorte de objetos. Pinturas, naturalmente, mas também, cerâmicas, biombos, tapeçarias, mobiliário, peças decorativas, etc. São 500 anos de história da arte em conversa com 150 anos de alta-costura.

Vestido e capa de Alexander McQueen para Givenchy; A Virgem e o Menino de Jan Gossaert.
Hermes da Vestal Tucia de Antonio Canova e coordenado feminino com vestido e bolero de Jan Taminiau. Foto: © Jon Cazenave

É o curador que nos leva nesta visita guiada. Eloy Martínez, especializado em exposições de arte e moda, explora a beleza dos diálogos entre a pintura, a fotografia, a escultura, as artes decorativas e a moda, o que lhe permitiu comissariar e conceber algumas das exposições mais notáveis dos últimos anos. Exposições que passaram por alguns dos museus mais conceituados, como o Museu do Traje de Madrid, o Museu Sorolla, o Museu Nacional Thyssen-Bornemisza, no Museu Nacional do Romantismo, entre outros.

Arte & Moda arranca com um diálogo entre uma máscara de ouro egípcia e o glorioso vestido Magnificent Gold da designer chinesa Guo Pei. Este é um de seis vestidos que vieram da China e que nunca foram mostrados em Portugal.  O espaço expositivo tem mil metros quadrados e propõe um percurso, conforme explica o comunicado da exposição, “simultaneamente cronológico e anacrónico, estabelecendo relações entre obras de diferentes períodos para pôr em evidência ressonâncias formais, simbólicas ou conceptuais entre as artes visuais e a criação de moda”. Às vezes há um elemento que sobressai, como a utilização de penas, tanto na arte como na moda, ou do azul e branco, ou da filigrana, ou das pregas. Por vezes há uma cor que surge em ambos os universos, como o verde Nilo, ou ainda o dourado – símbolo de riqueza desde o início dos tempos.

Eloy Martínez explica que a relação entre a moda e a arte é, de facto, uma via de dois sentidos: “A moda vai buscar inspiração à arte e fica a dever-lhe a permanência no tempo. Não saberíamos o que se usava no século XV se não tivéssemos as pinturas de Carpaccio, pois todos aqueles trajes desapareceram por causa da humidade, dos desastres naturais, e afins. As peças que temos e que estão em melhor estado são do século XVIII em diante. Não há muita moda anterior a essa altura. É graças à escultura, à pintura, e a peças arqueológicas que conhecemos a moda de períodos anteriores”.

Vestido e capa de Alexander McQueen para Givenchy; A Virgem e o Menino de Jan Gossaert.
Vestido de Josep Font para Del Pozo; Prato fundo com azul e romãs em movimento de Iznik; Vaso de Irão, período safávida. Foto: © Jon Cazenave

Encontramos inúmeros exemplos desta dualidade nesta exposição. Logo no início, vemos um vestido império de John Galliano para Givenchy, que parece ter saltado do quadro que o acompanha, uma pintura de Sir Thomas Lawrence, o retrato de Lady Elizabeth Conyngham, num caso claro de inspiração. Por outro lado, um pouco mais à frente temos uma pintura de Frans Hals, onde se vê alguém com uma gorgeira, aquela famosa gola de rufos, que se usava nos séculos XVI e XVII e que se não fosse pelas pinturas, talvez o seu conhecimento da sua existência não tivesse chegado aos nossos dias. 

A título de curiosidade, Eloy Martínez conta que esta gola não era usada apenas por questões estéticas, mas para sinalizar um estatuto social elevado. Regra geral, a gola era acompanhada também de punhos brancos. Como tal, só alguém que não trabalhasse conseguia manter a alvura destes acessórios, caso contrário, haveria manchas de suor na gola e de sujidade nos punhos. É daí, de resto, que vem a expressão white collar worker (trabalhadores de colarinho branco), para quem tem empregos de escritório, por oposição a blue collar worker (trabalhadores de colarinho azul), para pessoas com trabalhos braçais e que, portanto, precisam de colarinhos azuis, que ajudem a disfarçar os sinais do seu esforço físico.

Esta é uma exposição com diversas camadas e que pode ser apreciada a vários níveis. Para um conhecedor de arte, será interessante perceber até que ponto a moda sempre se inspirou na pintura e noutras formas de arte. Para o apreciador de moda, será surpreendente descobrir que tudo o que alguma vez foi feito com o vestuário, foi feito antes pela arte. Já os ávidos consumidores de revistas de moda, das aparições nas red carpets e da cultura popular, conseguirão, com os seus conhecimentos, retirar outras camadas de significado. Uma vez que, para além de serem capazes de identificar o vestido de Audrey Hepburn de que falámos há pouco, vão também reconhecer, de imediato, o lindíssimo vestido de Sarah Burton, com um delicado bordado floral, que Anne Hathaway usou na capa da Vogue norte-americana. 

Vestido e capa de Alexander McQueen para Givenchy; A Virgem e o Menino de Jan Gossaert.
Vestido Daijing de Guo Pei Foto: Cortesia de SCAD

Estas, de resto, são as duas únicas menções a celebridades que Eloy Martínez faz porque, aqui, não é isso que importa. E, no entanto, os conhecedores saberão identificar onde mais esses dois universos se cruzam.

Não obstante, na opinião do curador, vale a pena referir o papel do cinema e de Hubert de Givenchy na difusão da moda. Em conversa com a Máxima sobre qual a sua criação favorita presente na exposição, Eloy Martínez diz que, mais do que uma peça de eleição, tem um designer de eleição: Hubert de Givenchy. “Aprendi tudo o que sei com ele. Trabalhei com Hubert durante oito anos, até à sua morte em 2018. Por isso, para mim, esta exposição é também uma homenagem a Hubert de Givenchy como mestre. Muitas pessoas dizem que o maior estilista é Cristóbal Balenciaga, mas, do meu ponto de vista, Hubert de Givenchy foi quem mais popularizou a alta-costura, graças ao cinema e a Audrey Hepburn, porque conseguiram levar a moda para a casa de milhões de pessoas em todo o mundo.”

Não foi, porém, a primeira vez que um duo designer/celebridade levou a moda além fronteiras. Disso mesmo nos dá conta o curador, quando paramos junto das criações de Charles Frederick Worth, designer inglês do século XIX. “A alta-costura começou em 1852, quando Worth decidiu começar a assinar as suas criações. Algo que justificou dizendo que o que fazia eram verdadeiras obras de arte, como tal, deviam ser assinadas, como as pinturas. É por culpa dele”, explica Martínez, “que hoje em dia a roupa vem com aquelas etiquetas enormes, que temos de cortar. Worth também foi o primeiro designer a obrigar as clientes a irem ao seu atelier, em vez de ir a casa delas. Foi a partir desse momento que o designer passou a ser o líder das criações. E foi também ele que criou duas coleções – primavera/verão e outono/inverno –, algo que ainda hoje fazemos. Aliás, a primeira passerelle de sempre foi em casa dele. A mulher de Worth, Marie Vernet, vestia as suas criações e andava para trás e para a frente no corredor. Foram os primeiros desfiles de moda”, conta. 

Vestido e capa de Alexander McQueen para Givenchy; A Virgem e o Menino de Jan Gossaert.
Vestido de Pierre Balmain e Jarro da dinastia Qing. Foto: © Jon Cazenave

Worth foi, de acordo com Eloy Martínez, quem criou o fenómeno dos influencers. Porquê? “Porque Worth percebeu que, se uma mulher realmente importante usasse as suas roupas, outras mulheres desejariam um vestido seu. Assim, conseguiu que a mulher do embaixador da Áustria e também a espanhola, Eugénia de Montijo, casada com Napoleão III, Imperador de França, se tornassem suas clientes e, quando estas duas senhoras iam à Ópera Garnier, em Paris, as outras mulheres viam os seus vestidos e diziam: ‘Também quero um Worth’. Este é o fenómeno da influenciadora.”

O curador chega mesmo a dizer que Eugénia de Montijo “foi a primeira influenciadora universal”. E explica porquê: “Quando Abraham Lincoln foi assassinado, morreu sem dinheiro porque a sua mulher gastou a sua fortuna a tentar copiar as roupas de Charles Frederick Worth que Eugénia de Montijo usava”.

Toda esta conversa teve lugar diante de um quadro de Carpaccio, ladeado por uma criação de Worth e por outra de Balenciaga. Dois “mestres da moda” que Eloy Martínez queria muito ver juntos nesta exposição. Se Worth teve toda a importância que já vimos, “Balenciaga, segundo outros grandes estilistas do século XX, era o melhor. Se Christian Dior disse que Balenciaga era o melhor, se Chanel, que não era muito boa a elogiar ninguém, disse que ele era o melhor, se Madame Grès, se todos os estilistas, incluindo Saint Laurent, disseram que Balenciaga era o melhor, não podemos duvidar que Balenciaga era o melhor”, diz o curador.

Vestido e capa de Alexander McQueen para Givenchy; A Virgem e o Menino de Jan Gossaert.
Vestido L’Écume des Jours de Jean Paul Gaultier e Pavão e Troféus de Caça de Jan Weenix. Foto: © Jon Cazenave

“E aqui temos estes dois homens, dois costureiros que mudaram para sempre a história da moda. O vosso guarda-roupa pertence-lhes,” diz, apontando para as jornalistas, “a maior parte dos cortes dos vestidos que vocês usam foi criada por Cristóbal Balenciaga. E tudo o que acontece na história da alta-costura atualmente foi criado por Charles Frederick Worth. Portanto, este diálogo entre os dois, com aquele Carpaccio, é único.”

A relação entre Worth e Eugénia de Montijo foi também uma de inovação e criatividade. Um pouco mais à frente, Eloy Martínez fala-nos disso mesmo, quando nos aproximamos de um jarro de porcelana da dinastia Qing, século XVIII, em diálogo com um vestido de Pierre Balmain de tule e seda, de 1960. O que estas duas peças têm em comum é a cor. Uma cor muito especial que, uma vez mais, Worth e Eugénia de Montijo, haviam de tornar famosa: o verde Nilo, um tom verde azulado com uma qualidade aquática, como convém.

“O verde do Nilo era uma cor muito popular no final do século XIX, porque quando Eugénia de Montijo acompanhou Napoleão III à inauguração do Canal do Suez, encomendou a Worth 150 vestidos. E, para alguns deles, o designer escolheu esta cor, que se tornou extremamente popular. Hoje em dia temos a cor Pantone, que muda todos os anos, pois bem, a cor Pantone daquela época, daquela década, devido a Eugénia de Montijo e a Worth, foi o verde do Nilo”, conta o curador.

Vestido e capa de Alexander McQueen para Givenchy; A Virgem e o Menino de Jan Gossaert.
Vestido de Alves/Gonçalves e O Espelho de Vénus de Sir Edward Burne-Jones. Foto: © Jon Cazenave

Continuamos o nosso percurso e paramos junto a uma criação de Vivienne Westwood que, apesar de ter nascido cerca 120 depois de Charles Frederick Worth, tinha algo em comum com ele. Sabe-se que ambos, sempre que podiam, passeavam pela National Gallery, em Londres, procurando na arte inspiração para as suas criações. Para Westwood, em particular, era muito importante ver como se vestiam os reis e rainhas da História. Encontramo-la aqui, com um vestido da sua colecção de 1998, Tied to the Mast, em diálogo com a pintura L’amour à l’épreuve, de 1760, da autoria de Pierre-Antoine Baudoin.

A exposição termina com uma enorme pintura de Edward Burne-Jones. Para trás ficaram pinturas de Rembrandt, Rubens, Renoir, van Dyck, Carpaccio, Degas, Gossaert, Gainsborough, Manet, uma escultura de Antonio Canova, objectos decorativos de autoria de Lalique, e muito mais. Tudo peças de Calouste Gulbenkian e a mulher, Nevarte Essayan, tinham na sua casa, porque, como diz o curador, “estas duas pessoas eram verdadeiras colecionadoras que amavam a beleza e que amavam a moda, também”. 

Através deste percurso, Eloy Martínez espera que os visitantes descubram que a alta-costura está presente na História da humanidade desde as primeiras civilizações. “Quando vemos os desenhos nos sarcófagos dos faraós, aquilo era alta-costura. Nefertiti é alta-costura. Quando vemos todos aqueles pequenos desenhos de deusas nas crateras gregas, o que elas têm vestido é alta-costura. No Quattrocento, quando vemos os quadros, os frescos em Florença, é alta-costura, e quando vemos os retratos na National Gallery em Londres ou no Museu do Prado, é alta-costura. Portanto, não é algo recente. Em cada civilização existia um Balenciaga, um McQueen ou uma Guo Pei. E gostava que o público percebesse que todas as civilizações adoravam moda.”

Vestido e capa de Alexander McQueen para Givenchy; A Virgem e o Menino de Jan Gossaert.
Coordenado feminino com vestido e bolero de Jan Taminiau e Paisagem num Parque de Eugène-Louis Lami Foto: © Jon Cazenave

Mas voltemos a O Espelho de Vénus, a pintura de Burne-Jones que encerra a exposição e onde vemos 10 deusas, razão pela qual Eloy Martínez fez questão de a emparelhar com 10 vestidos. “Para os pintores pré-rafaelitas [como é o caso de Burne-Jones], as pregas eram muito importantes porque captavam a estética dos impérios grego e romano. Por isso, temos aqui alguns dos criadores que, no século XX, trabalharam com pregas e fizeram as pregas mais bonitas de sempre. Temos Madame Grès, Azzedine Alaïa, Mariano Fortuny, Pedro Rodríguez, Hubert de Givenchy, Philippe Venet, entre outros.”

Para o curador, que foi próximo de Givenchy, era importante que também este último momento da exposição fosse uma homenagem ao designer. “A pessoa que viveu toda a sua vida ao lado de Hubert de Givenchy foi outro grande costureiro chamado Philippe Venet. Por isso, para mim, foi muito importante que nesta plataforma, com esta pintura, com estes nomes incríveis da alta-costura, eles estivessem juntos: Hubert de Givenchy e Philippe Venet.”

Onde? Galeria Principal da Fundação Calouste Gulbenkian. Horário? Das 10h às 18h de terça a sexta, e das 10h às 21 ao sábado e domingo, sendo que ao domingo, a partir das 14h as visitas são gratuitas. Para ver até 21 de junho.

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