No Studio Mirante, receber também é uma forma de criar
Até 24 de junho, o Studio Mirante mantém de portas abertas CONJUNTO, um projeto que nasceu em maio e que ganhou uma nova dimensão durante a Lisbon Design Week. Cruzando instalação, exposição, objeto, comida e encontro, a iniciativa continua agora a ocupar o atelier com uma proposta que coloca a partilha no centro da experiência.
Fundado em Lisboa por Margaux Carel e Clotilde de Kersauson, o Studio Mirante começou como atelier de cerâmica, mas rapidamente se transformou em algo mais amplo: um lugar de encontro. Um espaço que funciona simultaneamente como casa, residência artística, sala de exposição e mesa partilhada.
Quando lhes perguntamos se esta abertura foi algo planeado ou uma evolução natural do projeto, as fundadoras apontam para uma relação afetiva com o próprio espaço. “Surgiu de muitas coisas. Inicialmente do próprio espaço, pelo qual nos apaixonámos, e que tinha um enorme potencial. O seu primeiro propósito era ser um atelier, mas permitiu-nos criar uma casa. Primeiro para nós, mas depois rapidamente para os outros também”, explicam. “Lisboa é uma cidade que permite contacto e relações fáceis. Talvez este espaço seja um pouco à imagem desta cidade que nos acolheu, uma cidade que não apenas retira energia, mas que também dá.”
A palavra “casa” surge repetidamente ao longo da conversa e ajuda a compreender a filosofia do projeto. Não apenas enquanto espaço físico, mas enquanto estrutura de acolhimento. Num momento em que muitos espaços culturais privilegiam a circulação rápida e a experiência efémera, CONJUNTO propõe uma relação mais demorada com as obras e com os outros. “Queremos oferecer uma pausa. Um espaço acolhedor onde as pessoas se sintam bem-vindas para parar, trocar ideias e comunicar cara a cara”, dizem. “Coisas simples, na verdade, que parecemos estar a esquecer.”
A primeira camada visível de CONJUNTO é Pangea, projeto do duo Paris-Lisboa com a artista Laëtitia Rouget e da diretora criativa Colombine Jubert, que apresenta Dance with Chaos, uma instalação têxtil imersiva pintada e bordada à mão sobre seda. A peça ergue-se logo à entrada do espaço como uma espécie de abrigo poético. Mais do que uma obra para contemplar, funciona como um gesto de receção, acolhendo os visitantes e convidando-os a desacelerar antes de mergulharem no restante percurso.
A instalação sintetiza particularmente bem a ideia central do projeto. As próprias fundadoras sublinham esse aspeto quando a descrevem como “um exemplo perfeito” daquilo que procuram construir. “Dance with Chaos, a instalação têxtil de Pangea, é também um exemplo perfeito disso mesmo: uma tenda que funciona como abrigo. Ao criar um ambiente, estamos a ajudar as pessoas a experienciar as obras de uma forma diferente. Estamos a abrir a porta ao nosso mundo.”
Mas talvez um dos gestos mais interessantes de CONJUNTO aconteça nos louceiros indianos espalhados pelo atelier. A exposição coletiva ocupa estes objetos domésticos para apresentar obras autobiográficas de artistas convidados, entre eles Claire Duport, Dani Morla, Felipa Almeida, G. Binsky, Marisa Ferra, Marta Cypel, Nine D’Urso e RG Hand Painted Porcelain.
Há aqui um deslocamento de contexto particularmente interessante. Objetos tradicionalmente associados ao quotidiano e à organização da vida doméstica tornam-se dispositivos expositivos para memórias, narrativas e gestos artísticos. Aquilo que normalmente serve para guardar passa a servir para revelar. O que pertence à esfera privada transforma-se em narrativa pública, sem perder a intimidade da sua origem.
A escolha do louceiro não é inocente. Presença recorrente em cozinhas indianas, este sistema de armazenamento em aço inoxidável está associado a ideias de durabilidade, reutilização e cuidado. Ao integrá-lo na exposição, o Studio Mirante reforça uma das ideias centrais do projeto: a de que a casa e os seus objetos podem ser também lugares de memória, expressão artística e encontro.
Essa atenção ao espaço doméstico atravessa todo o projeto. Durante a Lisbon Design Week, entre 27 e 31 de maio, CONJUNTO ganhou uma nova dimensão quando o Studio Mirante se transformou temporariamente numa cantina para receber uma série de almoços partilhados. Em torno da mesma mesa reuniram-se desconhecidos, artistas, designers, curadores, cozinheiros e amigos. Mais do que um evento paralelo, estes encontros funcionaram como uma extensão natural da exposição: as conversas continuavam aquilo que os objetos começavam.
O projeto parece, assim, propor uma alternativa ao formato tradicional de exposição. Em vez de apresentar a arte como algo distante ou exclusivamente contemplativo, aproxima-a da experiência quotidiana e da convivência. Quando lhes perguntamos sobre esta dimensão mais íntima do projeto, as fundadoras não escondem o entusiasmo: “Queremos partilhar a nossa paixão por criar e juntar pessoas! E dar alegria! E parece estar a funcionar! A nossa linguagem vai ganhando forma à medida que o tempo passa e que novos encontros acontecem.”
E acrescentam: “Acho que estamos a tentar estabelecer uma nova forma de apresentar artistas, uma forma mais íntima.”
A ideia de sororidade atravessa inevitavelmente todo o projeto, desde as colaborações artísticas até aos encontros à mesa. No entanto, Margaux Carel e Clotilde de Kersauson preferem descrevê-la como algo que emerge naturalmente da forma como habitam e pensam o espaço. “Não foi algo pensado como um projeto em si. Acho que as mulheres têm uma capacidade de criar casas, e tanto eu como a Margaux gostamos muito desse processo.”
Apesar disso, recusam uma leitura exclusiva ou fechada. “Trabalhamos com homens e mulheres da mesma forma, mas este projeto em particular tem um toque muito feminino. A casa, a comida, a mesa, a partilha!”
Tudo isto ajuda a compreender porque é que CONJUNTO resiste a classificações simples. Apesar de reunir exposição, instalação, design, cerâmica e gastronomia, o projeto parece menos interessado em disciplinas do que em relações. Em vez de separar o gesto artístico do gesto doméstico, propõe uma continuidade entre ambos. Receber alguém, preparar uma refeição, expor uma obra ou iniciar uma conversa tornam-se expressões diferentes da mesma vontade de criar proximidade. “Tudo junto! CONJUNTO!”, resumem as fundadoras.
Uma frase simples que talvez explique melhor do que qualquer manifesto a ambição deste projeto: transformar um atelier num lugar onde a arte não se limita a ser observada, mas também vivida em comunidade.
"CONJUNTO" e a instalação têxtil "Dance with Chaos", de Pangea, permanecem patentes no Studio Mirante (Rua Mirante 28, Lisboa) até 24 de junho. As visitas podem ser agendadas através do site ou Instagram do espaço.
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