Pode o champanhe dialogar com a Arte? Em França descobrimos que sim

Começou um novo capítulo na história da Ruinart. Património, arte e natureza encontram-se agora num edifício minimalista assinado pelo arquiteto japonês Sou Fujimoto. A Máxima visitou o novo polo cultural de Reims, em França.

Marilyn Monroe e homem celebram com champanhe Ruinart em Reims, França Foto: Getty Images
02 de fevereiro de 2026 às 15:53 Tiago Manaia
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Frente à Catedral de Notre-Dame de Reims ergue-se uma estátua de Joana d’Arc. Foi aqui que a jovem de cabelos curtos guiou Carlos VII à sua coroação em 1429, insuflando coragem a uma França então em guerra. A espada desta estátua, levantada, parece lembrar-nos que nada de grande nasce sem alguém primeiro acreditar. Olhamos para ela e surgem-nos imagens de Milla Jovovich, a atriz de Kiev tem uma trajetória de filmes americanos. Milla encarnou Joana no auge da sua carreira, o realizador era Luc Besson. O filme estreou nos cinemas em 1999. Recentemente, Rosalía homenageou também a Donzela de Orleães no álbum de originais Lux. Em Jeanne canta uma mulher feita de beleza e resistência. É impressionante perceber como o mito de tal figura histórica conseguiu atravessar séculos, inspirando ainda hoje.

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Estamos a 45 minutos de Paris. A cidade na região de Champagne é pacata. Ruas limpas, Galeries Lafayette e lojas da Fnac cheias de jovens universitários dão vida aos boulevards de forma dinâmica, relativizam o inverno que se impôs nas conversas dos portugueses que nos rodeiam. Somos uma comitiva de jornalistas com o mesmo objetivo: visitar a “morada do champanhe”.

É-nos dito em voz alta um nome de rua em francês: “4 Rue des Crayères”. Tem o seu significado. No Hexágono é extremamente comum citar moradas quando estas se tornam míticas: o “30 Avenue Montaigne” é associado à Dior em Paris e o “31 Rue Cambon” sugere de imediato os ateliers e a loja da Chanel, também na Cidade Luz. Coco Chanel tinha duas frases célebres sobre a bebida que nos fez viajar até Reims. Dizia: “Só bebo champanhe em duas ocasiões, quando estou apaixonada e quando não estou.” E acrescentava no seu estilo hedonista: “O champanhe é o único vinho capaz de deixar uma mulher bonita depois de o beber.” Quantos golos serão precisos para a beleza que se procura no século XXI?

Champanhe Ruinart celebra arte e património em novo espaço cultural minimalista em Reims, França Foto: Chloé Le Reste

Dialogar com a natureza

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Saímos do carro de vidros opacos que nos levou ao coração da Ruinart. O motorista diz-nos que em Reims a chuva cai muitas vezes, quase 159 dias por ano. Por vezes discreta, mas persistente, lava o solo como quem apaga uma fotografia antiga. Há uma metáfora óbvia com as bolhas desta bebida: na euforia que são capazes de provocar, parecem apagar momentaneamente quaisquer mágoas. Marilyn Monroe, figura emblemática de talento, alegria e sensibilidade, jurava começar todos os seus dias com uma flûte para aquecer o corpo. O champanhe tem uma aura parecida. A bebida é vista no mundo dos vinhos como uma joia do património francês.

Os dias de água e luz difusa em Reims conferem frescura e mineralidade às cuvées, lembrando que cada garrafa de champanhe é fruto da paciência do tempo e da generosidade do clima. É o que nos preparamos a descobrir ao entrar no universo da Ruinart, a prioridade aqui existe num diálogo com as mudanças climáticas do mundo atual. Tudo neste polo cultural evoca a natureza. O que temos de lhe devolver para que continue a surpreender-nos?

O percurso começa num corredor esculpido a evocar a memória do giz, uma caminhada minimalista que nos conduz até ao Pavilhão Nicolas Ruinart. Chama-se chemin des crayères. O paisagista Christophe Gautrand explica que o seu projeto para o 4 Rue des Crayères partiu do respeito pela paisagem existente, em especial pela área arborizada, que procurou preservar e regenerar. O jardim foi pensado como um percurso sensorial, a ser descoberto gradualmente, conciliando a dimensão produtiva do espaço com a sua abertura ao público.

Corredores da entrada do percurso Chemin des Crayères Foto: Raul Cabrera

Logo à entrada, uma bandeira do artista britânico Marcus Coates muda diariamente. Tem uma frase escrita inspirada numa observação sua da natureza. Marcus cria a partir do humano e do sobrenatural numa conversa infinita e com inúmeras leituras possíveis. A sua bandeira diz-nos que no 4 Rue des Crayères os objetos se agitam ao ritmo do mundo.

Uma guia de sotaque latino começa então a explicar-nos o que acontece à nossa volta. Fala connosco numa mistura de idiomas. É teatral. As suas frases dão um lado ficcional à nossa visita.

O arquiteto japonês Sou Fujimoto desenhou o Pavilhão Nicolas Ruinart usando pedra clara, madeira e vidro. O edifício é um espelho da própria Maison Ruinart: ela é herdeira de um savoir-faire ancestral, evocado pela pedra da construção em tons de champanhe, e simultaneamente virada para o futuro, visível no desenho audaz do telhado que se curva na direção do céu. Inspirado nas caves de giz e no movimento das bolhas de champagne, o arquiteto privilegiou linhas curvas e uma assimetria subtil. Sou Fujimoto foi um dos arquitetos convidados pela Serpentine Gallery de Londres a criar um pavilhão efémero nos seus jardins. Era uma miragem essa obra sua de 2013. O seu diálogo com a natureza tem sido constante.

Foto: Raul Cabrera 1 de 2 / Pavilhão Nicolas Ruinart - Fujimoto
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Foto: Raul Cabrera 2 de 2 / Pavilhão Nicolas Ruinart

No interior do pavilhão, o espaço é amplo. Foi organizado pelo designer Gwenaël Nicolas em diferentes ambientes, entre os quais se encontra o Bar by Ruinart. Um sem-fim de objetos e edições limitadas de garrafas estão à venda. Em algumas detetamos a intervenção de artistas como o irónico e audaz David Shrigley. O pavilhão esconde ainda uma cave refrigerada. Descemos a ouvir a nossa guia de sotaque incandescente, ela mostra-nos onde repousam cuvées exclusivas do 4 Rue des Crayères, são a assinatura enológica da Ruinart. De repente ficamos sonhadores. Temos nas mãos garrafas que duplicam a nossa existência, devolvem-nos uma noção de passado num edifício onde nos sentimos definitivamente no futuro.

Foto: Raul Cabrera 1 de 2 / Bar By Ruinart
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Foto: Raul Cabrera 2 de 2 / Bar By Ruinart

As caves onde o champanhe respira

No pátio principal, Christophe Gautrand reinterpretou o jardim formal francês. As linhas retas evocam as vinhas e as paisagens da região. Aqui estão cerca de vinte esculturas e instalações. As obras revelam-se pouco a pouco, ao longo de um passadiço elevado em madeira, que se desdobra em pequenos refúgios verdes e múltiplos pontos de vista. A árvore do camaronense Pascale Marthine Tayou ergue ramos de bronze onde estão pousadas esferas coloridas, como ovos que flutuam. Cada esfera evoca as uvas da vinha, transformando a escultura numa celebração da cor e da forma. Há também uma figura contemplativa imaginada pelo artista espanhol Jaume Plensa: um monge, numa referência a Dom Thierry Ruinart. Foi ele quem pressentiu o futuro do champagne e transmitiu ao sobrinho o segredo das bolhas que mudariam a história. Foi assim que Nicolas Ruinart fundou, em 1729, a mais antiga Maison de champanhe do mundo. Feita de letras e símbolos que se entrelaçam na forma humana, a escultura é uma meditação visual sobre cultura, linguagem e tradição.

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Foto: Mathieu Bonnevie 1 de 2 / Árvore com esferas coloridas
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Foto: Raul Cabrera 2 de 2 / Jardim dos Traços Franceses

Antes de descermos às famosas caves de giz, a nossa guia aproxima-nos do olhar uma garrafa original do século XVIII. Nos edifícios antigos da Ruinart o peso misterioso da História ganha as conversas do nosso grupo de visitantes. Podíamos estar num conto de Émile Zola, onde os dramas são rematados pela luz esperançosa da aurora. Mas a nossa guia leva-nos na direção oposta, é no escuro que se esconde a magia da Ruinart, e entre relatos de uma vivacidade cinematográfica, somos levados por escadas e corredores extensos que nos mergulham num sobsolo gigantesco.

Estamos nas célebres caves de giz. O tom das vozes baixou. Quase ninguém fala. Descobrimos uma rede de galerias com oito quilómetros, ligando cerca de vinte antigas pedreiras romanas. Chamam-se crayères. São perfeitas para o envelhecimento do champanhe. Há centenas de garrafas viradas para o chão. O champanhe fica aqui às vezes uma década até entrar em cena.

Durante a Primeira Guerra Mundial, quando Reims foi bombardeada durante mais de mil dias, estas galerias transformaram-se numa cidade subterrânea. Improvisavam-se camas, cozinhas e até capelas - na Ruinart rezou-se.

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Foto: Chloé Le Reste 1 de 2 / Cave de Giz
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Foto: Chloé Le Reste 2 de 2 / Cave de Giz

Hoje, nas galerias maiores, há arte contemporânea no meio das garrafas

Chorals, de Julian Charrière, devolve aos corredores de giz a memória de um passado longínquo. Nestas galerias houve mar há milhares de anos. A instalação de Julian mistura água, som e silêncio. A obra do brasileiro Vik Muniz surge no fundo de um longo corredor: uma parede de garrafas verdes iluminadas pelas sombras dos nossos corpos. Vik quis brincar com matéria, ilusão e talvez, com o nosso medo de estarmos debaixo da terra. No labirinto mineral encontramos ainda a instalação do duo Mouawad + Laurier. Um objeto gigantesco e angular que, ao ser ativado pela guia da nossa travessia, se move sozinho no escuro. Vasos de vidro transparente flutuam no espaço da galeria, como presenças etéreas de matéria e forma, chama-se Retour aux Sources. Voltamos à superfície.

Depois de ter tateado o passado de Reims (e o nosso também), bebemos a primeira flûte de champanhe Ruinart. Mais tarde voltamos à Catedral de Reims, onde Joana D’Arc ergue a espada de um feito que atravessou séculos. Lembramos o passado da cidade que, como o champanhe, o tempo tem transformado. As cidades não nos pertencem, nem tão pouco a matéria. A arte continua a ser o diálogo possível.

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