Roselyn Silva, cultura africana e o poder de reescrever a beleza: "Como designer, sou responsável por promover a diversidade, a inclusão e a consciência"
Nascida em São Tomé e Príncipe e criada em Portugal, Roselyn faz da moda um território de identidade, memória e afirmação cultural. Através da seleção cuidadosa de tecidos de forte carga simbólica o seu trabalho ultrapassa a dimensão estética para se tornar uma narrativa viva onde cada peça é uma história e cada padrão uma voz.
A escolha dos tecidos é uma das partes mais importantes do processo criativo. Gosto de me relacionar com a história e a cultura por trás de cada tecido. Pesam muito os fatores estéticos, mas também os emocionais e simbólicos. No caso dos tecidos africanos, os desenhos transmitem mensagens e contam histórias. Quero que cada peça conte uma história e transmita uma sensação, por isso escolho tecidos que me inspirem, que me transportem para algum lugar ou me façam sentir algo específico.
Acredito que trazer padrões africanos para a moda contemporânea é uma forma de celebrar a diversidade e de questionar os padrões de beleza tradicionais. Mostra que a beleza é plural, que existem muitas formas de ser belo e que a cultura africana tem muito a oferecer nesse sentido. É uma forma de valorizar as nossas raízes e de as trazer para o presente, de uma forma moderna e relevante.
Através das minhas criações, celebro uma beleza autêntica, uma beleza que vem de dentro e que é reforçada pela cultura e pela história. É uma forma de empoderar as pessoas que vestem as minhas peças, de as fazer sentir ligadas a algo maior, diria até, ligadas a um movimento. Quero que as pessoas se sintam confiantes e bonitas, que se reconheçam nas histórias que os tecidos contam.
O meu trabalho desafia a narrativa eurocêntrica ao trazer para a frente referências e estéticas que são muitas vezes marginalizadas ou ignoradas. Ao celebrar a cultura africana e ao usar esses tecidos de forma contemporânea, estou a dizer que a elegância e a sofisticação não são exclusivas de um certo tipo de estética ou de cultura. Quero mostrar que a beleza é diversa e que existem muitas formas de ser elegante e sofisticado.
O equilíbrio entre respeitar a herança cultural dos tecidos e dar-lhes um look moderno está em respeitar a essência do tecido e da cultura de onde ele vem, mas ao mesmo tempo, permitir-me reinterpretá-lo de uma forma que seja autêntica e pessoal. Como mulher africana, sei que tenho essa autoridade. Não quero simplesmente copiar ou reproduzir, quero criar algo novo e relevante, que faça sentido hoje, mas que também honre a tradição e a história.
A moda tem um poder incrível de influenciar e de moldar percepções. Como designer, sinto uma grande responsabilidade em usar esse poder para promover a diversidade, a inclusão e a consciência. Quero contribuir para um mundo onde a beleza seja mais acessível, mais diversa e mais inclusiva, e onde as pessoas se sintam representadas e valorizadas. É um papel importante e é algo que me motiva a continuar a criar. Tenho a plena consciência que o meu trabalho fez mudanças muito positivas na indústria da moda em Portugal.