O nosso website armazena cookies no seu equipamento que são utilizados para assegurar funcionalidades que lhe permitem uma melhor experiência de navegação e utilização. Ao prosseguir com a navegação está a consentir a sua utilização. Para saber mais sobre cookies ou para os desativar consulte a Politica de Cookies Medialivre

Máxima

Padrões de Beleza

"Crescer com esta mancha mesmo no meio do rosto influenciou tudo. Via-a como um alvo a abater"

Como pode uma marca de nascença moldar a forma como nos vemos ao espelho - e no mundo? Raquel Luís viveu a vida toda com olhares, comentários e perguntas. Hoje responde com certezas.

Raquel Luís fala de autoestima e da marca de nascença no rosto
Raquel Luís fala de autoestima e da marca de nascença no rosto Foto: DR
10 de abril de 2026 às 11:54 Raquel Luís

A minha marca de nascença tem o nome de angioma, conhecida também como “mancha do vinho do Porto”. É uma mancha de nascença que resulta no agrupamento de vasos sanguíneos, no meu caso, de forma superficial.

Não tenho um número na minha cabeça de quando comecei a ter consciência da marca, mas leva-me até ao infantário, onde não tenho memórias negativas, mas lembro-me da mãe de um colega meu ter manchas iguais numa das mãos. Lembro-me de ter consciência dessa marca comum. Acho que só percebi realmente esta diferença quando entrei na escola, no contacto com outros miúdos e com uma maior consciência da minha imagem.

Crescer com esta mancha mesmo no meio do rosto influenciou tudo. Ao longo da infância nem sempre teve importância para mim, não definiu a forma como me via nem como me relacionava com os outros. Acho que foi a partir da adolescência que se tornou num ponto central. Começámos a querer pertencer, a comparar, a querer ser as mais bonitas, as mais incríveis. Acho que, de uma forma esquizofrénica, nos queremos destacar mas ser iguais aos outros.

Raquel Luís fala de autoestima e da marca de nascença no rosto
Raquel Luís fala sobre autoestima e aceitação da sua marca de nascença Foto: DR

Os olhares, os comentários e as perguntas marcaram o meu crescimento. Até hoje, na verdade. Mas se na adolescência e enquanto jovem adulta me causava constrangimento e morria de infelicidade, hoje em dia consigo lidar com os olhares dos mais novos que ficam meio congelados a tentar processar, e com as perguntas que vão desde a curiosidade pura até à inconveniência. Lembro-me de algumas situações desagradáveis, mas até hoje as que me lembro mais foram as que saíram da norma - as boas.

Como a filha de um colega de trabalho, na altura com uns 6 anos talvez - eu teria 20 e muitos -, que depois de quase um dia de trabalho a fazer desenhos ao meu lado me pergunta o que é isto na cara. Eu tento explicar de forma muito simples e ela, sempre com um sorriso no rosto, remata: “eu gosto, é cor de rosa!”. Isto é lindo! Ou de, logo no início de uma amizade na escola – com uns 12 anos –, me ter cruzado com miúdos mais velhos, escola nova, que começaram a fazer observações tontas sobre a minha mancha e a minha amiga me ter defendido com unhas e dentes, indiferente a tudo o resto. Ainda hoje somos amigas e é uma das minhas madrinhas de casamento.

Ainda assim, comecei a querer esconder esta mancha muito cedo. Quando comecei a fazer tratamentos laser com uns 11 anos – de uma forma experimental e muito dolorosa –, o médico que me seguia na altura sugeriu uns cremes com cor que podiam resultar bem. Na verdade, só abriram a porta a que me quisesse começar a maquilhar muito cedo na tentativa de uniformizar o rosto. Começou aí uma viagem que durou muitos anos, sempre na procura dos melhores corretores, das melhores bases de maquilhagem, e uma prisão onde entrava desde que acordava até ir para a cama. Apesar de não haver maquilhagem que consiga camuflar uma mancha com esta coloração sem que pareça que estou a usar uma máscara de betão, na minha cabeça, a maquilhagem tornava-me mais igual. Era uma barreira entre a pele e o exterior. Não a fazia desaparecer mas tornava-a menos presente.

A construção da autoestima é um trabalho que deve ser começado logo na infância. Através de reforços positivos, conhecer o nosso valor, não padronizar. No meu caso, e acredito que com a melhor das intenções, ter começado a procurar soluções para o “problema” tão cedo só contribuiu para que visse esta diferença como isso mesmo: um problema a eliminar. E, portanto, não aprendi a gostar particularmente dela, via-a sim como um alvo a abater. Por muito feliz que estivesse, bastava um olhar ou um comentário maldoso para me destruir.

Raquel Luís fala de autoestima e da marca de nascença no rosto
Raquel Luís Foto: DR

Não nos podemos esquecer de que, além de todas as pessoas mais próximas que desempenham ou desempenharam papéis importantes no nosso crescimento, todo o mundo que nos rodeia também tem uma enorme influência sobre a forma como o vemos, mas também como nos vemos a nós próprios. O acesso às revistas, às redes sociais, aos blogs, à imprensa de todo o mundo, fez com que me cruzasse com outros tipos de estética, de linguagem, de consciência. Fez-me questionar os cânones. Em 2016 vi a exposição de uma fotógrafa australiana – In This Skin – que retratava pessoas de todo o mundo com este tipo de marcas de nascença. Uma delas, vocalista de uma banda indie australiana, tinha quase metade do corpo cor de rosa e referia numa entrevista que “além de adorar todo o espectro de cor desta mancha, também serve de barreira protetora contra pessoas intolerantes e pouco gentis”. Isto é poderoso. Colou-se a mim. Foram pequenos, mas enormes, contactos que tiveram impacto em mim. Em determinada altura, o algoritmo do Instagram fez com que me cruzasse com a página pessoal de uma italiana que tinha uma mancha igualzinha à minha. Quando publicava fotografias maquilhada, a mancha ganhava um tom acinzentado que detestava e quando aparecia mais natural eu achava lindo! Até que parei para pensar: “espera lá, se isto vale para ela…”. O que determinou definitivamente o deixar de me maquilhar foi o período da pandemia. Andar de máscara e maquilhagem deste tipo simplesmente deixou de ser compatível. E depois habituei-me. A mim. E comecei a gostar.

Já fiz as pazes com esta mancha. Hoje em dia gosto mesmo dela – há uns anos até decidi fazer uma tatuagem no pulso, exatamente da mesma cor, em forma de um coração em ponto cruz. Na minha despedida de solteira, na praia, todas as minhas amigas pintaram um coração igual no mesmo sítio, foi lindo! Acabei por casar sem maquilhar a mancha, porque se não a escondo no dia a dia, não fazia sentido escondê-la no casamento. E senti-me otimamente! A minha maquilhadora adorou a ideia e decidimos reforçar o blush no lado oposto do rosto para harmonizar os tons, não esconder.

Raquel Luís fala de autoestima e da marca de nascença no rosto
Raquel no casamento Foto: DR

A minha mancha ensinou-me a ser mais empática, acho. A ter uma maior sensibilidade em relação à diferença. Também me ensinou que ao longo da vida temos de estar presentes para quem precisa e gosta de nós, a elogiar.

Acho que a sociedade tem sempre dificuldade em lidar com diferenças, mas também acho que nos últimos anos se fez um grande caminho em relação a isso. As marcas também começaram a perceber que as mulheres, apesar de aspirarem a formas ideais, não se identificam com elas. Não vivem nelas. E por isso começaram a usar isto. Esta globalização que vivemos trouxe isso de bom. Contacto com muitas realidades e menos fantasias. Para quem consegue filtrar, claro.

</div>

</aside>

As Mais Lidas