Encontrar o primeiro cabelo branco é, quase sempre, uma experiência que deixa uma pessoa desanimada. Haverá alguém na história da humanidade que tenha celebrado o primeiro cabelo branco? É possível, mas fará bem viver com tamanho optimismo tóxico? Provavelmente, não. E, embora esse evento não signifique, necessariamente, que a porta para a terceira idade se está a abrir – afinal, toda a gente tem uma amiga cujo cabelo começou a ficar branco ainda na casa dos 20 – e, não obstante o valoroso combate contra o idadismo, ver o primeiro cabelo branco é quase como fitar um relógio cujo ponteiro dos segundos começou a andar subitamente mais depressa. Ora, sucede que um estudo recente vem dizer que esse momento pode não ser tão irrevogável quanto se pensava.
Uma investigação levada a cabo pela Universidade da Columbia, nos Estados Unidos, demonstrou que, nas circunstâncias certas, é possível, sim, que os cabelos brancos voltem a crescer pigmentados – principalmente nos casos em que o embranquecimento é decorrente de fases agudas de stress. Se, tal como esta jornalista, já encontrou um cabelo às riscas, como se pertencesse a um bicho selvagem guedelhudo, com um pedaço com cor seguido de um pedaço branco, seguido de um pedaço com cor e assim sucessivamente, é muito provável que esta nova conclusão não a surpreenda.
Os especialistas envolvidos no estudo desenvolveram uma forma inovadora de analisar os padrões de pigmentação capilar, que consistia em digitalizar os fios de cabelo individuais com uma resolução tão elevada que foi possível mapear, aproximadamente, uma hora de crescimento de cada vez. Como o cabelo cresce cerca de um centímetro por mês, cada segmento corresponde a um período específico da vida da pessoa. Consequentemente, os investigadores cruzaram os dados desse mapeamento com os diários de stress dos participantes. Ao comparar a cor ao longo do fio com acontecimentos da vida dessas pessoas, foi possível relacionar alterações na pigmentação com períodos de maior ou menor stress.
Ou seja, embora o desenvolvimento de cabelos brancos faça parte do processo normal de envelhecimento, os especialistas observaram que alguns fios recuperaram espontaneamente a pigmentação. Este fenómeno foi documentado em vários participantes, sobretudo em pessoas relativamente jovens. Em diversos casos, os fios começaram a perder pigmento durante períodos de elevado stress psicológico. Quando esse stress diminuiu, alguns dos cabelos que tinham ficado brancos voltaram a escurecer. Num dos casos descritos, um homem começou a ficar com cabelos brancos durante um período de forte pressão profissional e, depois de tirar cerca de duas semanas de férias, os fios que estavam a crescer voltaram a produzir pigmento, coincidindo com uma redução acentuada do nível de stress relatado.
A janela de reversão, porém, é real, mas finita. O estudo descobriu que pode ocorrer em apenas três a sete dias, com uma mediana de cerca de três meses – mas apenas antes de o fio ultrapassar o seu ponto de inflexão biológico. Uma vez ultrapassado este limite, a reversão deixa de ser possível. Quer isto dizer que quando o envelhecimento dos folículos atinge um determinado ponto, a perda de pigmento torna-se permanente. Além disso, é mais provável em pessoas que ainda não têm uma grande percentagem de cabelos brancos. Curiosamente, a repigmentação dos cabelos brancos “ocorre no mesmo período de tempo e, pelo menos, tão rapidamente como o próprio processo de envelhecimento”, pode ler-se no estudo.
Na conclusão do documento publicado, os investigadores explicam o seguinte: “Utilizando este método, demonstrámos que os cabelos brancos/grisalhos recuperam naturalmente a pigmentação, independentemente do sexo, etnia, idade e região do corpo, definindo quantitativamente a reversibilidade do branqueamento em humanos”.
Embora os resultados sejam animadores, a verdade é que o estudo contou apenas com 14 participantes – sete homens e sete mulheres –, com uma idade média de 35 anos (desvio-padrão de 13 anos). Não obstante, tendo em conta a ligação que faz entre o cabelo branco e o stress e a janela mediana de reversão de três meses, vale a pena, no mínimo, começar a espaçar melhor as férias. Talvez não seja má ideia aproveitar os feriados para tirar uns 10 ou 12 dias a cada trimestre. Mal, não faz.