Estes podem muito bem ser os sapatos mais desejados do verão
O balletcore não vai a lado nenhum. A Birkenstock e a Repetto acabam de provar que conforto e elegância podem caminhar lado a lado.
A expressão “mulheres reais” é perigosa e traiçoeira. Implica uma superioridade invisível por parte de algumas mulheres (as ditas “reais”) em detrimento de outras (as supostamente “não-reais”), o que vai contra o próprio argumento que inicialmente quer defender - que todas as mulheres, mesmo mesmo todas, contam. Só que a História mostra-nos que nem sempre é assim, que por descuido ou por desgraça tendemos a destacar umas e a negligenciar outras, provocando a necessidade de realçar os feitos e as glórias de cada grupo. Posto isto, as “mulheres reais” aqui mencionadas são aquelas que, à baila do desmazelo e do preconceito, nos habituámos a ignorar nas últimas décadas: as que não seguiram as regras, as que não subiram ao altar nem tiveram filhos, as que assumiram as rugas, as que ousaram exibir corpos diferentes, as que disseram não; “mulheres reais”, as que abraçam falhas e imperfeições, as que enfrentam as controvérsias, as que insistem, uma e outra vez, na procura de uma felicidade escrita no singular, as que não receiam fazer ouvir a sua voz. As que ocupam espaço e que fazem moça, porque a sua presença é inquietante e inesquecível. Foram elas as protagonistas do último desfile da Chanel, relativo à Alta-Costura Outono/Inverno 2026, à semelhança do que tem acontecido desde que Matthieu Blazy assumiu o cargo de diretor criativo da maison parisiense - mulheres que carregam histórias e segredos muito mais valiosos que os sumptuosos casacos de tweed que envergam.
É impossível ficar indiferente à revolução silenciosa que Blazy está a operar na Chanel. Ignorando, por momentos, as propostas que imaginou, e às quais deu vida, com a ajuda dos vários ateliers da marca - as sedas leves e transparentes, as silhuetas fluídas e soltas, as musselinas em tons nostálgicos (lilás, menta), os sapatos cobertos por flores trepadeiras -, não há como desconsiderar o poder da narrativa que parece estar a ser contada desde o número 31 da Rue Cambon. Em vez de nomes com milhões de seguidores e alto impacto mediático, o designer prefere que as suas roupas, quando vistas pela primeira vez, sejam entendidas num contexto real, vestidas por “mulheres reais” - mesmo que o cenário em que são apresentadas pareça saído de um conto de fadas. Até agora, nenhuma das protagonistas dos seus desfiles foi uma figura-chave da indústria, uma supermodelo dos anos noventa ou uma new face saída do TikTok. Pelo contrário.
Em outubro passado, escolheu Awar Odhiang para encerrar o seu début. O momento tornou-se viral não só pelo sucesso da coleção como pela alegria e emoção demonstradas pela modelo canadiana de origem sudanesa, algo pouco habitual numa indústria habituada a semblantes neutros. Meses depois, foi a vez da (até então) desconhecida Bhavitha Mandava abrir a coleção Métiers d’Art, em Nova Iorque, catapultando-a imediatamente para o sucesso - a ela e às suas origens indianas.
Já este ano, em janeiro, o designer surpreendeu ao conceder a Stephanie Cavalli, que os internautas apenas conseguiam descrever como “uma modelo na casa dos quarenta”, o primeiro look da Alta-Costura Primavera/Verão. Laura Ponte, manequim espanhola, também brilhou. Um casting pouco comum, se pensarmos que tanto Stephanie (50 anos) como Laura (53 anos) foram apenas duas das mulheres maduras que fizeram parte do elenco do desfile. Uma opção que, percebe-se agora, é muito mais do que o tokenismo woke que afeta outras marcas. Matthieu Blazy pretende pegar na quota de modelos com idade X e transformá-la no veículo que comunica a sua visão para a Chanel. Há meses, explicava ao The New York Times que as modelos mais velhas “dão uma dimensão completamente diferente às roupas.”
Nos bastidores daquele primeiro desfile de Alta-Costura, em janeiro, Blazy desvendava a magia dessas “mulheres reais”: “Elas têm vida; já viram o mundo.” Esta é uma espécie de declaração de intenções (não oficial) do criador franco-belga para a marca, a quem se destina e o que pretende fazer com ela, “nomeadamente, libertá-la de velhos constrangimentos”, escrevia Vanessa Friedman no mesmo artigo. “Afinal, Coco Chanel foi a designer que libertou as mulheres do espartilho. O Sr. Blazy está simplesmente a pegar nessa herança e a torná-la sua. De todas as formas possíveis.”
Por esta altura, o mundo (real e virtual) já viu e reviu o desfile Alta-Costura Outono/Inverno 2026 da Chanel, já dissecou como a magnificência do cenário contrastava com a riqueza dos detalhes - da banda sonora faziam parte excertos de uma performance da artista Jeanna Criscitiello sobre a identidade e os rituais femininos, obra que aconselhamos vivamente -, já comentou como (ainda) é estranho encontrar encontrar mulheres tão "reais" na passerelle, que se parecem com outras que fomos, somos e conhecemos. Mulheres de carne e osso, não particularmente bonitas mas invariavelmente belas, de cara lavada, com a maquilhagem e o cabelo que uma vida cheia, ocupada, permite fazer. Figuras que passeiam pelas ruas da cidade-luz com intenção e magnetismo, ignorando o valor da sua exótica carteira de pele e preferindo, em vez disso, focar-se no destino que as espera: uma esplanada ao final da tarde, um copo de vinho, uma boa conversa, um livro, uma peça de teatro. Quiçá as verdadeiras eleitas para seguir o legado de irreverência de Coco Chanel, que soube descomplicar o guarda-roupa feminino sem o tornar aborrecido e previsível.
E assim o segundo capítulo da Alta-Costura Chanel por Matthieu Blazy acrescentou uma nova página à lenda da sua fundadora. Por instantes, parecia que as curvas imortais de Elizabeth Taylor tinham descido dos céus para encerrar o desfile. Mas não. Aquele vestido preto - justo e decotado q.b., sofisticado e impossivelmente glamouroso, tão simples e intemporal como todos os vestidos pretos -, passeava-se no corpo de Carla Ciffoni, 34 anos, que desafiava as leis da gravidade com um look no make up make up e o cabelo apanhado, puxado para trás, comme il faut. A modelo argentina foi a escolhida para pôr um ponto final em Gaby and the Beanstalk (à letra, Gaby e o Pé de Feijão), a coleção que confirma o criador como um amante das mulheres maduras, com trajetórias de vida que não seguem o guião que a sociedade lhes impõe.
Citado pelo The Guardian, o designer justificou a opção de colocar um vestido preto, em vez do tradicional vestido de noiva, como grande protagonista do final do desfile: “Pareceu-me a forma certa de terminar a história, porque Gabrielle [Coco] nunca se casou”. E, num gesto de ironia que seria do agrado de mademoiselle, chamou-lhe “o vestido da vingança”, porque reescreve a história de uma mulher que, à semelhança de tantas outras, insistiu em escolher o seu próprio “Era uma vez…”. No conto de fadas de Blazy, Coco Chanel termina sozinha, feliz, e com um maravilhoso vestido preto.