Celebridades

O mundo era (muito) melhor com a Mariama. Memórias de amigos e colegas

O furacão Mariama passou depressa, mas iluminou as nossas vidas. Um cancro no estômago levou-a, demasiado cedo, demasiado depressa. Era a alegria e a generosidade personificada no meio da Moda portuguesa. Estamos todos órfãos e inconsoláveis, mas continuamos juntos e fortes, também graças a ela, que tinha o dom de elevar o nosso humor e o mundo nas suas mais pequenas coisas. Eis Mariama Barbosa recordada pelos seus amigos.

Mariama Barbosa na discoteca Lux, 2000
Mariama Barbosa na discoteca Lux, 2000 Foto: Crédito Luísa Ferreira / Arquivo Lux Frágil
29 de julho de 2022 Patrícia Barnabé

"Não sei que te diga, tudo parece pequeno", diz-nos Marta Duarte, ao início da tarde, uma das colegas e grandes amigas de Mariama Barbosa na agência de comunicação de Moda Showpress, de onde ela lançava chamas com o seu charme único e absoluto. Juntas, vimo-las dar sonoras gargalhadas e deixámo-nos contagiar. Todo o meio da Moda está de luto, e até o público mais vasto – que Mariama conquistou nos últimos anos através da televisão -, porque por onde passava, Mariama não deixava nada na mesma, fazia todos sentirem-se melhores.

Mariama Barbosa
Mariama Barbosa Foto: Austeja Sciavinskaite

A Mariama era uma personalidade solar, amiga dos seus amigos, sempre, mas invulgarmente aberta ao outro. Tinha sempre um abraço, um comentário ou uma graça para todos e cada um de nós, estivesse ela à porta de um grande evento glamourosíssimo, a correr descabelada entre desfiles na ModaLisboa ou num press day atarefado e cheio de solicitações. Parava sempre para nos estender a mão, se não conseguisse um beijo, para deixar um abraço e sorrir com aquela alegria toda, ou tirar uma piada da cartola que se espalhava como purpurinas atiradas ao ar. Era um ser humano muito iluminado e generoso, raro não só nos meios mais competitivos como a Moda e a Televisão, onde mais brilhou. A Mariama tinha uma noção elevada e universal do amor que ela distribuiu generosamente.

Era humanista, gentil, universalista. E muito engraçada. Conseguiu sempre que o humor aplacasse a tristeza dos dias, mesmo a dos seus dias mais negros. Vestiu-se de forma gloriosa até quando os tratamentos lhe roubaram as curvas e desfilou a roupa dos designers portugueses com a sua graça incomparável. Ou até quando os tratamentos lhe roubaram o cabelo, já neste mês de julho, e ela reinventou-se com lenços e óculos de sol coloridos. Tinha um talento imenso para a vida, para a gargalhada. Até ao fim nos fez sorrir nas suas redes sociais onde pousava como uma modelo os looks dos seus amigos designers, ou quando nos contava, também pelas redes sociais, a dureza da sua luta contra um cancro no estômago que lhe foi diagnosticado este ano, em fevereiro, absolutamente fulminante. Deixa o seu pequeno Zé Maria.

Da alegria contagiante na ModaLisboa e na Showpress depressa passou para o outro lado da comunicação, tinha uma evidente costela de entretenimento. Teve um programa na rádio Oxigénio – onde já usava as famosas expressões que depois ficaram conhecidas na televisão como o "pau pau pau!" - passou pela Passadeira Vermelha da SIC e chegou a apresentar um programa na SIC Caras, Tesouras e Tesouros, onde elegia os melhores e os piores looks das celebridades e exercitou o seu olhar afiado e o seu grande sentido de humor. Fez a porta na discoteca Lux várias vezes, em inúmeras grandes festas, o designer Filipe Faísca lembra-se bem, foi ele que pensou os looks da maioria delas, e também vestia a Mariama: "Divertíamo-nos muito, ela era uma força da Natureza", é o pouco que nos consegue dizer, no seu jeito reservado e sempre carinhoso.

"Apesar de termos consciência da gravidade da situação, a notícia tomou-nos de uma forma arrasadora", diz à Máxima Eduarda Abbondanza, diretora e ponta de lança da ModaLisboa. "A Mariama era uma parte tão integral da equipa ModaLisboa que nos parece inconcebível pensar na sua ausência. Era, também, amiga — e os anos tornaram-na família. Estamos desolados. Todos os nossos sentimentos vão para os familiares e amigos nesta altura tão dilacerante." Um dos seus amigos nos bastidores da semana da Moda de Lisboa, Pedro Mendes, desculpa-se por poder parecer um pouco cliché, mas a Mariama era isto mesmo: "A Mariama era uma força da Natureza e uma alegria de viver que não conheci em mais ninguém. Quando se estava perto dela não havia tristeza, só boa disposição e sempre com uma palavra certa para me dizer. Um ser único e especial."

Dino Alves, amigo da Mariama de muitos e bons anos, foi dos primeiros a publicar sobre a sua morte. Uma grande perda ganha forma numa fotografia linda onde os dois se abraçam, muito miúdos, com Lisboa como cenário. "Neste preciso momento, parece que a minha alma partiu também", diz-nos quando lhe mandamos um abraço apertado. Pediu-nos um tempo para se recompor. Mais tarde, conta-nos que as suas histórias com a Mariama "são todas bonitas! Porque, na verdade, é apenas uma e não terá fim. Conhecemo-nos à porta do Majong, bar mítico do Bairro Alto, para mais de 25 anos. Ela diz que eu a descobri, eu digo que apenas tive o privilégio de ver nela primeiro o que todos os outros viram logo a seguir. A sua luz, energia, sentido de humor, carácter, e um carisma enorme, que poucos têm e que fizeram dela a mulher em que se tornou, fará sempre parte da minha vida e da minha história porque nunca a esquecerei."

Nuno Baltazar pertence ao núcleo duro de designers da ModaLisboa e, como Dino Alves, vem da escola do desfile-performance, também arrebata plateias. Partilha com a Máxima os momentos em que Mariama fazia magia: "A Mariama foi uma mulher que teve a grande coragem de ser alegre! Teve sempre o despudor de espalhar sorrisos por todos os que tiveram a sorte de a conhecer. Os dias em que convivíamos mais, nos bastidores da ModaLisboa, eram sempre dias mais difíceis para mim. E era a sua energia e sorriso que tantas vezes me davam força para transformar momentos de ansiedade em momentos felizes. Foi e será sempre uma inspiração." 

Luís Carvalho é de uma geração mais jovem a desfilar com circunstância na ModaLisboa, e foi bastante próximo de Mariama Barbosa, ela que alegrava quaisquer bastidores. "Achei que ela se ia safar, se havia alguém que tinha força para vencer isto, era ela". Uns bons minutos depois descreve-nos a Mariama como "a personificação da alegria e da gargalhada contagiante…", por isso diz ter "tantas histórias e memórias conjuntas que vou fazer questão de guardar no coração (mesmo as mais loucas)". E escreve-nos como se fosse para ela: "Vou sentir a tua falta, muita! Continuarei a fazer a festa como tu sempre nos ensinaste a fazer. A música escolhes tu… Até já meu amor."

A designer de Moda Alexandra Moura, uma das nossas mais geniais e internacionais, partilhava com Mariama um grande humanismo: "Todos somos unânimes sobre a Mariama, ela era uma força da Natureza, a alegria em pessoa. Foram vários os momentos das nossas vidas em que estivemos juntas, mas acho que o que mais me marca era a maluqueira que ela sempre teve com o meu filho, o Rodrigo, quando chegávamos e ela via o Rodrigo basicamente parava tudo e ela gritava: 'Rodrigoooo, veeeeem!' E tínhamos de ir atrás deles, eram muito amigos. Ele, quando hoje soube da notícia, desabou algum tempo... Sente já a saudade da "tia maluca", da tia Mariama que o fazia rir, que o fazia sentir-se sempre tão bem e tão acompanhado, nas muitas vezes em que estávamos em bastidores a trabalhar... A Mariama era assim um anjo! Hoje as palavras estão escassas, estamos ainda a processar. A Mariama vai fazer muita falta, a todos... e não sei muito mais o que dizer..." Depois acrescenta: "Acredito, porque é a minha verdade, e aquilo em que acredito, onde quer que esteja a Mariama estará muito perto de nós, temos só um véu a separar-nos, e ela vai energizar e contaminar o outro lado com a alegria e a energia dela. E um dia estaremos todos a abraçar-nos novamente."

Filipe Carriço, stylist, também conhecia Mariama Barbosa de uma vida inteira na Moda. Disse à Máxima: "Há poucas certezas que tenho na vida. Uma delas é a morte, outra é o caminho que percorremos até que ela chegue. A Mariama decidiu levar a vida com o sorriso estampado no rosto. Celebrou-a sempre, até ao final. Conheci-a há quase 25 anos. Privámos muito, e a vida acabou por nos guiar para outras direções. Todas são válidas. Todos os caminhos são válidos, desde que conscientes. A Mariama quer que a celebremos com muita alegria. Tenho a plena consciência disso. Mariama da vida toda. Era assim que eu a tratava. Ela ria, ria muito. Sempre. Até sempre, Mariama Barbosa."

Mariama Barbosa nasceu na Guiné Bissau no ano em que se fazia a revolução em Portugal, e deixou-nos hoje, ainda não tinha completado 48 anos. Deixou o seu país em criança, fugida à guerra, e aterrou em Portugal com apenas 5 anos. Deu-nos a todos uma enorme lição de alegria esperança. A amiga Marta Duarte não podia dizer melhor sobre o nosso furacão unânime: "A Mariama era única. Era uma mãe e uma mulher cheia de força. Atravessou um Oceano para nos ensinar a todos que só o amor interessa. Seremos sempre pau pau pau."

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