Celebridades

Dama de Ferro

Corajosa, direta, racional, fria. Qual o melhor epíteto que define Margaret Thatcher e aos quais ela nunca deu importância?
Por Máxima, 10.04.2013

“O homem forte do Reino Unido”, como resumiu o então presidente norte-americano Ronald Reagan. A que ajudou a desmantelar o comunismo. A que aprendeu em Oxford que o capitalismo não é (forçosamente) a lei da selva. A que desafiou convenções, quebrou barreiras de género, reinou num mundo de homens, e nem por isso é considerada um ícone feminista. Uma conservadora. Uma rebelde. Qual o epíteto que melhor serve Margaret Thatcher? O filme que traça o percurso da primeira mulher a liderar o partido conservador do Reino Unido e a assumir o cargo de primeira-ministra escolheu o mais lapidar e consensual dos que lhe são atribuídos: a dama de ferro.

Quando foi entronizada, Thatcher ainda não era a iron lady. A fotografia do coletivo mostra-a num fato de saia-casaco azul safira no centro de uma mancha cinzenta e masculina. Nem esse era o seu epíteto em 1971, quando, recentemente empossada ministra da Educação, concedeu uma entrevista ao jornal britânico The Guardian. Nela, respondeu defensivamente que os epítetos dizem mais de quem os põe do que daqueles a quem são atribuídos. E descreveu-se como uma mulher fundamentalmente interessada em educação, que tinha um carro em segunda mão e que não gastava dinheiro em peles. Porém, era já claro para essa jovem mulher, que enfrentava a fúria de um país por proibir a distribuição gratuita de leite nas escolas, que a tenacidade, a convicção e aquilo a que chamava coragem eram determinantes para implementar medidas.

Não está datada uma das frases mais famosas atribuídas a Thatcher: “O consenso é a ausência da liderança” (Consensus is the absence of leadership). Consenso para quê? Não é o exercício do poder sempre um gesto de profunda solidão? Nem está assinalado em nenhuma sequência cronológica o momento em que percebeu que podia ser uma líder. Ou que acreditou nas suas qualidades intrínsecas. No que fazia dela um caso tão particular que podia impor-se num universo hostil como era o político. Não se vislumbra esse momento, sobretudo se se pensa no seu percurso de típica mulher conservadora da Inglaterra do pós-Guerra. Como ela disse, um percurso de uma mulher como as outras.

Nasceu numa família de classe média. O pai tinha uma mercearia. Não uma grande mercearia. Vendiam, além de produtos frescos e outros bens alimentares, selos e tabaco. Algumas vezes ajudou ao balcão. Viviam numa casa de tijolo junto à linha do comboio. Teve uma educação protestante. Era dotada, ganhou uma bolsa. Usava uma retórica pomposa. E espirituosa.

Começou por estudar química em Oxford, trabalhou nessa área. Estudou depois Direito, casou com um diretor de uma companhia petrolífera (o difícil que deve ter sido ser o marido de Margaret Thatcher... Ainda hoje, o difícil que é ser o marido de Angela Merkel. Imagine-se há 50 anos!). Tiveram dois gémeos. Em 1959 foi eleita para a Câmara dos Comuns. Dois anos depois, tornou-se secretária de Estado para Assuntos Sociais e em 1971, aos 46 anos, foi nomeada ministra da Educação. Onde radica a sua ambição? Algures no tempo, Thatcher deve ter percebido que governar um país não podia ser muito diferente de governar uma casa. Uma frase sua diz mais ou menos isto.

Tinha uma voz esganiçada. Apesar das aulas de voz que recebeu quando se preparava para ser líder. O processo foi paulatino. “Se quiser mudar o país, lidere-o”, disse-lhe o então líder do partido, Edward Heath. Em 1975 assumiu a direção do Partido Conservador, em 1979 ganhou as eleições folgadamente e tornou-se primeira-ministra.

Era ao mesmo tempo polida e assustadora para os que a rodeavam. Diziam que nunca gritava. Não era preciso. Exigia com um olhar azul, gelado, penetrante. Em todo o caso, exibia rugas de apreensão. A testa tensa. Foi recebida pelo riso alarve, machista, paternalista dos homens que se sentavam na Câmara dos Comuns.

Mudou a face do país no espaço de 11 anos. É vista como salvadora ou destruidora. Conseguiu bons indicadores económicos, praticou de modo inflexível uma política de direita. Enfrentou milhares de trabalhadores e sindicatos que a acusavam de liderar o mais odiado governo que o país conheceu. Coabitou (aparentemente sem grande dificuldade) com a hostilidade dos que se sentem postos em causa. Fez do comunismo um ódio de estimação. Noutra das suas frases famosas garantia não existir sociedade: “O que há e sempre haverá são indivíduos.”

Em 1982 envolveu-se na Guerra das Malvinas, o que lhe deu um especial crédito junto do eleitorado. Reclamou para a Grã-Bretanha uma glória passada. Uma das cenas mais emblemáticas de A Dama de Ferro diz respeito a este episódio. Quando lhe perguntam se alguma vez esteve em guerra, responde que cada dia da sua vida havia representado uma batalha. Nesse ano foi reeleita por uma ampla margem de votos.

Quando é que os titãs se abatem? O declínio começou logo em 1987, quando a margem pela qual foi reeleita deixou de ser tão confortável. As crónicas do tempo indicam que abdicou do poder em favor de John Major em 1990, após conflito insanável no interior do seu partido. Renunciou em lágrimas. Em lágrimas?

A jornalista portuguesa Maria João Avillez contou numa entrevista o seu encontro com a então primeira-ministra. “Foi straight to the point às perguntas, aviou-me em 20 minutos, e não teve história. Não consigo recordar mais do que uma mulher muito eficaz, muito racional e muito fria. No entanto, foi uma formidável primeira-ministra. Um mês depois nascia o meu quarto filho. Era de tal maneira patente a minha gravidez, ela podia ter dito qualquer coisa: ‘É um menino ou uma menina? Quando é que nasce? Tem passado bem?’ Nada. Nunca me esqueci disso.”

Esta imagem, que coincide com a da dama de ferro que figura nos compêndios e na memória coletiva, torna mais difícil aceitar a suavidade com que é retratada no filme de Phyllida Lloyd. Mas a realizadora defende-se e diz que a ideia nunca foi fazer um filme político; antes, uma história shakespeariana sobre o poder e a perda de poder.

Margaret Thatcher tinha a idade da rainha, que lhe consagrou o título de baronesa. Retirou-se da vida pública há anos. A filha Carol, em cujas memórias se inspira o filme A Dama de Ferro, anunciou que sofre de demência.

Thatcher, morreu esta semana, aos 87 anos, na sequência de um acidente vascular cerebral.

Tags: inglaterra; londres; reino unido; margareth thatcher; política; partido conservador; oxford;
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