O nosso website armazena cookies no seu equipamento que são utilizados para assegurar funcionalidades que lhe permitem uma melhor experiência de navegação e utilização. Ao prosseguir com a navegação está a consentir a sua utilização. Para saber mais sobre cookies ou para os desativar consulte a Politica de Cookies Medialivre

Máxima

Celebridades

Bonnie Tyler morre aos 75 anos. "O lugar de uma mulher é em qualquer lugar onde ela quiser estar"

A frase vem de "Stronger Than a Man", canção do álbum "The Best Is Yet to Come" (2021), e resume a trajetória da artista galesa que transformou uma voz rouca, intensa e fora do molde numa das marcas mais reconhecíveis do pop-rock dos anos 80.

Bonnie Tyler
Bonnie Tyler Foto: Getty Images
09 de julho de 2026 às 14:08 Máxima Adicione como fonte preferencial no Google

Descoberta enquanto cantava Band of Gold, de Freda Payne, num clube em Swansea, Bonnie Tyler tinha apenas 25 anos quando Lost in France chegou ao top 10 britânico. O que poderia ter sido apenas o início promissor de mais uma cantora pop dos anos 70 tornou-se, com o tempo, numa carreira marcada por uma assinatura rara: uma voz rouca, dramática e inconfundível, capaz de transformar vulnerabilidade em força.

Numa indústria musical profundamente dominada por homens, sobretudo no universo do rock e do pop-rock das décadas de 1970 e 1980, Tyler ocupou um espaço que nem sempre parecia reservado às mulheres. Os produtores, compositores, empresários, donos de editoras e grandes figuras de palco eram, na sua maioria, homens. O próprio imaginário do rock estava ligado a uma ideia de masculinidade: guitarras elétricas, intensidade emocional, rebeldia, vozes ásperas e presença cénica poderosa. Bonnie Tyler entrou nesse território sem pedir licença e sem suavizar aquilo que a tornava diferente.

Depois de uma cirurgia aos nódulos nas cordas vocais, a sua voz tornou-se mais rouca, mais áspera, mais carregada de textura. Em vez de esconder essa transformação, Tyler fez dela a sua marca. A voz não soava delicada no sentido tradicional; soava vivida, rasgada, quase cinematográfica. E foi precisamente aí que esteve a sua força. Ela mostrou que uma mulher podia ser feminina sem ser frágil, intensa sem ser excessiva, dramática sem perder autoridade.

O auge dessa imagem chegou com Total Eclipse of the Heart, em 1983. Escrita e produzida por Jim Steinman, a canção tornou-se um enorme sucesso internacional e levou Tyler ao número um no Reino Unido. No mesmo ano, o álbum Faster Than the Speed of Night também chegou ao topo da tabela britânica. Era uma vitória comercial, como também simbólica: Tyler não estava apenas a cantar uma power ballad; estava a ocupar o centro de uma sonoridade grandiosa, teatral e quase operática, normalmente associada a vozes masculinas de rock.

Mais tarde, com Holding Out for a Hero, essa imagem tornou-se ainda mais clara. Bonnie Tyler não aparecia como figura secundária, musa ou adorno. Ela era a força motora da canção. A sua voz conduzia a narrativa, impunha a emoção e transformava cada refrão numa espécie de manifesto. Num tempo em que muitas mulheres na música eram pressionadas a caber em imagens mais dóceis, Tyler fez o contrário: cantou com fúria, urgência e presença.

A ligação ao tema das mulheres na música tornou-se ainda mais evidente quando participou na campanha #WeAreHere, associada ao Dia Internacional da Mulher. Ao comentar a frase “O lugar de uma mulher é onde ela quiser ocupar espaço”, Tyler recordou os primeiros anos da carreira, quando muitas vezes era a única mulher em todo o cartaz de um festival. Essa memória resume bem o peso da sua trajetória: Bonnie Tyler não foi apenas uma voz reconhecível; foi uma presença que abriu caminho num palco em que as mulheres nem sempre eram esperadas.

Na moda e na imagem, Tyler também desafiou expectativas. A sua aparência não seguia apenas uma feminilidade delicada ou discreta; pelo contrário, combinava glamour com uma estética rock. O couro, o cabelo volumoso, a maquilhagem forte e a presença dramática em palco criavam uma figura feminina poderosa, quase teatral. Numa indústria onde a força visual e sonora do rock era muitas vezes associada aos homens, Bonnie Tyler ocupou esse espaço sem suavizar a sua imagem. Mostrou que uma mulher podia ser feminina e, ao mesmo tempo, intensa, dominante e ligada à energia do rock.

Mesmo quando falava de maquilhagem e aparência, Tyler mostrava uma certa autonomia. Reconhecia que gostava de se arranjar, mas deixava claro que o fazia para si mesma. Esta atitude é importante porque transforma a moda e a imagem em escolha pessoal, não apenas em obrigação feminina. No seu caso, a aparência fazia parte da construção de uma presença artística forte.

Mulher galesa, de origem trabalhadora, transformou uma característica inesperada numa estética de poder e construiu uma carreira internacional nos seus próprios termos. Apelidada muitas vezes de “a Rod Stewart feminina”, Bonnie Tyler acabou por provar algo mais interessante do que qualquer comparação: que uma artista mulher podia liderar hinos de rock com a mesma intensidade, ambição e autoridade que qualquer homem.

Leia também
As Mais Lidas