Celebridades

As festas milionárias em Portugal nos anos 60

Durante uma semana, o muito dinheiro luziu em três festas memoráveis, contra o que era a norma provinciana em Portugal. Foram as festas milionárias, em setembro de 1968, oferecidas ao verdadeiro jet set internacional por um boliviano, um francês e, admiremo-nos, um português. Cinquenta anos depois fazemos-lhe um convite: entre nesses antros exclusivos de fama e de riqueza na companhia dos melhores cicerones e, no final, não diga adeus. Parta como uma estrela.
Por Helena Matos, 05.11.2019

Dia 2 de setembro. Segunda-feira. Vamos com Capucine ao jantar dos Duques de Cadaval, na Estalagem do Muchaxo, no Guincho.

Porquê Capucine?

Porque Capucine, nome por que ficou conhecida a modelo e atriz francesa Germaine Lefebvre, esteve no jantar oferecido pelos Duques de Cadaval, no Muchaxo. Na verdade, Capucine esteve também no almoço em casa de Maria Amélia de Mello, no baile Schlumberger e no arraial organizado por Manoel Vinhas na herdade deste industrial, no Zambujal, e no baile Patiño, aquele a que efetivamente não podia faltar.

Isto, porque Capucine chegara a Portugal na companhia de Doris Breyner, mulher do ator Yul Breyner e amiga pessoal de Beatriz Rivera Patiño, mulher de Atenor Patiño e anfitriã da festa de 6 de setembro, a primeira de todas.

Seguindo os passos daquela que para muitos (nomeadamente para a autora destas linhas) é a personagem mais elegante dos filmes da Pantera Cor-de-Rosa (se excluirmos a pantera ela mesma), no papel de Simone Clouseau, há que assinalar que Capucine só não compareceu no restrito jantar oferecido, em Queluz, a 5 de setembro, pela mulher de um general norte-americano.

Foi impossível apurar se tal ausência se explica por Capucine não ter sido convidada ou por, à semelhança dos restantes mortais, a atriz não ter o dom da ubiquidade (em alguma coisa aquele corpo esbelto coroado por uns olhos melancólicos e um perfil de estátua grega havia de ser igual aos demais).

Porque à hora da "reunião elegante, em Queluz" Capucine estava em Palmela, na Herdade do Zambujal.

É  certo que nesse dia 5 de setembro houve quem conseguisse estar em dois lugares ao mesmo tempo, como foi o caso de Raul Solnado que, apesar de à noite ter de subir ao palco do Teatro Variedades, conseguiu uma escassa hora para ir até ao Zambujal, à herdade de Manoel Vinhas de quem era muito amigo.

Já de Capucine sabemos que era amiga da Duquesa Claudine de Cadaval, casada com D. Jaime Álvares Pereira de Melo, décimo Duque de Cadaval. Mas podemos garantir que aquela tristeza no olhar que parecia colar-se-lhe à pele e que a atormentou toda a vida não se vislumbrou na semana de 2 a 6 de setembro de 1968.

Não só foi a todas as festas, almoços e jantares que lhe foi humanamente possível, como em todos eles dançou, conversou, comeu e bebeu. E assim, é na companhia de Capucine que a 2 de setembro entramos na Estalagem do Muchaxo, no Guincho.

Os Duques do Cadaval dão um jantar para 130 pessoas. Descobriram os jornalistas que, inicialmente, estavam previstos 120 convidados, mas acabaram por ter de acrescentar mais umas cadeiras (acontece a todos, não é?). A Duquesa brilha num vestido comprido cor-de-rosa forte. Um dos mais bem-dispostos no jantar era Henry Ford II que fez desta deslocação a Portugal uma espécie de "três em um": trata dos negócios da Ford, no nosso país, vai às festas todas e ainda aproveitará o baile Schlumberger para celebrar o seu 51º aniversário, pois 4 de setembro era o dia do seu nascimento.

Quanto a Capucine, terminado o jantar (composto de melão com presunto, mariscos sortidos, lagosta grelhada, robalo à Guincho e frango à Muchaxo) aproveitou para conversar, por exemplo, com André Gonçalves Pereira.

Já passava da uma hora da madrugada quando os últimos convidados dos Duques de Cadaval saíram do Muchaxo. Com Capucine a descansar no hotel é mais que tempo de regressarmos a casa porque o dia seguinte exige muita preparação.

Dia 3 de setembro. Terça-feira. Na companhia de Pierre Balmain e de Hubert Givenchy, no almoço de Maria Amélia de Mello.

As pessoas são comparativamente poucas: 80.

O ambiente, disseram os entendidos nestas coisas, é descontraído: o almoço é servido ao ar livre, mais precisamente ao lado da piscina existente na casa de Maria Amélia de Mello. Mas chegar-se a uma festa pela mão de Pierre Balmain e de Hubert Givenchy – a quem então se chamava os ditadores da Moda – não é fácil. A não ser, claro, para as suas clientes.

Como são muitas das mulheres que por estes dias de setembro de 1968 aterram no aeroporto de Lisboa, desembarcam de iates, em Cascais, ou constituem a estrita clientela portuguesa da Alta-Costura. Maria Amélia de Mello é uma delas.

Balmain e Givenchy (este último, amigo de Claudine de Cadaval) não são os únicos Costureiros que marcam presença nesta semana, em Portugal. Entre o Hotel Estoril-Sol e o iate de uns amigos, fundeado no Tejo, anda Marc Bohan, designer da Dior – provavelmente a Casa de Alta-Costura que mais vestidos vendeu para os bailes Schlumberger e Patiño. Valentino Garavani e M. Hermés também hão de chegar.

Mas a 3 de setembro, os bailes ainda não tiveram lugar. Logo, os parabéns durante o almoço oferecido por Maria Amélia de Mello não podem ir para o vestido branco com cintura alta que Givenchy fez para a grande amiga e confidente Audrey Hepburn levar à festa Patiño, nem para o vestido de organdi com um cinto de pedrarias, assinado por Pierre Balmain, que Mary Espírito Santo levou à festa dos Schlumberger.

O criativo para quem convergem as atenções neste almoço é Duarte Pinto Coelho, responsável pela decoração da casa de Maria Amélia de Mello e que há de deixar o seu cunho nas casas de alguns dos milionários convidados por Patiño e Schlumberger.

Mas enquanto na casa de Maria Amélia de Mello o almoço decorre, no aeroporto de Lisboa continuam a desembarcar celebridades: a princesa de Broglie, "jovem de irradiante simpatia", a duquesa de Argyll, apresentada como uma das mulheres mais ricas da Escócia, o príncipe San Guvsko que depois dos bailes "quer ir ao Algarve", a condessa Bernis Calviére que pretende ouvir Amália…  No aeroporto da Portela foi reservado um espaço para atender estes passageiros tão especiais. E também os repórteres que lhes procuram captar os sorrisos e as frases quase sempre breves que proferem enquanto esperam para poder seguir para o hotel.

Mas como em tudo na vida, também entre os milionários há diferenças. Não me estou a referir aos zeros das contas bancárias, mas sim ao momento da chegada. E, nessa matéria, nem o avião privado de Henry Ford II consegue competir com a elegância dos iates que vão fundeando na baía de Cascais.

Lá estão o Creoule, do armador Niarchos; o Cinderela, do milionário Goulandris; o Tritona, do conde Rossi de Montelera. Aliás, graças ao Conde Rossi de Montelera, acabaremos por ter de resolver um quebra-cabeças: como se recebia, nos anos 60 do século passado, a correspondência a bordo num iate? Teremos de confessar ao Conde Rossi de Montelera (o apelido Rossi provinha do nome do negócio da família: o Martini & Rossi) que não sabemos, tal como não sabiam os repórteres e o motorista de táxi a quem o Conde, mal pisou terra, perguntou onde se podia, em Lisboa, levantar a correspondência dirigida às embarcações.

Para não sairmos da área dos quebra-cabeças restritos aos milionários, aqui fica o que por este dia e nos seguintes vai atormentar Vala Byfield, então considerada uma das dez mulheres mais elegantes do mundo.

Byfield não tem dúvidas sobre o que vestirá na festa dos Schlumberger, mas quanto ao baile dos Patiño hesita entre usar uma criação de Jean Patou ou de Madame Grés. À partida, está inclinada para o vestido de Patou, mas não sabe se as joias de Van Cleff & Arpels combinam com o tecido bordado que Patou escolheu.

Realmente nós também não sabemos, mas talvez os plissados de Madame Grés combinem melhor com joias daqueles joalheiros. Ou com outras quaisquer. Com as nossas, por exemplo.

4 de setembro. Quarta-feira. Com Vera Lagoa na Festa Schlumberger, na Quinta do Vinagre.

Ir com Vera Lagoa (pseudónimo jornalístico da então cronista social Maria Armanda Falcão) onde quer que fosse podia tornar-se uma experiência inesquecível. A noite de 4 para 5 de setembro, na Quinta do Vinagre, não foi exceção. Quem senão Vera Lagoa para num ápice detetar que na festa estão três vestidos roxos iguais? E para dizer acerca de uma das convidadas mais famosas da festa, Gina Lollobrigida: "Estava pirosíssima. Sempre a achei assim, mas desta vez exorbitou. Parecia, como de costume, um reclame a produtos para o desenvolvimento de certas glândulas."

A própria anfitriã, Maria da Conceição Schlumberger, não escapa ao seu olhar crítico: o vestido azul de Givenchy "não a favorece muito" e o penteado, saído das mãos do grande Alexandre de Paris que veio propositadamente da capital francesa para a pentear, também "não a beneficiava" (olhando as fotografias, cinquenta anos, depois temos de admitir que Vera Lagoa estava carregada de razão!).

Vera Lagoa é desarmante na sua frontalidade. Sobre os outros e sobre si mesma: "Peguei nos meus 47 gramas de postiços e fui pentear-me à Odette, do Cabeleireiro Amaro, que por coincidência foi, até há pouco tempo, o cabeleireiro de Maria da Conceição Schlumberger."

Por aqueles dias estava instalada uma guerra entre os cabeleireiros portugueses e as estrelas internacionais como Alexandre, Claude Maxime e Laurent que foram convidados para pentear Conceição Schlumberger, as mulheres da família Patiño e algumas convidadas.

Os vinte quilos de postiços que constavam na bagagem de Laurent podem, hoje, causar estranheza, mas a explicação é simples: na época, os cabelos usavam-se curtos de dia e longos à noite. Um postiço e uma mão-cheia de ganchos resolviam o problema, mas temos de admitir que vinte quilos de postiços são muito postiços.

Para o baile Schlumberger, Vera Lagoa, além de se pentear na Odette, calçou-se na sapataria Lúcia, maquilhou-se na Loretti e vestiu-se na Carmen Modas, atelier que a par dos congéneres de Candidinha e de Ana Maravilhas, vai vestir muitas das convidadas portuguesas destas festas. (Há também quem, como uma das mulheres da família Rossi di Montelera – sim, da família daquele conde que andava, à beira Tejo, à procura da sua correspondência –  responda, formosa e  segura, que o seu vestido foi feito em casa).

Mas voltemos ao baile Schlumberger e façamos a pergunta óbvia para quem não anda nestas lides: quem são os Schlumberger? A melhor definição deu-a, na época, a revista Flama: "Pierre Schlumberger, passaporte francês, petróleo americano, mulher portuguesa." A mulher portuguesa é Maria da Conceição Diniz. Nasceu no Porto, em 1929. Era filha de uma alemã e de um português. Quando já divorciada de um primeiro e breve casamento se torna bolseira da Gulbenkian, visita vários museus no estrangeiro e é então que conhece Pierre Schlumberger. Casam-se, pouco depois. Ele, um magnata do petróleo, é mais velho do que ela quinze anos. Ela gosta de arte e de gastar muito dinheiro. Ele gosta dela. E por ela compra a Quinta do Vinagre, em Colares. Para a restaurar convidam o célebre arquiteto e decorador francês Pierre Barbe. Durante três anos, duzentos operários levantam soalhos, instalam aquecimento, renovam sistemas elétricos…

Em 1968,  Maria da Conceição e Pierre Schlumberger resolvem mostrar a sua casa portuguesa. Enviam 1200 convites. A 4 de setembro, a Quinta do Vinagre vai, finalmente, mostrar-se. Empregados trajados a rigor – com casacos azul-celeste e aplicações prateadas – , uma ceia servida pelo Hotel Ritz, duas orquestras (a de Milch Ryder e Los Argentinos), centenas de flores vindas da Holanda e milhares de folhas de plátano oriundas do Canadá para compor o grande plátano à entrada da quinta recebem os convidados que  começam a chegar antes da hora prevista: as 23 horas.

Quando saímos já o dia está a nascer. Mas ainda temos de fazer uma pergunta: quem era a mulher mais bem vestida da festa?

A resposta, como não podia deixar de ser, é de Vera Lagoa: a "mais, mais, mais foi Vala Byfield. Trazia um Armand preto e branco que foi o espanto da noite. As joias eram todas de Winston".

5 de setembro. Quinta-feira. Com Soraya, no Hotel Ritz, com Audrey Hepburn, na Herdade do Zambujal, ou com Gina Lollobrigida, na lota de Cascais

Após três dias nesta vida, já podemos ter opinião? Então é assim: preferimos ir à Herdade do Zambujal. A ex-imperatriz Soraya, repudiada pelo Xá da Pérsia por não conseguir ter filhos, mais os seus maravilhosos olhos tristes - serão verdes? Azuis-esmeralda? Cinzento? Os jornalistas divergem na cor, mas concordam que são tristes – é sem dúvida um chamariz para os repórteres, mas convenhamos que, como companhia, não é das mais animadas.

Para cúmulo, Soraya não sabe se no dia seguinte vai ou não ao baile Patiño – motivo que a trouxe a Portugal – porque, entretanto, na Pérsia ocorreu um sismo, há milhares de vítimas e de modo algum lhe agrada a possibilidade de ser fotografada a dançar enquanto a sua sucessora, Farah Diba, ao lado do Xá, dá sangue para os feridos e visita ruínas. Portanto, partamos com Audrey Hepburn para a Herdade do Zambujal, em Águas de Moura. Até podemos entrar nos reboques dos tratores, nos quais os convidados fazem uma parte do percurso, e assim já vamos com o corpo devidamente trepidado para entrarmos no arraial português que o empresário Manoel Vinhas montou na sua quinta. Há campinos e cavalos. Dançam os Pauliteiros de Miranda. Desfila a marcha da Mouraria. Tocam acordeonistas. Há barracas de tiro. Farturas. Fotógrafos de feira (lembram-se de Capucine? Pois acreditem ou não, fotografou-se no boneco do forcado).

E há tourada: Luis Miguel Dominguin mostra que ainda não esqueceu a arte do capote (parece, isso sim, que se esqueceu da mulher, Lucia Bosé). Samuel Lupi toureia a cavalo. Na assistência, Audrey Hepburn não tira os olhos da faena. A dado momento, uma convidada, a princesa Pauline Murat, salta para a arena e toureia com Dominguin (sim, ele continuava espantosamente sedutor mesmo – que os deuses lhe perdoem o mau gosto a vestir porque eu não consigo! – quando resolvia aparecer, como aconteceu no Zambujal, com um colar, para mais em cima de uma camisola de gola alta!)

O jantar foi servido na rua, em mesas cobertas com toalhas de riscado vermelho. Há sardinhas assadas e carapaus fritos. Peixinhos da horta, pastéis de bacalhau e cabritos assados no espeto. O vinho é de jarro. Ouvem-se as vozes de Ada de Castro e de Amália.

Os elogios chovem sobre Manoel Vinhas e a sua festa portuguesa. Correm explicações sobre a razão que o teria levado a organizar esta festa: murmura-se que o próprio Salazar teria mostrado interesse em que no meio dos festejos dos milionários estrangeiros houvesse uma presença portuguesa.

Para lá do "diz-que-disse", o maior elogio a esta festa chegará, no ano seguinte, quando for rodado 007 - Ao Serviço de Sua Majestade: será na Herdade do Zambujal que será rodada uma cena daquele filme de James Bond que numa cena seguinte casará, no Estoril, e pela única vez na sua vida, com a Condessa Teresa "Tracy" di Vicenzo que será assassinada, no próprio dia do casamento, a caminho da lua-de-mel, na Serra da Arrábida.

Voltando à festa, é claro que podíamos ter rumado para Cascais. Passávamos pela lota e íamos jantar com Gina Lollobrigida, a Princesa Ira de Furstenberg e Douglas Fairbanks no João Padeiro ou no Pescador. Quanto mais não fosse, descobriríamos como as lagostas realçam a fotogenia alegre das celebridades!

Quem sabe, até dávamos um salto ao Casino Estoril, recentemente remodelado, e que nesta semana de detembro tem um horário alargado pela presença de "numerosas personalidades estrangeiras" no nosso país e, claro, até podíamos ter vivido o momento em que o porteiro da boite Van Gogo não reconheceu Ira de Furstenberg que, furiosa, parte para Lisboa na companhia do seu milionário, o industrial italiano Paolo Marinotti. Se no percurso carregaram ou não no acelerador do bólide branco em que se deslocavam é que não sabemos porque, nesse momento, estamos em casa a descansar os pezinhos dos pulos que demos na Herdade do Zambujal. Porque amanhã há baile. E não é mais um baile. É o baile.

6 de setembro. Sexta-feira. Com os Nunos, em Alcoitão, na Festa Patiño.

Não, desta vez não entramos com os convidados. Entramos pela porta de serviço. Vamos na companhia de Nuno Vasco e de Nuno Rocha.

O primeiro faz de conta que é o empregado de mesa Eduardo Cardoso. O segundo conseguiu ser contratado para vigiar o sector elétrico. Na verdade, ambos são repórteres do vespertino Diário Popular. Entre Nuno Rocha a fazer de conta que percebe de fusíveis e Nuno Vasco de bandeja na mão, obviamente escolhemos o Nuno da bandeja. Ou seja, o Vasco.

O momento em que verdadeiramente percebemos no que nos estávamos a meter aconteceu quando, depois de termos jantado às sete e meia da tarde com os homens e com as mulheres que vão trabalhar, esta noite, na festa Patiño, ouvimos a voz imperativa do chefe Joaquim proferir para os mais de cem empregados de mesa: "Depressa, lá para cima e fardados!". Nuno Vasco correu, obviamente. (E se nos descobrem? Para que o disfarce fosse perfeito, Nuno Vasco cortou o cabelo, desfez-se da barba em forma de pêra, que na época se achava que dava um ar intelectual a qualquer um, mas que era incompatível com o que se esperava de um empregado de mesa mais a mais se lhe acontecia trabalhar sob as ordens do chefe Joaquim!).

Às 22 horas e 56 minutos, o chefe Joaquim avisa: faltam quatro minutos para os convidados entrarem. Agora é que não podemos fugir! Há que aguentar e esperar que ninguém nos reconheça.

Beatriz Patino, que a meio da tarde vislumbrámos na copa informando-se dos preparativos para a festa, espera, impecável, os seus 1500 convidados envergando um vestido Dior branco e dourado. Onde, horas antes, à volta do seu pescoço estava a gola de um casaquinho de malha amarelo, está agora um colar de diamantes. A seu lado, o marido, Antenor Patiño, o "rei do estanho", tem o ar de quem está a cumprir o sonho senão de uma vida, pelo menos de uma noite de verão. Tudo parece perfeito em Alcoitão. A Lua está cheia. A chegada das convidadas lembra um desfile de Alta- Costura: a cada mulher que passa sussurra-se o nome das marcas Givenchy, Jean Patou, Hermès, Lanvin, Nina Ricci, Dior, Valentino... Vera Lagoa, que nesta matéria é mais confiável que Nuno Vasco, relata que Valentino Garavani lhe confirmou ter assinado 35 vestidos para este baile.

Quanto a Vala Byfield constatamos, com contrariedade é certo, que deixou o vestido de Madame Grés no armário e trouxe o de Patou. Mas valha a verdade, o vestido é estupendo. E as joias? Sempre são de Van Kleff? Não. Entre o vestido ou as joias, Vala Byfield escolheu o vestido e veio sem joias, privilégio último de quem as tem. Mas deixemo-nos de cogitações: é preciso trabalhar. Foi para isso que aqui viemos, não foi? E assim lá vamos nós atrás de Nuno Vasco que circula, de bandeja na mão, entre os convidados que enchem a sala decorada em tons de verde e de vermelho. Atrás dele deambulamos pelos corredores e bastidores da festa e entramos na boite instalada numa gruta, onde ao som da orquestra de King Curtis, não para de dançar Gunther Sachs, o marido de Brigitte Bardot. Mas a loura com quem Gunther Sachs dança não é a Bardot...

Quando o dia começa a nascer é hora de servirmos o pequeno-almoço, junto da piscina. Mas antes que o Sol ilumine a Quinta de Alcoitão e faça cintilar as joias e os cristais, nós, quais Cinderela, temos de partir: chegou a hora de Nuno Vasco ir escrever a sua reportagem exclusiva. Não será o único a fazê-lo.

Em Alcoitão ainda não se sabe, mas nessa noite outro jornalista conseguiu  um exclusivo sensacional: é ele Manuel Figueira, chefe de redação de O Século. Na noite do baile Patiño, Manuel Figueira está em Lisboa, na zona do Hospital de São José. A dado momento, a chegada de carros de Estado ao hospital chama-lhe a atenção. Há algo de invulgar em todo aquele movimento.

Pouco depois, Manuel Figueira tem nas mãos o exclusivo que vai marcar esse dia e os seguintes: Salazar acabava de ser hospitalizado, após ter tombado de uma cadeira de repouso e de ter batido com a cabeça no chão. Face a tanto acontecimento, a tanto exclusivo, até me esqueço de umas contas que, qual problema da então escola primária, me atormentam desde que atrás de Nuno Vasco cheguei à quinta Patiño: quantas toneladas  de estanho serão necessárias, não propriamente para se ser considerado rei de tal minério, mas tão só para conseguir pagar uma festa assim?

8 de setembro. No final, fazemos as malas com Zsa Zsa Gabor

Nada de partidas discretas com sorrisos e muitos "Obrigado" e "Saudades" pronunciados com sotaques francês e inglês. Vamos partir com estardalhaço. Com voos anulados e remarcados. Declarações emotivas: "Não volto mais a Portugal!". Pares de estalos. Bagagens para cá e para lá. E contas por pagar. Ou seja, partimos com Zsa Zsa Gabor, protagonista do mais badalado dos escândalos desta semana. Entendamo-nos: todas as festas têm os seus escândalos. As suas histórias. Estas não foram exceção. Logo à partida, alguns convidados são um chamariz pelas suas circunstâncias pessoais do momento: o toureiro Luis Miguel Dominguin é um deles. Dominguin chega a Lisboa em plena e muito falada separação de Lucia Bosé, a actriz que largara o Cinema para casar com ele e, agora, farta de tantas traições o largara a ele, o Dominguin.

Para mais, Lucia Bosé mudara-se com os três filhos para casa de Pablo Picasso, grande amigo do casal, e declarava que nem em sonhos queria voltar a ver o toureiro à frente. Depois, claro, havia Gunther Sachs.

O rico herdeiro, fotógrafo e industrial está em Lisboa com uma "loura misteriosa". Tambe? se especula se irá ou não reatar com Soraya ou retornar para Brigitte Bardot.

A confirmar-se a hipótese Bardot irá ele recorrer de novo a um helicóptero para lançar milhares de pétalas de rosa sobre a casa dela em Saint Tropez?

No meio de tanta dúvida sobre a vida amorosa de Gunther Sachs, a única certeza que ele reitera é de natureza patrimonial: Gunther Sachs declara a sua intenção de comprar uma casa no Algarve. De resto, vários convidados dizem o mesmo e certamente não por acaso, nestes dias, os jornais enchem-se de anúncios em Inglês divulgando propriedades "very fruitfull and recreative" no Algarve e arredores de Lisboa.

Já em Português e para os portugueses, a publicidade centrava-se nas empresas portuguesas que tinham marcado presença nestas festas, muito particularmente no baile de Alcoitão em que fora dada preferência a tudo o que era nosso: "O multimilionário Antenor Patiño mandou que lhe fossem fornecidos pela Companhia União Fabril cerca de 3 mil metros de alcatifas em pura lã virgem"; "PROTOM Lda. projectou e executou o som de alta fidelidade na festa Patiño"; "Tubus, Construções Metálicas forneceu todas as estruturas metálicas e respetivas juntas para a Festa de Alcoitão" …

E, sem afiançar que tinham estado nas mesas dos Schlumberger ou dos Patiño, mas sugerindo, por associação, que qualquer um podia fazer uma festa em sua casa, várias marcas de champanhe garantiam cada uma delas ser a preferida "nas grandes festas".

Mas voltemos aos escândalos. Na verdade, também houve uma participação portuguesa nos escândalos destas festas ou, pelo menos, assim ficou gravado na memória daqueles que as viveram: nesses dias, por Lisboa, correu rápido o "diz-que-disse" sobre um destacado membro do empresariado português, de então, que fora surpreendido na sua viatura com uma convidada que se destacara pelo exotismo dos seus traços orientais e beleza dos seus saris.

Verdade? Talvez. Mas seja como for, nada dessas histórias vale a pena ser sequer contado, comparado com o estardalhaço armado por Zsa Zsa Gabor. A atriz viera ao baile Patiño e hospedou-se no Ritz.

A 8 de setembro avisa, no hotel, que fora convidada a instalar-se na casa do próprio Patiño. Deixa o Ritz. Manda buscar malas, bagagens e joias. No balcão do Ritz fica para pagar uma conta de nove contos. O hotel manda discretamente um seu funcionário em busca da famosa e truculenta atriz. Da casa Patiño informam que Zsa Zsa não está ali, nem se espera que venha a estar. O Estoril é o próximo local das buscas. E lá está Zsa Zsa, no Hotel Palácio. Perante a conta que o funcionário do Ritz lhe apresenta, Zsa Zsa responde na proporção dos cifrões: dá uma bofetada no dito funcionário e declara que, em Portugal,"são todos uns exploradores".

Face ao escândalo crescente, a embaixada norte-americana, em Lisboa, é chamada a intervir. O funcionário, talvez para colocar as bochechas a salvo, declara que não pode fazer nada e diz "Sou apenas um apaziguador!" (este homem acabou, certamente, diplomata no Médio Oriente!). Zsa Zsa não se dá por apaziguada e repete, alto e bom som, "Julguei que tinha tudo pago" ou, mais propriamente, pago por Patiño que, indiferente à birra de Zsa Zsa, faz saber a quem de direito que não paga estadias em hotéis aos seus convidados e muito menos às convidadas porque, nesse caso, deixavam de ser convidadas e passavam a ser designadas por um termo que nem na época, nem agora, é conveniente escrever.

Entretanto, as declarações de Zsa Zsa contra Portugal e as ameaças de processos cresciam tal como as suas faturas nos ditos hotéis: só no Hotel Palácio, onde Zsa Zsa se instalara depois de sair do Ritz, a conta já vai em sete contos…  Estava-se neste despropósito de contas por pagar e de declarações explosivas quando Teodoro dos Santos, dono do Estoril-Sol, convida Zsa Zsa a instalar-se numa suite daquele hotel. Não é mais uma hóspede, mas sim sua convidada até deixar Portugal.

O que acontece, finalmente, a 12 de Setembro pelas 13 horas 30 minutos num avião da Pan American World Airlines, vulgo Pan Am. A hotelaria portuguesa respirou de alívio e nós podemos, finalmente, voltar a casa que é como quem diz, ao ano de 2018.

Neste regresso à vida de todos os dias é fácil concluir que já não se fazem festas assim. Quero acreditar que fazem, ainda que sem a sofisticação, o requinte e a presença de um jet set que há muito deixou de existir. Só não nos deixam é espreitá-las deste modo. Muito discreto, como se nota…

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4 Comentários
Anónimo Isto sim, era o verdadeiro jet set e não as Lilis Caneças e os putos dos morangos com açucar. Este jet set já não existe em Portugal, o que anda por aí é pelintras a tentar comer á conta.
08.02.2019
Anónimo Tudo muito bonito, não ponho em causa, nem contesto, quem pode fazer festas que as faça, mas não nos esqueçamos que isto foi a fachada de um país pobre, com o povo à fome, atrasado, com baixa escolaridade, sem estado social e sem liberdade de expressão.
08.02.2019
Ana Amorim Comoveu-me este artigo .Primeiro, por estar tão bem escrito, e está tão bem, que quase se sente no ar o cheiro dos perfumes usados pelas famosas, quase se pode ouvir o barulho dos talheres e dos cristais entremeado pelo linguajar poliglota e pelo risos estrídulos. E quantos jornalistas temos de gabarito? Esta Senhora é-o, sem dúvida.
O meu falecido Pai, à data funcionário público, foi convidado para integrar a criadagem. que se desejava de confiança e referenciável.Ironia do destino, na empresa onde a minha falecida Mãe trabalhou foram feitas almofadas, cortinados, toalhas um sem número de costuras, e eu tenho ainda um pouco desse tecido : verde, vermelho e dourado com dois Pês interlaçados.
08.02.2019
Miguel Angelo Na Estalagem do Muchaxo fui a bastantes festas e a minha irmã dançou até com o Marcelo Caetano.......na altura sim, Portugal era um Pais bom e com segurança, depois a corja dita de esquerda conseguiu estragar tudo até hoje e dificilmente Portugal volta a ser um Pais respeitado e bom para se viver...
08.02.2019
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