O futuro das redes sociais: "O influenciador não sobreviverá se não for coerente"

Raquel Costa Gomes e Concha de Lima Mayer representam a nova vaga de criadoras de conteúdo que mantêm um pé firme na vida profissional fora do ecrã. Num tempo em que a influência já não exige pedestal, são prova de que a relevância também se faz do quotidiano.

Raquel Costa Gomes e Concha de Lima Mayer representam a nova geração de criadoras de conteúdo Foto: Luís Gala / MÁXIMA
13 de fevereiro de 2026 às 13:58 Safiya Ayoob

"In some ways you're just like all your friends, but on stage you're a star." A frase, retirada da canção Best of Both Worlds, tema de Hannah Montana, descrevia a vida dupla da personagem de Miley Cyrus - estudante comum de dia, estrela pop à noite - e regressou-me à memória quando Raquel Costa Gomes contou que, apesar da presença nas redes sociais, passa os dias a trabalhar numa agência que representa artistas. É uma vida equilibrada entre os bastidores da indústria e o feed do Instagram. Concha de Lima Mayer conhece bem essa dualidade: enquanto gere a comunicação de marcas de beleza, constrói online uma narrativa que mistura moda, crónicas do quotidiano e uma estética luminosa. Best of Both Worlds podia muito bem ser a banda sonora da vida de ambas.

Durante décadas, os ícones foram estrelas intocáveis de Hollywood ou da música: distantes, inalcançáveis. Hoje cabem no ecrã do telemóvel. As redes sociais transformaram a ideia de ícone, aproximando-o do público e tornando-o, paradoxalmente, mais humano, com todas as qualidades e defeitos que isso implica. "A premissa das redes é humanizar", diz Concha. "Qualquer pessoa pode tornar-se uma personalidade, partilhar experiências, criar ligações." Raquel reconhece as vantagens, mas admite saudades do mito: "Antes, os ícones eram inatingíveis. Hoje, conseguimos mandar-lhes mensagens - às vezes respondem. É bom, mas sinto falta daquela sensação de que havia algo intocável." Ambas descobriram cedo a moda como linguagem. Concha cresceu a ver That's So Raven, outra série da Disney, e via na personagem um reflexo do seu desejo de usar a roupa como forma de autoexpressão. Raquel recorda um livro oferecido pela tia, A Parisiense, que lhe abriu a porta para um universo de estilo que desconhecia. Essa intuição estética, somada à autenticidade e ao humor, foi conquistando audiências digitais: juntas somam mais de 125 mil seguidores.

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Raquel Costa Gomes e Concha de Lima Mayer representam a nova vaga de criadoras de conteúdo Foto: Luís Gala / MÁXIMA

Apesar de serem vistas como inspiração para quem as segue, ambas têm as suas próprias referências. Concha cita Emma Chamberlain, Alexa Chung ou Blanca Miró, mulheres que "usam as redes como veículo da criatividade e constroem narrativas alinhadas com as suas experiências". Raquel olha para outro tipo de icone: "Para mim, um ícone é quem marca um tempo pelos valores - como o Bob Marley, que apelava ao amor sem julgamentos." Entre criadoras digitais, Raquel destaca ainda Vicky Montanari, "que abriu caminho a muitas de nós".

São, de certo modo, as it girls que não estavam no guião. Não vivem de paparazzi à porta de restaurantes, mas os seus outfits já inspiraram compras impulsivas e discussões em caixas de comentários. Concha descreve o seu estilo como "espontâneo e intuitivo" - veste o que lhe faz sentido no momento, sem regras. Raquel, por sua vez, cita Fernando Pessoa para definir a forma como se apresenta:

"Sentir tudo de todas as maneiras." Entre camisas oversized e camadas de padrões improváveis, dão corpo a uma estética que não segue tendências - elas próprias as definem. Há nelas a leveza de quem gosta de roupa, mas não se leva demasiado a sério, e talvez seja isso que as torna tão relacionáveis.

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Raquel Costa Gomes e Concha de Lima Mayer representam nova vaga de criadoras Foto: Luís Gala / MÁXIMA

Mas, ao contrário da narrativa romântica do influencer a tempo inteiro, as duas mantêm empregos fixos. Para Concha, essa escolha foi libertadora: aprendeu a definir prioridades e a impor limites. "O meu foco é o trabalho corporativo; isso liberta-me da pressão de ter de estar sempre a produzir para as redes", explica. Raquel, que hoje trabalha sobretudo com artistas de comédia, vê nisso um antídoto para a ansiedade digital: "Ter um trabalho fora das redes mantém-me sã dentro delas. No fim do dia, tenho outro propósito além do Instagram."

Esse lado "duplo" dá-lhes outra credibilidade num universo em que a consistência é cada vez mais valorizada. Concha conta que o trabalho lhe ensinou disciplina e estratégia: é metódica nos conteúdos e recusa mensagens vazias. Raquel, depois de anos na rádio, traz para os vídeos uma energia de palco que se sente mesmo em reels de 15 segundos. Nenhuma parece obcecada com algoritmos, preocupam-se mais em preservar a voz própria. "O influenciador não sobreviverá se não for coerente entre o que diz e o que faz", resume Raquel.

Raquel Costa Gomes e Concha de Lima Mayer representam nova vaga de criadoras de conteúdo Foto: Luís Gala / MÁXIMA

Ao longo da nossa conversa, a ideia de ícone surge menos ligada à fama e mais aos valores. "É alguém que marca um tempo com base nos seus princípios", define Raquel. Concha acrescenta: "Por trás do que brilha estão pessoas; são elas que importam, as conexões que criam." Essa consciência molda também a forma como comunicam. Concha prefere ser vista como companhia: "Quero que a minha plataforma seja um lugar seguro e alegre, sem grandes pretensões." Raquel, por seu lado, procura inspirar: "Quero mostrar a meninas como eu que todos podemos ser tudo." Ambas acreditam que a superficialidade está a perder espaço e que só narrativas genuínas resistirão. "É possível manter relevância sem perder o core", sublinha Concha.

Para as gerações mais novas, a aura dos símbolos não vem de luzes de néones nem de capas de revista. Surge entre reuniões no Zoom e a pressa de editar um vídeo antes de jantar: Concha e Raquel não querem ser mitos: preferem ser gente - com trabalho das nove às cinco e, ainda assim, milhares de olhos a seguir-lhes os gestos. No fundo, continuam a viver the best of the bouth worlds - só que a rotina já não tem guião.

Raquel Costa Gomes e Concha de Lima Mayer representam a nova vaga de criadoras de conteúdo Foto: Luís Gala / MÁXIMA

Realização de Tita Mendes.

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Fotografia de Luís Gala.

Cabelos e Maquilhagem de Maria Cruz.

Assitente de realização: Mariana Santana.

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