Mulheres que deram o máximo. Eunice Muñoz: "Passei toda a minha vida à procura de um homem igual ao meu pai"

Antes de hashtags e manifestos virais, houve mulheres que abriram caminho com palavras firmes - esta rubrica recupera as suas entrevistas para a Máxima. Afinal, voltar ao passado é, também, um gesto de futuro.

Eunice Muñoz recorda o pai e a sua vida dedicada ao teatro, em entrevista Foto: Pedro Catarino
03 de fevereiro de 2026 às 11:29 Manuel Dias Coelho

Eunice Muñoz está sentada num sofá de veludo verde numa sala repleta de móveis, fotografias e pequenos objetos, na sua casa em Paço de Arcos. Foi a casa que encontrou há 23 anos num bairro que era então sossegado. Gostou dela e ficou. A casa, para Eunice, é o sítio onde se sente melhor. É, por assim dizer, uma espécie de paixão. E não há nada que a possa substituir. Recostada no sofá, na sala que fica ao fundo de um grande corredor de paredes altas e claras, também ele repleto de pequenos objectos, móveis e fotografias, ela admite sem hesitar, que se pode estar em casa de um filho ou de um grande amigo, mas desde que "se abra a porta de casa e se respire profundamente um ar que é só nosso, tudo é maravilhoso, mesmo, até, nos momentos difíceis".

Eunice vive num rés-do-chão muito alto, numa moradia grenat escuro de três andares, separada das restantes e, por isso, circundada de janelas, de vegetação descuidada e de uma ou outra árvore. Há um portão de ferro enferrujado que dá acesso à porta principal, antiga e de madeira, que ainda tem uma maçaneta prateada em forma de mão delicada de mulher, fechada sobre uma pequena bola, que dantes servia de batente e que as campainhas eléctricas tiraram o uso, mas não a beleza.

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A entrada, encimada por uma clara escada de madeira, é fresca e iluminada por uma grande clarabóia. O interior da casa é também fresco e iluminado. Quando Eunice nos guia, através do corredor, a sua figura recorta-se através da luz intensa que entra pelas janelas. E ela move-se com uma rapidez que permite guardar apenas na memória as roupas leves e largas, esvoaçando.

Senta-se, então, respirando fundo o ar da casa que é só dela.

Que perguntar a Eunice que não tenha sido já perguntado? Que escrever sobre Eunice que não tenha já sido escrito? Esta mulher, de tamanho incompativel com o talento, de cabelo grisalho, cortado como apetece no Verão e como convém para o personagem Estêvão Amarante que encarna magistralmente na revista Passa por Mim no Rossio, de olhar penetrante e de timbre de voz inigualável, ri amiúde e solta gargalhadas que queremos ouvir de novo. E quando recorda momentos da sua infância, imitando a voz das gentes alentejanas, sentimos a pele arrepiar só de pensar: "Agora, ela está a representar só para mim..."

MEMÓRIAS DE MENINA

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Eunice Muñoz vem de uma estirpe de artistas arrebatados e apaixonados. Os avós maternos, os Carmo, eram artistas de teatro ambulante e os avós paternos, os Muñoz, artistas de circo. Um dia, o avô Munõz que era espanhol e tinha o curso de violino do Conservatório de Madrid apaixonou-se por uma Cardinali que fazia volteio a cavalo no circo. E para estar perto dela foi tocar violino para essa grande arena. Quando estavam em Elvas não resistiu e raptou a muIher que amava. Casaram-se em Espanha. E é aqui que tudo começa. Em termos de paixão...

O avô Carmo era um veIho republicano que nunca quis que as mulheres da família partissem para Lisboa. A sua vida estava no Alentejo. Comprou lá uma casa. Em Amareleja. Hoje, nessa vila, há uma rua com o nome da sua filha mais famosa: Eunice Muñoz. Ela própria reconhece que o avô materno «tinha uma grande paixão» pela terra alentejana. Comprou a casa e fundou uma espécie de pequena companhia familiar: a Trupe Carmo. E foi quando a trupe passou por uma terra não marcada no mapa que os pais de Eunice se conheceram. Casaram. Ela nasceu, segunda filha, em Julho de 1928. Quando a planície alentejana está em fogo. Tudo isso explica Eunice: paixão, talento, itinerância, ardor.

Ela viveu e cresceu vendo a família representar. E os avós foram fundamentais. Sobretudo os maternos, com quem mais privou. A avó materna era uma mulher muito talentosa. E a mãe, Mimi Munöz, também o era. Com o olhar fixo num ponto da sala, Eunice fala-nos dela: "Sofreu um pouco pelo facto de ser minha mãe. Éramos ambas atrizes, mas eu acabei por ter uma carreira meteórica, ao passo que ela ficou um pouco na sombra. Era a mãe de Eunice Muñoz... Ela era, isso sim, uma atriz com muita qualidade."

Eunice conta que é da avó que se lembra no número de Estêvão Amarante que faz na revista do D. Maria II. Nesse número, Eunice canta um dos êxitos de «Pão-de-ló», uma outra revista em que ela contracenou com Amarante quando tinha 15 anos. Enquanto ajeita a almofada onde se apoia, Eunice Muñoz conta:

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"É curioso. Inspiro-me muito na minha avó para fazer de "Estêvão Amarante". Inspiro-me nas graças, nas atitudes e nos gestos dela. Fixei isso em criança e lembro-me de tudo como se fosse hoje. Ela era uma pessoa que me perturbava muito. Não me perguntem porquê... Não sei dizer. Era estranho. A minha avó era uma atriz muito especial. Tanto fazia drama como fazia farsa. Eu tanto me divertia com ela, como tinha de ir para casa, numa grande correria, ao colo de uma empregada, por não suportar certas peças mais dramáticas que ela representava. Eu ficava apavorada. Lembro-me perfeitamente... Uma das imagens que tenho da minha infância é essa: ir ao colo, num desassossego, e ouvir os gritos da minha avó quando ela entrava em dramas que metiam muitos gritos, aflições e tiros. Naquela época, e sobretudo na província, as peças eram muito do tipo "faca e alguidar". Muito dramático. E por eu ser criança, isso tudo tocava-me profundamente."

Outra imagem que também diz reter desses tempos de correrias e de gritos tem a ver com os largos desertos onde se faziam as feiras: "Era perturbante atravessar aqueles largos de feira desertos durante a noite. Era, acima de tudo, uma imagem extremamente melancólica. Para mim, as feiras ficaram sempre como um lado muito cheio de melancolia. Nós íamos aos lugares onde se faziam feiras, por haver mais gente. Mas aquele deserto à noite... Sem gente... Sem alegria... E eu apavorada com os gritos da minha avó. Essa solidão, esse deserto de gente, marcou-me de tal modo que durante muito tempo recusei-me a ir a feiras. Tinha ficado tão marcada. Uma feira quando está fechada é um pouco como um palco vazio. Sem ninguém. Uma feira é um sítio onde deve haver animação, vida e música. Quando isso não acontece, e o silêncio se repete, é absolutamente perturbador."

AS PRIMEIRAS ESTRELAS

Eunice sorri. Fala de si enquanto criança. Era uma miúda muito soturna. Nada simpática. Vivia num meio familiar muito fechado, apesar dos avós, dos pais e das tias serem atores e estarem, por isso, em contacto permanente com o público.

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A menina Eunice possuía já naquele tempo um sentido crítico muito apurado em relação à sua gente e à sua trupe. Um pouco a sério e um pouco por graça, pediam-lhe, quando ela ia nos seus seis a sete anos, para se sentar na plateia, durante os espectáculos, para no final dar o seu veredito: se tinha gostado ou não. E a opinião era dada com a maior das seriedades. Própria de uma menina "muito seca, muito pouco dada à ternura, mas a quem as pessoas achavam muita piada".

Admite ser uma mulher tímida. Quando Filipe La Féria a dirigiu, durante os ensaios de Passa por Mim no Rossio, no papel de Amarante - a primeira interpretação como travesti, na segunda revista da sua carreira -, no momento em que ele, Amarante, tem de dizer que trabaIhou também com Eunice Muñoz, a voz da atriz embargou-se. Custava-lhe falar de si, assim, à frente de toda a gente, ainda que na voz de um personagem. La Féria riu-se e comentou que nunca Ihe tinha passado pela cabeça que ela fosse uma mulher tímida. Soltando uma sonora gargalhada, Eunice respondeu-lhe: "Ora até que enfim que alguém me faz justiça!!..."

Mas do que Eunice gostava, verdadeiramente, nos seus tempos de menina, era de contar o dinheiro que os espectáculos rendiam. Logo que acabava a representação, o pai, que era o tesoureiro da trupe (e que foi o seu primeiro empresário até Eunice casar, cargo esse, desempenhado agora pelo filho António, de 34 anos) montava uma mesa no palco e ia buscar o produto da venda dos bilhetes para fazer as contas. Aí, a pequena Eunice não resistia: 

"Eu adorava contar dinheiro. "Ajudava" o meu pai a separá-lo, a contá-lo. Era assim uma espécie de Tio Patinhas. Ver aquele dinheiro todo em cima da mesa. Mexer nele. Era uma paixão. Mas depois passou-me. Como muitas outras paixões. Quem me conhece sabe que não sou agarrada ao dinheiro. Nunca tive o instinto de negociante, de ganhar, de fazer fortuna. Nessas coisas de negócios sou um desastre. Se alguma vez me metesse num, perdia de certeza. Oh, se perdia... A única coisa que realmente desejo é ter dinheiro suficiente para comprar um monte no Alentejo quando me retirar do Teatro. Se possível perto da minha terra natal. É o meu sonho."

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É, se a entendermos bem, uma outra paixão. Voltar às origens. A planície alentejana onde ela corria com o irmão Hernâni, um ano mais velho, acenando às pessoas que viajavam nos comboios. Deles ficou-lhe outra nostalgia: "Gostávamos muito de ver passar os comboios e de dizer adeus às pessoas. lamos por aqueles grandes campos a correr, a correr e a acenar. O comboio, para mim, estava ligado à cidade. Ligado a um sítio que eu nunca tinha ido. Era o desejo. Era o mistério. E esse sentimento nostalgico ficou comigo para sempre."

Mas qual foi o princípio de tudo? A primeira memória de Eunice? Ela hesita. Faz uma breve pausa. E decide-se: "Lembro-me perfeitamente das viagens noturnas da família, no Alentejo, em carros grandes puxados por cavalos. É a minha primeira lembrança. A minha mãe chegou a ficar surpreendida, porque eu tinha apenas dois anos! Recordo-me como se fosse hoje. Fiz a descrição completa à minha mãe: eu ia ao colo, junto das minhas tias, as charrettes puxadas a cavalo durante a noite. Era uma noite estrelada. E para uma criança, ver a noite, pela primeira vez, é algo inesquecível. Sobretudo se é estrelada. E só no campo se vêem noites assim... É impressionante. E foi por causa disso que eu nunca me esqueci. A noite no campo. O silêncio. As estrelas..."

TUDO COMEÇOU ASSIM

Ambiciosa. É coisa que jura não ser. Eunice Muñoz reconhece, agora, que o deveria ter sido. Que deveria ter lutado mais. Tudo o que lhe aconteceu na vida sucedeu de forma natural. Ela di-lo, convictamente. Nunca lutou para ter um papel ou uma oportunidade melhor no Teatro. Não nos deixa lugar para dúvidas: "As coisas vieram ter sempre comigo."

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Estreou-se, por assim dizer, na Trupe Carmo, aos cinco anos de idade. Cantava coisas simples, como Uma porta e uma janela, vestida com roupas acetinadas de tons garridos. Detestava.

Depois veio para a grande cidade. Para Lisboa. Quebrou uma tradição imposta pelo avô. Passou antes por Coimbra, onde completou a instrução primária. Na capital entrou para o Conservatório Nacional por vontade dos pais e também por exigência do Sindicato dos Artistas. Tinha catorze anos. Completou o curso aos dezassete. Foram seus professores, Assis Pacheco, Samuel Dinis, Maria Matos, Alves da Cunha e Carlos Santos.

Com dezassete anos já pisava os palcos com naturalidade. Foi uma fase de grande trabalho. Estudava, participava no filme Camões, e tinha duas sessões por dia no Teatro Variedades, numa peça com Vasco Santana e Mirita Casimiro.

Findara a era da Trupe Carmo. E começava, sem o saber, uma carreira fulgurante. Mas os primeiros tempos, no Alentejo, permanecem vivos na sua memória. É com um sorriso nostálgico que recorda a vez em que, numa terra qualquer, pediu água a alguém que perguntou com espanto: "Atão quem é esta rapariguinha?! Ah, esta rapariguinha é a filha daqueles palhacêros que estão ali a montar uma barraca... Atão toma lá água, coitadinha..."

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E diz, rindo e atirando a cabeça para trás, que lhe deram água, muito fresca, tirada de uma grande talha com um púcaro de barro. Entrou para o Teatro aos treze anos. Mas sem aquele prazer que se possa julgar. Sem grande paixão. Sales Ribeiro, o padrinho artístico, atuava na Trupe Carmo como convidado, e ouviu-a numas cantigas de Carmen Miranda e achou «que a ra-pariguinha tinha jeito». Falou dela a Amélia Rey Cola-ço. Da grande senhora do nosso Teatro, diz Eunice: "Foi a minha Mestra e a pessoa que confiou em mim e me deu as grandes oportunidades. Seguiu-se-lhe Francisco Ribeiro. Ele foi também muito importante para mim."

Estreia-se, a sério, com um pequeno papel na peça Vendaval, de Virgínia Victorino. Só entrou em primeiro ato. Era uma das alunas de um colégio de freiras. A grande estrela era, nessa peça, Maria Lalande. Foi em Novembro de 1941. O coração de Eunice fervilhava: "Senti medo só na primeira peça. No Vendaval. Parece que estou a ver aquele pano pesado a subir lenta-mente. Eu estava deitada porque a cena passava-se de noite num colégio, e por isso, fingíamos que estávamos a dormir. Nunca me esquecerei daquele pano pesadíssimo a subir. Foi para mim uma emoção tão forte que parece que ainda a sin-to. E já lá vão 50 anos..."

Aos quinze tem o primeiro papel importante. Foi-lhe dado por Amélia Rey Colaço e Robles Monteiro. Era a Maria, de Frei Luís de Sousa. Foi a primeira e única vez que interpretou um personagem de sua idade. Surge, então, a primeira grande paixão inconfessada de Eunice Muñoz por Raul de Carvalho que contracenava com ela nessa peça: "Ele foi, de facto, a minha primeiríssima paixão. Não me recordo de qualquer outra antes. É natural... Eu era, em miúda, muito antipática e por isso não devia atrair os rapazes. Imagine-se o que seria um rapazinho qualquer a olhar para mim. E logo para mim, uma grande trombuda. Que horror... Vi o Raul quando eu tinha treze anos. Ele nem reparava em mim. Mas eu achava-o tão bonito, com aquele cabelo em caracóis. Encontrei-o, no palco, pela primeira vez. Ensaiava-se o Vendaval. Ele lá estava, sentado e vestido com uma gabardina azul escura e com um lenço muito bonito ao pescoço. Fiquei atrapalhadíssima. A tremer. Até que ele disse, "Sim Senhor, estive a ver o seu trabalho e a menina tem muito jeito, tem muita habilidade. Sim senhor...". E eu ali, a olhar para ele, com cara de parva. Petrificada. Muda. Sem saber o que fazer..."

Muito mais tarde, já atriz consagrada, contou-lhe essa paixão. Ele ficou enternecido. Mas Eunice não se lembra de ter tido qualquer outra paixão que não tivesse confessado: "É estranho. Nunca pensei nisso: se confessei ou não. Mas eu era sempre tão apaixonada e tão espontânea que se isso acontecesse tenho a impressão que passava por cima de tudo e contava. Ai, se contava!!! E, depois, a paixão para mim está tão ligada à beleza. A paixão é um dos maiores objetos da minha atenção. Não se pode viver sem ela... Seja a paixão pelas pessoas, pelas coisas ou pelas causas. É o objeto do meu deslumbramento. Tal com o amor. E a amizade."

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Fala-se dessa forma de amor. Eunice diz que, como qualquer outro mortal, também tem amigos. E de longa data. Ainda que poucos. É rigorosa sobre a noção de amigo: "Acredito que se possa ter conhecimentos simpáticos, afáveis e agradáveis. Mas amigos a sério? Contam-se pelos dedos. Amigo é aquele em quem se pode confiar e contar nos maus momentos. Tive muitas hipóteses de confirmar isso. Mas há uma coisa curiosa... Damos connosco a pensar que há amigos que nunca foram postos à prova! Estranho, não é? Afinal, nunca chegamos a saber até onde podemos contar com eles! E isso só se sabe quando acontece algo de muito desagradável...Por outro lado, também temos grandes surpresas: receber uma palavra, dita ou escrita, de quem nunca se esperaria nada. Isso é muito bonito. De pessoas que não consideramos amigas e que, afinal, têm um gesto desses, tão nobre. Pessoas em quem nunca tínhamos pensado e que nos batem à porta numa altura em que precisamos de alguém. É a voz amiga. A mão suave no nosso ombro. Sem lhes pedirmos nada. E sem nos pedirem nada em troca. É lindíssimo. É o inesperado de que foi feita toda a minha vida. Falar disso, agora, depois de muitas coisas porque passei, comove-me. Desculpe-me... Mas eu sou assim. Estas coisas tocam-me muito..."

O HOMEM IDEAL

Eunice Muñoz pensou, aos dezassete anos, sair de Portugal. Tentar uma carreira noutro país. França, Inglaterra ou Espanha. Fala dessa inrenção, sem arrependimento: "Tive vontade de sair desta terra para tentar a minha sorte como atriz. Mas aos dezassete ou dezoito anos, e sobretudo na minha geração, a ligação com o mundo exterior era difícil para uma rapariga. E, depois, casava-se cedo. Eu fi-lo aos dezoito. Um ano depois tive uma filha. Tudo isso me prendeu." Eunice foi casada com o arquiteto Rui Couto, com o engenheiro Ernesto Borges e com o poeta António Barahona de Andrade. Deles teve quatro rapazes e duas raparigas que lhe deram seis netos. Nunca casou com um ator. Era o mesmo que levar o Teatro para casa. Mas confessa que teve sorte com os maridos. Foram compreensivos para com a sua profissão, com o seu trabalho, com a arte de ser atriz.

Como marido exemplar aponta a figura do pai, Muñoz Cardinali: "Os meus pais fizeram um casal invulgar. Muito unido. É difícil encontrar outro igual. É um caso raro. Eu tenho um ano de diferença do meu irmão Hernâni e catorze do meu irmão Francisco e a minha mãe sempre disse que não sabia o que era ter que se levantar de noite para tratar dos filhos! O meu pai encarregava-se disso! Ele, aliás, era muito mais estrangeiro do que português. Teve uma educação muito lá de fora. Foi criado entre cinco irmãos que sabiam tratar deles próprios. Retenho sempre a imagem do meu pai a lavar loiça, a passar as calças a ferro, a colaborar na lida da casa. Era o marido perfeito. Era ele e a minha mãe e a minha mãe e ele. Indissociáveis. Tratavam da casa, da agência artística que tinham e ainda representavam juntos. Alguém disse, quando ele morreu, que eles só se separavam quando a minha mãe ia ao cabeleireiro, ele, a meio da tarde, levava-lhe o lanche. Fiquei muito perturbada quando ele morreu. E quando passo em revista esses pormenores da vida privada dos meus pais, fico com a sensação de que passei toda a minha vida à procura de um homem igual ao meu pai mas que nunca consegui encontrar. E onde é que se pode encontrar um homem assim? Digam-me lá... Mas ainda não perdi as esperanças..."

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Dos filhos de Eunice, só uma, a Maria, lhe segue as pisadas. Eunice diz que ela tem vocação. Fez Teatro na televisão e gravou peças radiofónicas. Afastou-se por causa da família e por ter ido viver para o Algarve. Mas vai regressar. Eunice afastou-se também da vida teatral em 1951. Cansou-se. Foi trabalhar como secretária. Mas quatro anos depois, Vasco Morgado e um grande amigo, Pinto de Campos, convenceram-na a voltar à ribalta com Joana d'Arc (L'Alouet-te, de Jean Anouilh). Ela teve que cortar as tranças. Esse momento ficou perpetuado numa fotografia que ainda está pendurada num cabeleireiro da Rua Garrett.

Diz-se de Eunice Muñoz que ela prefere quebrar do que torcer. Fez a peça de Júlio Dantas, O Serão das Laranjeiras, grávida do filho António e ensaiou a Leonor Teles, de António Lopes Ribeiro, até à véspera do nascimento do filho Pedro. Duas semanas após o parto estava de volta ao trabalho. Nos anos 60 teve que  substituir a actriz Lígia TeIles, na peça O Milagre de Ann Sullivan. Para decorar o papel esteve doze dias fechada no Hotel Victória, em plena Avenida da Liberdade, longe de tudo e de todos. Aconteceu-lhe, uma vez, esquecer-se de uns versos de António Nobre que tinha de recitar em Coimbra. Tinha feito o percurso de Lisboa a Coimbra sempre a recitá-los e quando estava no palco fez-se-lhe um vazio na memória. António Barahona, que a acompanhava, garantiu-lhe que ela compôs à sua maneira a parte que faltava, mas em que tudo estava certo, inclusivamente  a métrica. Em suma: talento, criatividade e profissionalismo.

E foi com os mesmos dotes que formou com José de Castro a companhia Somos Dois, que integrou o Teatro Nacional Popular, a Companhia Portuguesa de Comediantes e o Teatro Experimental de Cascais. Alguns papéis ficaram memoráveis, pela paixão e arte postas nas composições dos personagens, nomeadamente, e num passado mais recente, Mãe Coragem (de Brecht) e Zerlina (de Herman Broch). Eunice integrou o elenco de uma revista no Maria Vitória (Disco Voador), e uma comédia (Chuva de Filhos). Atriz residente no Teatro Nacional de D. Maria Il, participou em peças televisivas e radiofónicas, o que contribuiu para a popularizar ainda mais. Rodou alguns filmes, designadamente Camões, O Homem do Ribatejo, Maria Papoila, e Tempos Difíceis. Em Maio deste ano, encerrou o desfile de moda da estilista Manuela Gonçalves. Uma carreira galardoada com o aplauso do público e da crítica. Uma atriz condecorada com a Ordem Militar de Santiago e distinguida com a Medalha de Mérito Cultural.

Eunice fixa os olhos no horizonte. Está agora sentada numa cadeira de ferro azul forte, numa esplanada frente ao mar, perto de sua casa. O ar está quente e o céu muito azul. Mais do que as águas onde alguns pequenos veleiros sulcam as ondas. Diz, sem alterar o tom de voz, que vai pedir a reforma este Verão. Vai exercer o seu direito. Mas reformar-se não significará afastar-se da boca de cena. Neste Outono, quando celebrar os 50 anos de carreira, estará a representar O Caminho para Meca, com Irene Cruz e Rui de Carvalho, dirigidos por João Lourenço, numa co-produção entre o Teatro Aberto e o D. Maria II.

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 Espera que a peça seja um êxito. Mas que não acabe cedo: "É uma sina que eu tenho. Quando faço um espetáculo de grande sucesso, acontece qualquer coisa e pronto, acaba-se tudo. Sucedeu isso mesmo com Zerlina. Durou pouco. Havia mais qualquer coisa para fazer no Teatro da Trindade e tivemos que acabar. Assim, sem mais nem menos. AconteceMas é demais... Outras coisas na minha vida também acabaram. Mas não foi por sina..."Foi o caso da sua participação, em lugar não elegível, nas eleições autárquicas como candidata da APU à Assembleia Municipal de Lisboa ou como apoiante da candidatura à Presidência da República da engenheira Maria de Lourdes Pintasilgo. Responde-nos, sem desviar o olhar do horizonte: "De vez em quando participo nessas coisas..."

Teve uma experiência religiosa no Islamismo quando casou com António Barahona, em África. Viveu segundo o Islão em Moçambique. Morou numa palhota no mato. Reconhece, sem tibiezas, ter sido uma experiência fantástica. E quando lhe falamos da subalternização da mulher islâmica em relação ao homem, Eunice Muñoz endireita-se na cadeira de ferro e olha-nos de frente. Bem no interior dos olhos e diz-nos, quase num sussurro: "Elas, inclusivamente, rezam separadas. E sabe porquê? É porque os homens acham que não pode ser de outra forma. Um deles disse-me: "Já viu que nós, homens, rezamos ombro com ombro? Sabe o que seria se uma mulher rezasse ombro com ombro comigo? O corpo dela junto do meu?... O meu coração começava a bater, pam, pam, pam... Não poderia rezar, pensar no que quer que fosse, meditar, orar... Era só o coração a bater, a bater...Isto define tão bem a natureza deles e a dos homens em geral. Já viu alguma coisa mais bonita do que isto? O coração de um homem a bater descompassadamente por causa de uma mulher..."

É a paixão, segundo Eunice. 


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