“Há uma urgência humana em proteger crianças”: Marion Cotillard fala sobre trauma, o ex-marido e o filme aplaudido durante 6 minutos
Em Cannes, Marion Cotillard continuou a ser musa. Em “Karma”, do seu ex-Guillaume Canet, foi insuperável num papel de grande sofrimento físico e emocional. Mas também foi vista em “Roma Elastica”. Conversa num terraço de Cannes, com uma aparição “desconfortável” de…Canet!
Marion Cotillard fala sobre trauma e o novo filme em Cannes
Foto: Getty Images25 de maio de 2026 às 17:57 Rui Pedro Tendinha
Estamos no terraço do Marriot, mesmo no centro da Croisette, O Albane Terrace, e há um vento insuportável. Num pequeno canto deste luxuoso espaço que durante a noite é o sítio mais “in” de Cannes, está um considerável exército de publicistas, artistas de maquilhagem, seguranças e agentes. A realeza do cinema francês está lá bem representada. De um lado, Marion Cotillard, ali a promover Karma, thriller sobre uma seita religiosa que passou fora de competição na seleção oficial da 79ª edição do Festival de Cannes. Do outro, o realizador Guillaume Canet, desta vez apenas realizador, mas mais conhecido por ser ator de Astérix e Obélix: O Império do Meio ou A Praia.
O ambiente é algo awkward: aquele que é o casal mais adorável do cinema francês separou-se recentemente e agora tem de estar junto a promover um filme que foi escrito por Canet propositadamente para a mãe dos seus filhos. Sente-se, de facto, algum desconforto.
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Nos dez minutos contadinhos que tenho Marion Cotillard à minha frente reparo na sua maquilhagem muito suave, pouco batom, quase nada de de eyeliner. Um estilo despojado a contrastar com o look que na noite anterior levou à sessão oficial. Uma Marion menos esfuziante que em outras entrevistas, sobretudo devido ao timing do anúncio da separação. Reparo também na sua camisa branca simples com a marca Chanel bordada em tom colorido.
No filme, é uma mulher com um passado misterioso que foge de Espanha para uma seita em França. Uma seita religiosa com um líder com motivações cruéis e que condena todos os membros a uma vida sem comunicação para o exterior. Cedo o espectador percebe que esta mulher foi criada e escravizada nesta espécie de convento e que voltou para tentar recuperar o filho, fruto de uma violação do cruel líder. Trata-se de um papel forte, mais um no rol de prestações de entrega física devastadora. A atriz sofre a bem sofrer nesta composição, quase na mesma toada de papelões como Ferrugem e Osso e Dois Dias, uma Noite. Uma Marion com visual cansado, sem glamour, cheia de olheiras.
“Esta é uma história sobre essa urgência humana em proteger crianças e as diversas maneiras de se lidar com o trauma. Esta mulher que encarno tem uma maneira muito própria de tentar sobreviver e aguentar a vida. De alguma forma, nega a infância que lhe foi tirada, mas depois o passado chega para lhe apanhar e ela tem de lidar com o trauma diretamente. No começo não percebe, mas depois vai ser obrigada a reagir. Não é ela a decidir, é a vida a puxá-la, a puxá-la para algo maior do que ela, ou seja, a sua natureza verdadeira”, começa por contar sem tirar os seus óculos escuros, também Chanel.
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Foto: DR
No meio da entrevista, olha para Guillaume Canet que está de partida e grita: “já te vais embora?”. Há uma pausa. Guillaume ri e diz em jeito de brincadeira: “a gente vê-se…”. Nova pausa. Ambos continuam a olhar um para outro e vagarosamente Guillaume aproxima-se dela e abraçam-se demoradamente. Sim, tudo muito embaraçoso, sobretudo para os produtores do filme e o agentes que não sabem como reagir a este momento de um ex-casal que já informou a imprensa que continuam muito amigos. Mas naquele abraço sentia-se algo mais do que amizade.
“O Guillaume é um artista espantoso, alguém que respeito para além da vida que partilhámos juntos. Trata-se de um ser humano único capaz de se expor em todos os filmes que faz, independentemente do género. As emoções dele são perceptíveis, quer esteja a filmar drama, comédia ou ação. Isso para mim é fascinante. Aqui estou-lhe muito grata por ter escrito este papel a pensar em mim. Demorámos meses a avançar com esta história mas houve uma altura em que sentimos que era mesmo este o filme que queríamos fazer”, continua. De referir que até ao momento Karma ainda não tem distribuição garantida em Portugal.
E porque Marion e a sua personagem sofrem emocional e fisicamente a uma escala inacreditável deixei no ar a ideia de que os atores gostam de sofrer. Para meu espanto, não me desmentiu: “sim, há aquela ideia de que os atores amam explorar o seu próprio sofrimento e os trauma da vida real. Acredito que ao fazermos isso estamos a explorar aquilo que de mais profundo e louco há no ser humano. A maneira como cada um de nós lida com o trauma revela muita coisa. Mas, claro, adoramos sofrer”. E continua: “de forma mais pessoal, preciso de mostrar emoções fortes e intensas através de uma personagem. Se não o fizer, sinto que não vai ser bom para mim, essas emoções acumulam-se cá dentro e é perigoso. Não sei explicar porquê…”.
Além de Karma, a atriz oscarizada foi também a estrela de Roma Elastica, de Bertrand Mandico, outro filme francês em destaque na Riviera Francesa. Marion a escolher o que lhe bem apetece no cinema francês e em breve já tem planeado regresso a Hollywood, desta vez para filmar ao lado de Tom Cruise.
Está aí um dos filmes mais celebrados do momento: “Valor Sentimental”, de Joachim Trier, história de pais e filhas na Oslo contemporânea. A Máxima esteve com Renate Reinsve e Inga Ibsdotter Lilleaas, nomeada para melhor atriz secundária. Atrizes brilhantes que contam o nível de felicidade que estão a viver após a receção triunfal de um filme que, ao todo, tem nove nomeações da Academia, incluindo melhor filme.