Os ovários “ouvem” o stress - e isso pode mudar tudo sobre menopausa e fertilidade
Um estudo recente revelou que há uma rede de nervos simpáticos nos ovários, a mesma responsável pela resposta ao stress. Com o tempo, essa rede vai ficando mais densa. Porém, quando os investigadores a removeram, os ovários envelheceram mais devagar.
Fomos, desde cedo, levadas a pensar nos nossos ovários como se fossem duas cestas cheias de ovos (ou óvulos, vá). Quando uma bebé do sexo feminino nasce traz já escrito no seu genoma quantos ovos terá em cada cesta. Depois, entra em cena a puberdade que mete a mão nas cestas e desata a gastar ovos como se a validade estivesse a chegar ao fim (o que não deixa de ser verdade), arremessando-os trompa de Falópio abaixo para serem fecundados. Não foram? Paciência, para o mês que vem há mais. Até que a mão invisível (a da fertilidade, não a do capitalismo) apalpa e não encontra nada. Não há mais óvulos ou a qualidade deixa a desejar – é o fim da vida fértil, a menopausa. Sim? Sim, mas não.
Um estudo recente veio demonstrar que esta história está mal contada e que o declínio da quantidade e da qualidade dos óvulos é só parte da questão. A outra parte é o ecossistema dos ovários – ou, se quisermos continuar com a metáfora, se as cestas se encontram em boas condições. Uma investigação: Why Does Female Fertility Decline So Fast? The Key Is the Ovary | UC San Francisco levada a cabo pela Universidade da Califórnia, São Francisco, em parceria com o Chan Zuckerberg Biohub (uma organização sem fins lucrativos dedicada à cura, prevenção e gestão de todas as doenças até ao fim deste século) e apresentada ao público no final do ano passado, mostrou que os ovários são muito mais do que meros recipientes e que constituem um ecossistema vivo, dinâmico e que está em permanente comunicação com o resto do corpo. Para chegarem a esta conclusão, os investigadores usaram um novo sistema de imagiologia a três dimensões que lhes permitiu ver ovários com um detalhe sem precedentes e sem a necessidade de os cortar em fatias finas, como até aqui.
Depois de estudarem quase 100 mil células de ratinhos e de humanos, os investigadores identificaram 11 tipos principais de células presentes nos ovários. Foi aqui que encontraram algo que não esperavam: células gliais. O que esta descoberta tem de surpreendente é o facto de as células gliais serem células de suporte, normalmente associadas ao sistema nervoso, e que têm sido estudadas, sobretudo, no cérebro – onde nutrem os neurónios, removem detritos e ajudam na reparação. Portanto, depois de se ter descoberto, há uns anos, que o intestino é o segundo cérebro – por possuir o sistema nervoso com cerca de 100 a 500 milhões de neurónios que funciona com autonomia –, parece agora ser o caso que os ovários são o terceiro.
Ao mesmo tempo, o estudo revelou que nervos simpáticos – os mesmos envolvidos na resposta de “luta ou fuga” impulsionada pela subida do cortisol durante um momento de stress ou quando uma pessoa se sente ameaçada – formam redes densas nos ovários, que se tornam ainda mais densas com a idade. Quando os investigadores eliminaram estes nervos em ratinhos, os animais passaram a ter mais óvulos em reserva, mas menos a amadurecer, o que sugere que estes nervos ajudam a determinar quando é que os óvulos começam a desenvolver-se. Em conjunto, as observações sobre as células gliais e os nervos simpáticos apontam para um novo papel do sistema nervoso na saúde dos ovários. Ou seja, o que esta investigação veio demonstrar é que a diminuição da quantidade e da qualidade dos óvulos não está só ligada ao envelhecimento natural. Está também muito ligada ao stress.
A ginecologista, especialista em menopausa e autora norte-americana Mary Claire Haver reagiu a este estudo na sua conta do Instagram, revelando-se agradavelmente surpreendida com a revelação de que “o nosso sistema nervoso está directamente envolvido na saúde hormonal”, algo que “muda tudo o que sabemos sobre os ovários”.
A médica diz ainda que “os ovários estão a ‘ouvir’ tudo o que se passa. O stress crónico activa o nosso sistema simpático e agora temos provas de que o sistema que governa a nossa resposta ao stress também governa a nossa saúde hormonal. Ou seja, o stress não ‘vive’ só na nossa cabeça – tem um papel activo no envelhecimento dos nossos ovários.” E sublinha o seguinte: “Quando os investigadores removeram [dos ovários] essas ligações neurais, os ovários envelheceram mais lentamente.” E isso é importante não só de um ponto de vista reprodutivo, mas também porque “quando perdemos a protecção dos nossos ovários, o risco de desenvolvermos diabetes, doença cardiovascular, demência e AVC aumenta”.
Mary Claire Haver conclui dizendo que: “A menopausa é mais do que apenas a falta de óvulos. As nossas hormonas, o nosso cérebro e o nosso stress estão todos interligados, e a ciência está finalmente a compreender isso.”
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