Há um sintoma da menopausa que pode começar nos ouvidos - e chegar ao cérebro

Um estudo recém-publicado demonstrou que alterações da função auditiva durante a perimenopausa e menopausa podem representar a peça que faltava para a compreensão da saúde cerebral feminina.

Menopausa e perda de audição: estudo revela impacto na saúde cerebral feminina Foto: IMDB
24 de março de 2026 às 11:10 Madalena Haderer

Um estudo apresentado no início deste mês acaba de lançar uma nova acha para a fogueira da menopausa – um fogo que, literalmente, arde sem se ver. De acordo com os investigadores, os sintomas auditivos que surgem na fase da perimenopausa e menopausa, e que tendem a ser desconsiderados como um problema no ouvido, podem, na verdade, ser um sinal de que algo se passa com o cérebro. O , publicado na revista médica digital Trends in Cognitive Sciences, sublinha que “a menopausa não é apenas um marco hormonal ou reprodutivo, é uma transição neurológica complexa”. Isto porque os receptores de estrogénio são encontrados em todo o cérebro, bem como nos órgãos sensoriais (o que inclui os ouvidos) onde “desempenham um papel neuroprotector”. “A sua presença,” dizem ainda os investigadores, “combinada com a queda de estrogénio durante a menopausa, sugere que as alterações hormonais podem afectar tanto a cognição como o processamento sensorial.”

Quer isto dizer que os recetores de estrogénio revestem todo o sistema auditivo, desde a cóclea até às estruturas auditivas centrais do cérebro, protegendo a audição. Quando o nível de estrogénio desce na perimenopausa, esta proteção diminui. Razão pela qual muitas mulheres relatam passar a ouvir apitos ou zumbidos (também designados por tinnitus ou acufenos e que correspondem à perceção de um som, no ouvido ou na cabeça, uni ou bilateralmente, sem a existência de um estímulo externo), a ter dificuldades de audição, maior sensibilidade auditiva ou até a sentir comichão nas orelhas e nos ouvidos.

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Os investigadores sublinham ainda que “embora os impactos neurológicos e psicológicos da menopausa comecem a receber atenção na investigação e no debate público, as alterações sensoriais, particularmente a auditiva, permanecem amplamente ausentes desta discussão”. No entanto, alertam que “estas alterações na função auditiva podem representar uma peça fundamental que faltava para a compreensão da saúde cerebral feminina”.

Mais importante ainda, o estudo indica que uma investigação do Biobank (uma base de dados biomédica e recurso de investigação de grande escala que contém informações abrangentes sobre genética, estilo de vida e saúde de 500 mil participantes do Reino Unido), que levou em consideração mais de 214 mil mulheres confirmou que “tanto a menopausa natural como a cirúrgica estão associadas, de forma independente, a um risco aumentado de perda auditiva, com a menopausa precoce a apresentar o maior risco de todos”.

Os investigadores alertam, ainda, para o facto de estas alterações auditivas durante a menopausa serem “particularmente preocupantes”, dado que as mulheres com perda auditiva “podem enfrentar um do que os homens com perfis auditivos comparáveis, o que,” dizem, “realça a necessidade de compreender como as alterações hormonais, auditivas e cognitivas interagem durante esta transição”. Sobre esta interação, estes especialistas avançam três ligações plausíveis: “a menopausa pode afetar o sistema auditivo, a menopausa pode afetar o sistema cognitivo e as alterações auditivas podem amplificar a vulnerabilidade cognitiva, enquanto os comprometimentos cognitivos podem ter impacto no processamento auditivo”.

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Independentemente das ligações em causa, certo é que o sistema de saúde tende a tratar problemas de audição, cognitivos e hormonais como três realidades separadas quando, na verdade, de acordo com este e outros estudos recentes, há cada vez mais evidências de que os três sistemas estão relacionados. Portanto, se sentir algum tipo de alteração auditiva, peça ajuda e não deixe que lhe digam que é “normal”. Procure um especialista em menopausa, ou em medicina funcional e de longevidade, que sabe que, quando se trata a diminuição dos níveis hormonais – quer isso signifique terapia de substituição hormonal, mudanças de dieta e estilo de vida, ou outros tratamentos –, os sintomas auditivos e cognitivos podem ser controlados.

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