A trend parece simples: tirar print screen a mensagens enviadas por ex-namorados, maioritariamente em momentos de discussão, e deixar a inteligência artificial criar uma música com o seu conteúdo. No início parecia inofensiva, algumas piadas, muito desespero e uma dose gigante de falta de noção, no final de contas, já todas passamos por isso. O problema surge quando a adesão é elevada e rapidamente se revelam sinais de manipulação, controlo emocional e, em certos casos, abuso psicológico (e muitas ameaças de violência física). Tudo isto disfarçado de humor e sempre acompanhado de muitos emojis, claro.
As redes sociais e a onda de informação a que temos acesso hoje, tem tanto de fantástico como de perigoso. Aquela que é considerada a geração mais informada e com maior nível de educação, é também a mais influenciável. Aquilo a que devíamos estar atentos, muitas vezes torna-se mais uma trend, mais uma oportunidade de aparecer, mais um conteúdo humorístico que nos pode trazer likes, visualizações e uma falsa sensação de pertença. Será isto ignorância ou um pedido de ajuda?
Mesmo sem intenção, a partilha pública de mensagens com teor abusivo, às quais se responde em forma de likes e risos acaba por contribuir para a normalização de comportamentos tóxicos. As redes sociais têm o poder de salvar, mas continuamos a escolher o seu pior lado ao transformar experiências dolorosas em entretenimento rápido.
Segundo Inês Ribeiro, psicóloga, num artigo publicado no site da LabPsi, existem características comuns nas relações abusivas que podem ser facilmente reconhecidas: “O que define uma relação tóxica é a repetição de dinâmicas nocivas, como manipulação, controlo, desvalorização, chantagem emocional, abuso de poder ou ausência de empatia”.
Apesar de cada caso ser único é importante estar atento a:
Manipulação emocional: O uso de culpa, chantagem emocional ou distorção da realidade para controlar o outro;
Desvalorização constante: críticas excessivas, piadas ofensivas ou diminuição dos sentimentos do outro.
Ciúmes e controlo: controlo de localização, mensagens e amizades.
Isolamento social: incentivo ao afastamento de amigos e familiares, o que acaba por criar dependência emocional no abusador.
O crescimento da popularidade destas trends traz também outro problema à superfície: a identificação em massa. Na caixa de comentários destes vídeos, podemos muitas vezes ler frases como “Ainda bem que não sou a única” e “O meu ex era igual”, repetidas por milhares de mulheres que, aparentemente, já se viram na mesma situação.
Assim se vê o quão profundamente enraizadas e o quão socialmente banalizadas estão este tipo de relações. As redes sociais têm esta capacidade paradoxal: criar espaços de denúncia coletiva e banalizar aquilo que denuncia.
Infelizmente o algoritmo continua a priorizar o choque e a partilha rápida em vez de dar atenção à reflexão. O humor torna-se mecanismo de defesa e de aceitação numa geração habituada em consumir dor em formato de entretenimento.