A trend das redes sociais que está a banalizar o abuso emocional

O que começou como uma brincadeira viral na internet está a gerar preocupação entre especialistas, que alertam para a banalização do abuso emocional e dos seus sinais.

It ends with us (2024) Foto: IMDB
11 de maio de 2026 às 19:11 Rita Pinto da Silva / com Patrícia Domingues

A trend parece simples: tirar print screen a mensagens enviadas por ex-namorados, maioritariamente em momentos de discussão, e deixar a inteligência artificial criar uma música com o seu conteúdo. No início parecia inofensiva, algumas piadas, muito desespero e uma dose gigante de falta de noção, no final de contas, já todas passamos por isso. O problema surge quando a adesão é elevada e rapidamente se revelam sinais de manipulação, controlo emocional e, em certos casos, abuso psicológico (e muitas ameaças de violência física). Tudo isto disfarçado de humor e sempre acompanhado de muitos emojis, claro.   

As redes sociais e a onda de informação a que temos acesso hoje, tem tanto de fantástico como de perigoso. Aquela que é considerada a geração mais informada e com maior nível de educação, é também a mais influenciável. Aquilo a que devíamos estar atentos, muitas vezes torna-se mais uma trend, mais uma oportunidade de aparecer, mais um conteúdo humorístico que nos pode trazer likes, visualizações e uma falsa sensação de pertença. Será isto ignorância ou um pedido de ajuda?  

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Mesmo sem intenção, a partilha pública de mensagens com teor abusivo, às quais se responde em forma de likes e risos acaba por contribuir para a normalização de comportamentos tóxicos. As redes sociais têm o poder de salvar, mas continuamos a escolher o seu pior lado ao transformar experiências dolorosas em entretenimento rápido.

Segundo Inês Ribeiro, psicóloga, num , existem características comuns nas relações abusivas que podem ser facilmente reconhecidas: “O que define uma relação tóxica é a repetição de dinâmicas nocivas, como manipulação, controlo, desvalorização, chantagem emocional, abuso de poder ou ausência de empatia”.

Apesar de cada caso ser único é importante estar atento a: 

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Manipulação emocional: O uso de culpa, chantagem emocional ou distorção da realidade para controlar o outro; 

Desvalorização constante: críticas excessivas, piadas ofensivas ou diminuição dos sentimentos do outro. 

Ciúmes e controlo: controlo de localização, mensagens e amizades. 

Isolamento social: incentivo ao afastamento de amigos e familiares, o que acaba por criar dependência emocional no abusador.  

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O crescimento da popularidade destas trends traz também outro problema à superfície: a identificação em massa. Na caixa de comentários destes vídeos, podemos muitas vezes ler frases como “Ainda bem que não sou a única” e “O meu ex era igual”, repetidas por milhares de mulheres que, aparentemente, já se viram na mesma situação.

Assim se vê o quão profundamente enraizadas e o quão socialmente banalizadas estão este tipo de relações. As redes sociais têm esta capacidade paradoxal: criar espaços de denúncia coletiva e banalizar aquilo que denuncia. 

Infelizmente o algoritmo continua a priorizar o choque e a partilha rápida em vez de dar atenção à reflexão. O humor torna-se mecanismo de defesa e de aceitação numa geração habituada em consumir dor em formato de entretenimento.   

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