Assim que o calor aumenta, cresce a violência contra as mulheres. 1 em cada 3 já foram vítimas de abuso físico, sexual ou psicológico

As temperaturas altas estão a tornar-se mais do que um problema climático - estão a agravar uma realidade antiga, íntima e brutal. Estudo aponta aumento de 28% nos casos de feminicídio durante ondas de calor.

O aumento da violência contra mulheres é associado a temperaturas elevadas Foto: Getty Images
21 de abril de 2026 às 11:38 Safiya Ayoob

Durante anos, habituámo-nos a pensar o calor como desconforto. Um excesso de verão. Uma cidade que se torna quase inabitável em agosto. Corpos cansados, noites mal dormidas, transportes irrespiráveis, casas demasiado quentes para descansar. Mas o calor é mais do que isso. À medida que as temperaturas sobem, não se agravam apenas os riscos cardiovasculares, a exaustão ou os incêndios. Agravam-se também tensões sociais, desequilíbrios emocionais e vulnerabilidades que já existiam, entre elas, a violência contra as mulheres.

É uma associação desconfortável, mas cada vez mais difícil de ignorar. O estudo, publicado em 2025, analisou a investigação disponível sobre a relação entre temperaturas elevadas e violência contra as mulheres em diferentes geografias. A conclusão é clara: de forma geral, os estudos apontam para uma associação positiva entre calor e aumento dos casos de violência. Não porque o calor, por si só, “explique” a violência, mas porque intensifica contextos já marcados por desigualdade, stress, privação e controlo.

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A revisão analisou nove estudos feitos em países de rendimento alto e em países de rendimento baixo e médio, com dados da Índia, Nepal, Paquistão, vários países africanos, Espanha, Rússia, Austrália e Estados Unidos. Em conjunto, estes trabalhos mostram um padrão consistente: quando a temperatura sobe, aumentam também os episódios de violência por parceiro íntimo, violência doméstica e, em alguns contextos, violência sexual.

Num dos dados mais expressivos, um estudo sobre Índia, Nepal e Paquistão concluiu que a prevalência de violência por parceiro íntimo aumenta 4,5% por cada subida de 1 ºC na temperatura média anual. O mesmo trabalho estima que, num cenário de emissões sem limites, essa violência poderá crescer 21% até ao final do século. Noutro estudo, com dados de 34 países em desenvolvimento, uma subida média de 5,94 ºC foi associada a um aumento de 3,7% no risco de violência por parceiro íntimo.

Uma das ideias mais importantes deste estudo é a de que o calor deve ser pensado também como fator social. Os autores recorrem a duas teorias para explicar esta ligação. A primeira é a hipótese temperatura-agressão, segundo a qual o calor aumenta a irritabilidade, o desconforto físico e a impulsividade, reduzindo o autocontrolo. A segunda é a teoria da atividade rotineira: quando as condições ambientais mudam, mudam também os comportamentos quotidianos, os tempos de permanência em casa, as interacções sociais e os contextos de exposição ao risco.

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É aqui que a crise climática deixa de ser uma abstração e entra na esfera íntima. Em períodos de calor extremo, as pessoas ficam mais tempo em espaços fechados, por vezes pequenos, mal ventilados e sem condições térmicas adequadas. O que já é tensão torna-se sufoco. O que já é controlo pode tornar-se violência. A revisão recupera, aliás, um paralelismo importante com os confinamentos da pandemia: quando a vida se comprime dentro de casa, o risco para mulheres que vivem relações abusivas pode aumentar.

A associação não aparece apenas em estudos amplos ou em países pobres. Em Madrid, durante ondas de calor, registou-se um aumento das ocorrências de violência por parceiro íntimo um dia após o início do episódio extremo. Mais grave ainda: o risco de feminicídio por parceiro íntimo atingiu o pico três dias depois, e as chamadas para a linha de apoio aumentaram cinco dias após o começo da onda de calor. Nos Estados Unidos, estudos em Minneapolis mostraram que a violência doméstica aumentava em dias em que a temperatura ultrapassava determinados limiares, nomeadamente acima dos 27 ºC e dos 30 ºC, dependendo da análise. Outro estudo, feito em sete grandes cidades norte-americanas, concluiu que um aumento de 5 ºC na temperatura média diária estava associado a uma subida de 4,5% nos crimes sexuais nos oito dias seguintes. Na Austrália, os dados mostraram que a violência doméstica aumentava com a subida da temperatura, sobretudo em contextos interiores, e que as agressões sexuais atingiam um pico por volta dos 30 ºC.

O calor não atua sobre um terreno neutro. Age sobre desigualdades já existentes. E é por isso que o estudo insiste num ponto essencial: a violência agravada pelas altas temperaturas atinge com mais força mulheres em contextos de maior vulnerabilidade social e económica. Mulheres de baixos rendimentos, com menor escolaridade, residentes em zonas rurais, com parceiros menos escolarizados ou em contextos fortemente patriarcais revelam um risco acrescido. Num dos estudos analisados, a violência por parceiro íntimo subiu 5,09% nos agregados de baixos rendimentos, contra 3,38% nos de rendimentos mais altos. Noutro, as mulheres pobres, rurais e com menos educação surgiram de forma consistente entre as mais expostas. A casa inacabada, a falta de ar condicionado, a dependência económica, o desemprego masculino, a insegurança alimentar e o álcool não surgem aqui como notas marginais; surgem como parte da infraestrutura invisível da violência.

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É isto que torna a questão tão séria. O calor não funciona sozinho. Funciona em aliança com aquilo que já falhou: a protecção social, a autonomia económica, a habitação digna, a igualdade de género. Em sociedades onde a autoridade masculina continua a ser naturalizada e a violência ainda é tolerada ou silenciada, a pressão térmica pode funcionar como um detonador adicional.

Mesmo que ainda faltem estudos portugueses que cruzem directamente ondas de calor e violência contra as mulheres, a realidade nacional está longe de permitir complacência. Como foi referido num, com base no Relatório Anual de Segurança Interna de 2025, o crime de violação aumentou 6,4% em Portugal, totalizando 578 participações - cerca de 11 casos por semana. No mesmo retrato, os arguidos são, em 97,9% dos casos, homens, e as vítimas, em 90,3%, mulheres. Em 51,8% das situações, existia uma relação prévia de conhecimento ou proximidade familiar entre vítima e agressor. Esses números não demonstram, por si, que o calor esteja a aumentar a violência sexual em Portugal. Seria intelectualmente desonesto dizê-lo. Mas ajudam a fixar uma ideia indispensável: a violência sobre as mulheres não é um problema distante, nem episódico, nem residual. Está perto. Acontece no interior das relações, no perímetro da confiança, muitas vezes no espaço doméstico ou na esfera do conhecido. E isso torna ainda mais relevante a evidência internacional que liga calor extremo e agravamento do risco.

O mérito maior desta investigação talvez seja obrigar-nos a mudar a moldura. As alterações climáticas não são apenas uma questão ambiental. São uma questão de saúde pública, de justiça social e, claramente, de género. Se as ondas de calor aumentam o risco de violência contra as mulheres, então os planos de adaptação climática não podem continuar a ser neutros no papel e cegos na prática.

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